Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som das pás do helicóptero de resgate cortava o ar da madrugada como facas, mas para Clarice, aquele ruído era apenas um eco distante dentro de um túnel infinito de gelo. Ela estava caída na areia, a poucos metros de Vitor, suas mãos — agora reduzidas a carne viva e areia incrustada — estendidas em um último espasmo de socorro. No entanto, os holofotes do resgate não buscavam a luz de seus olhos; eles buscavam o drama encenado por Beatriz.
— Ela está respirando! Eu consegui manter o pulso dele! — Beatriz gritava, a voz embargada por um choro teatral, enquanto se jogava sobre o peito de Vitor, manchando a própria pele com o sangue que, na verdade, brotava das feridas de Clarice. O Sr. Valente saltou do bote de apoio antes mesmo que ele encostasse na areia. Ele ignorou o vulto imóvel da filha, cujo vestido branco de linho agora estava rasgado e sujo de graxa, e correu até Beatriz. Para ele, a imagem de Beatriz, desgrenhada e soluçante, era a prova irrefutável de uma coragem que ele jamais acreditou que sua própria filha pudesse ter. Ele via em Beatriz a força bruta que admirava, a capacidade de agir sob pressão que ele sempre usou para humilhar a "moleza" de Clarice. — Beatriz, você é um milagre! — o pai de Clarice exclamou, ajudando-a a se levantar com uma reverência que nunca dedicara à própria prole. — Eu vi o iate explodir... pensei que o herdeiro dos Albuquerque estivesse perdido. Você salvou não apenas um homem, mas o futuro de todos nós. Você é a filha que eu sempre quis ter. — Foi horrível, Sr. Valente... a água estava tão escura... eu achei que não fosse conseguir puxá-lo... — Beatriz mentia com uma naturalidade sociopata, escondendo as mãos perfeitamente ilesas sob as dobras de sua saída de praia. Ela olhou de relance para Clarice, um olhar gélido de quem confere se a testemunha de seu crime ainda respira. Só então, quase como uma nota de rodapé, o Sr. Valente olhou para Clarice. Ela tentava balbuciar algo, sua mão trêmula apontando para as águas, um esforço hercúleo para dizer que fora ela quem mergulhara entre as chamas. Mas o pai, em sua arrogância absoluta, interpretou o gesto de forma vil, sentindo apenas irritação pelo "atraso" que a fragilidade da filha causaria. — Olhe para ela — o Sr. Valente disse, o rosto retorcido em um desprezo visceral. — Olhe para a sua filha, Helena. Enquanto a amiga mergulhava no inferno para salvar o noivo, Clarice ficou aqui, provavelmente tendo um de seus ataques de pânico, arrastando-se na areia. Veja como ela está imunda. Que covardia patética. Ela não conseguiu nem ficar de pé para ajudar a Beatriz a carregar o homem. — Pai... não... eu... — o sussurro de Clarice foi abafado pelo ronco do motor do resgate. — Não me chame de pai! — ele rugiu, aproximando-se apenas para olhar com nojo as feridas dela, sem tocá-la. — Você é uma vergonha. Beatriz é a heroína, e você é apenas o peso morto que sobrou desse naufrágio. Se você tivesse um pingo de dignidade, estaria agradecendo a ela por salvar o seu noivo, já que você foi incapaz de molhar o pé para isso. Nesse exato momento, enquanto os paramédicos colocavam Vitor em uma maca, o relógio de ouro de Vitor, que Clarice havia arrancado da viga de metal sob a água para libertá-lo, caiu de seus dedos sem força e afundou na areia fofa. O Sr. Valente, ao caminhar em direção ao helicóptero, pisou exatamente sobre o relógio, enterrando-o sob o peso de seu sapato caro. Era a prova física do heroísmo dela, agora sepultada pela cegueira e pelo ódio do próprio pai. — Levem o Vitor e a Beatriz primeiro! — ordenou o Sr. Valente aos socorristas. — Eles são a prioridade absoluta. A Clarice... bem, ela pode esperar o transporte de carga. Ela só está em choque por causa de sua própria fraqueza. Não gastem oxigênio com quem não tem coragem de viver. Dona Helena apenas observava, segurando o próprio roupão com força, sem coragem de contestar o marido ou de abraçar a filha que entrava em choque térmico. O desamparo de Clarice era total. Enquanto Beatriz subia no helicóptero sob os flashes dos fotógrafos que já chegavam à costa, Clarice era colocada em uma maca secundária, tratada como um entulho de guerra, esquecida na penumbra do convés de resgate. No hospital, a farsa se consolidou como se fosse mármore. Vitor foi levado para a suíte presidencial, e Beatriz instalou-se ao lado dele como a vigilante incansável. Clarice, por outro lado, foi levada para a unidade de terapia intensiva. Seu estado era gravíssimo; a viga que atingira o iate causara uma hemorragia interna e uma lesão pulmonar que ninguém notara na praia por estarem ocupados demais celebrando a mentira de Beatriz. — Ela entrou em coma — anunciou o médico, horas depois, no corredor frio. — O trauma torácico foi severo. Ela deve ter feito um esforço sobre-humano antes de apagar, pois há danos musculares que só ocorrem sob estresse extremo. O Sr. Valente soltou uma risada amarga diante da equipe médica, cruzando os braços. — Esforço? O único esforço que minha filha fez foi o de tentar salvar a própria pele e falhar miseravelmente. Esse coma é apenas o corpo dela desistindo, como ela sempre desistiu de tudo o que era difícil. Se ela morrer, será por pura falta de vontade. Não gastem recursos extraordinários com ela. Foquem em quem importa. A partir daquele dia, o quarto de Clarice tornou-se um mausoléu de esquecimento. Durante os meses em que ela permaneceu ligada a aparelhos, seus pais a visitaram apenas para assinar papéis burocráticos. Eles passavam a maior parte do tempo na mansão dos Albuquerque, organizando festas em homenagem a Beatriz, a "Salvadora das Empresas", enquanto Clarice era mantida viva por máquinas em um hospital público para onde fora transferida por "contenção de despesas". Vitor, ao acordar semanas depois, perguntou por Clarice. A resposta do Sr. Valente selou o destino da menina com um lacre de chumbo: — Ela está em um estado vegetativo, Vitor. O susto foi demais para a cabecinha dela. Ela não suportou ver o perigo e simplesmente desligou. Beatriz, por outro lado... bem, ela arriscou a vida por você. Ela é a mulher que merece o seu sobrenome. Vitor olhou para Beatriz, que sorria com a doçura de um anjo caído, e sentiu uma gratidão cega. Ele nunca questionou como Beatriz saíra ilesa de um incêndio; ele apenas queria acreditar que sua salvadora era alguém tão superficial quanto ele. Clarice em seu leito de hospital, o rosto pálido e as mãos enfaixadas. No entanto, em um momento de silêncio absoluto na UTI, o monitor cardíaco emitiu um bipe acelerado. O coração de Clarice, aquele que "amava profundamente", estava se recusando a parar. Ela estava voltando.






