Mundo de ficçãoIniciar sessãoO céu, que antes ostentava um azul imaculado, começou a ser tingido por tons de um violeta denso e lúgubre, como se a própria natureza estivesse se preparando para o luto. A bordo do Imperador, a música eletrônica pulsava nas caixas de som, abafando o som das ondas e, tragicamente, o estalar metálico que vinha do compartimento de máquinas. Clarice, voltando do interior da cabine com o balde de gelo, sentiu uma vibração estranha sob a sola dos pés — um tremor que subia pelas pernas e se alojava no centro do peito como um aviso de morte.
Vitor e Beatriz estavam agora abraçados na proa, os copos de cristal refletindo o último brilho do sol. A cena era uma adaga cravada no espírito de Clarice. Beatriz, percebendo a aproximação da rival, inclinou o corpo para trás, permitindo que Vitor lhe desse um gole de champanhe diretamente na boca. Era uma exibição grotesca, uma humilhação gratuita que os pais de Clarice assistiam com uma complacência que beirava o sadismo. Helena sorria para o marido, ignorando o rosto empalidecido da filha. — Vitor, você não acha que o motor está com um som estranho? — Clarice perguntou, ignorando a provocação e focando no instinto que gritava em seus ouvidos. Ela deixou o balde de gelo sobre a mesa, as mãos ainda trêmulas. Vitor soltou uma gargalhada, limpando uma gota de bebida do canto da boca de Beatriz com o polegar. — Lá vem ela de novo. Clarice, você é a única pessoa no mundo capaz de encontrar defeito em um iate de cinquenta milhões de dólares. Pare de procurar problemas onde só existe perfeição. Deixe de ser tão densa, pelo menos por uma hora. — Ele tem razão, Clari — Beatriz desdenhou, ajeitando o biquíni dourado que parecia brilhar com a luz do entardecer. — Você está projetando sua insegurança no barco. Por que não bebe algo e relaxa? Você está deixando todo mundo desconfortável com esse seu rosto de funeral em pleno sábado. O Sr. Valente, que conversava com o capitão alguns metros dali, voltou-se para a filha com um olhar de pura irritação. — Clarice, se você disser mais uma palavra pessimista, eu juro que mando você voltar para o Rio no bote de apoio agora mesmo. Não estrague este passeio para o Vitor. Aprenda a ser leve como a Beatriz, ou fique em silêncio. Clarice calou-se. Ela caminhou até a popa do barco, longe das risadas e do desprezo, e olhou para a esteira branca que o iate deixava na água. Ela sentia-se como aquela espuma: branca, efêmera e prestes a desaparecer na imensidão. Foi nesse momento de solidão absoluta, enquanto o sol mergulhava no horizonte, que o mundo explodiu. O estrondo não veio do céu, mas debaixo deles. Um som ensurdecedor de metal sendo rasgado, seguido por um vácuo de silêncio que durou apenas um milésimo de segundo antes que uma onda de calor lavasse o convés. Uma explosão na casa de máquinas lançou Clarice contra a amurada, e o cheiro de diesel e fumaça química instantaneamente substituiu a brisa marinha. O grito que se seguiu não era de música, mas de puro pânico. O iate começou a adernar para a direita com uma velocidade assustadora. Vitor, o "herói" de maxilar firme, foi o primeiro a perder o controle. Ele tropeçou nos próprios pés, os olhos arregalados de terror, enquanto uma segunda explosão lançava escombros de vidro para todos os lados. Clarice viu o momento em que uma viga do teto da cabine superior cedeu, atingindo Vitor no ombro e lançando-o para fora da embarcação, direto para as águas escuras e cobertas por uma mancha de óleo em chamas. — O bote! Peguem o bote! — Beatriz gritava, sua voz agora aguda e desprovida de qualquer charme. Ela não olhou para Vitor, nem para os pais de Clarice; ela correu em direção à estação de salvamento, empurrando um tripulante para garantir seu lugar. Sua sobrevivência era a única prioridade, e a máscara de "heroína prática" derreteu diante do medo primordial. Em meio ao caos, os pais de Clarice foram arrastados por Beatriz para o primeiro bote que descia. — Clarice, venha logo! O barco vai afundar! — gritou o Sr. Valente, mas ele não fez menção de sair do bote para ajudá-la a descer. Ele estava ocupado demais segurando a mão de Beatriz, que soluçava dramaticamente para garantir que ninguém a deixasse para trás. — O Vitor caiu! Ele está preso lá embaixo! — Clarice berrou, apontando para as chamas na água. — Esqueça o Vitor! Ele já era, o impacto foi muito forte! — Beatriz gritou do bote, sua voz carregada de uma frieza assassina. — Remem! Temos que sair do alcance da sucção! Se ficarmos aqui, vamos todos para o fundo! Clarice não pensou. Ela não pesou o fato de que aquele homem a havia humilhado e a trocado por uma mentira. Movida por aquele amor profundo que todos chamavam de fraqueza, ela saltou na água gélida e escura enquanto o iate dava seu último suspiro metálico. O impacto foi como bater em um muro, mas ela nadou para baixo, em direção ao brilho alaranjado. Lá embaixo, o cenário era um pesadelo. Ela encontrou Vitor; ele estava consciente, mas seus olhos mostravam um pânico absoluto. Sua perna e o braço estavam presos entre uma parte da carenagem do motor e a estrutura do barco que afundava. Ele estava sendo puxado para o abismo. Clarice sentiu seus pulmões implorarem por ar, mas ela se agarrou ao metal incandescente. Suas mãos foram cortadas instantaneamente pelas bordas afiadas, o sangue se misturando à água salgada, mas ela não soltou. Ela usou cada grama de sua força, alavancando o corpo contra o destroço até sentir o osso de Vitor se libertar. Ela o agarrou pela gola da camisa e começou a subida. Quando finalmente romperam a superfície, Clarice tossiu desesperadamente, tentando manter a cabeça de um Vitor semi-inconsciente acima da linha d'água. Ela nadou com um braço só, arrastando o peso morto dele em direção à pequena faixa de areia de uma ilha deserta que se desenhava na penumbra. Ao chegarem na areia, Clarice usou suas últimas forças para arrastá-lo para longe das ondas. Ela desabou ao lado dele, as mãos em carne viva, o peito doendo como se estivesse cheio de brasas. Ela estava viva. Ele estava vivo. Ela o salvara. Mas, enquanto sua consciência começava a falhar, ela viu o vulto de Beatriz e de seus pais desembarcando do bote logo à frente. Beatriz viu a cena: Vitor vivo e Clarice desfalecendo. Em um movimento rápido e vil, a amiga molhou o próprio rosto, rasgou o tecido de sua saída de praia e se jogou sobre Vitor, começando a gritar por socorro com uma encenação impecável. — Eu o trouxe! Eu consegui! Eu mergulhei no fogo por você, Vitor! Clarice tentou levantar a mão ensanguentada, mas o Sr. Valente chegou primeiro, empurrando-a para o lado para abraçar Beatriz. — Você é um milagre, Beatriz! — ele exclamou, sem sequer olhar para os ferimentos horríveis nas mãos da própria filha. Clarice então mergulhando no silêncio do coma, enquanto a mentira de Beatriz era batizada pelas luzes do resgate que surgiam no céu.






