CAPÍTULO 3 — EQUILÍBRIO

POV RAUL

Passei no quarto da minha avó mais vezes do que considerei necessário naquela manhã.

Na primeira, ela ainda dormia, a respiração tranquila, o rosto sereno de quem parecia não carregar o peso das próprias manipulações. Julia estava ao lado da cama, ajustando os lençóis com cuidado, e garantiu que ela havia descansado bem. Assenti, mas não respondi. Na segunda vez, Otília já estava lá, conferindo a medicação e repetindo exatamente a mesma coisa: a noite tinha sido tranquila, a pressão estava controlada, não havia motivo para preocupação.

Mesmo assim, voltei uma terceira vez.

Ela continuava dormindo.

E, ainda assim, algo em mim não aceitava aquilo como suficiente.

Fiquei alguns segundos parado na porta, observando-a em silêncio. Pequena demais naquela cama grande, frágil de uma forma que não combinava com a mulher que, poucas horas antes, discutia tempero como se estivesse comandando um exército.

Levei a mão ao nariz, pressionando levemente.

Controle.

Era só isso.

Saí do quarto sem fazer barulho e segui pelo corredor, ajustando o paletó enquanto descia as escadas. A casa estava como sempre: organizada, silenciosa, funcionando exatamente como deveria. Nada fora do lugar. Nada fora do controle.

Como eu exigia.

O carro já me aguardava.

O trajeto até a empresa foi rápido, eficiente, sem desvios. Eu não precisava olhar o relógio para saber que estava no horário. Nunca estive fora dele.

O prédio do Maldonado Group se erguia imponente no centro da cidade, vidro e aço refletindo a luz da manhã como uma extensão natural do que eu havia construído. Não era apenas um edifício. Era uma declaração.

Entrei sem diminuir o passo.

Funcionários se moveram automaticamente, abrindo espaço, cumprimentando com respeito contido. Ninguém falava mais alto do que o necessário. Ninguém se aproximava além do permitido.

Era assim que funcionava.

Subi direto para o meu andar.

— Bom dia — murmurei ao entrar na sala.

— Bom dia? — Lorenzo respondeu, erguendo uma sobrancelha enquanto se recostava na cadeira, um sorriso já surgindo no canto da boca. — Então ela ainda está viva.

Lancei um olhar breve na direção dele.

— Ela sempre está.

— Ótimo. — Ele assentiu, cruzando os braços. — Porque, considerando o histórico recente… eu já estava me preparando psicologicamente para um drama maior.

Soltei o ar pelo nariz, passando a mão rapidamente sobre ele, pressionando de leve.

— O que ela fez dessa vez? — ele continuou, claramente interessado.

— Nada.

Ele inclinou a cabeça.

— Isso é mais preocupante.

Ignorei o comentário e me aproximei da mesa, largando o celular ao lado dos documentos já organizados.

— Vovó vai acabar te matando do coração — ele acrescentou, sem perder o tom leve.

— Improvável.

— Eu não apostaria nisso.

Ele se levantou, pegando o tablet e colocando à minha frente.

— Temos três reuniões pela manhã, duas visitas aos restaurantes no período da tarde e, na semana que vem, viagem confirmada para Pompeia, Herculano, Sorrento e Capri. Todos os gerentes regionais querem sua presença.

Assenti, passando os olhos pelas informações com rapidez.

— Ajuste os horários. Não quero atrasos.

— Você nunca quer — ele respondeu, apoiando as mãos na mesa. — Mas, considerando que você está distraído…

Ergui o olhar lentamente.

— Eu não estou.

Ele sustentou o olhar por um segundo, depois sorriu de lado.

— Claro que não.

A porta se abriu sem que ninguém anunciasse.

Lorenzo nem precisou olhar para saber quem era.

— Impressionante — murmurou ele, seco. — Eu estava justamente sentindo falta de um pouco de inconveniência na minha manhã.

Ela entrou como se o espaço já fosse dela.

Sierra.

Os saltos marcavam o ritmo da presença dela, precisa, confiante, calculada. A roupa não era inadequada… mas era escolhida com intenção demais para ser ignorada. Cada detalhe dizia exatamente o que ela queria que dissesse.

— Bom dia — disse ela, fechando a porta atrás de si.

Não levantei os olhos.

— Você sabe que isso aqui é uma empresa, não um desfile — Lorenzo comentou, sem qualquer esforço para esconder a antipatia.

Ela revirou os olhos com elegância, como quem já estava acostumada a ignorá-lo, e caminhou até a cadeira à frente da minha mesa, sentando-se sem ser convidada.

— Me traga um café, Lorenzo. Forte.

Olhei para ele.

Não precisei dizer nada.

Ele entendeu.

Saiu.

O silêncio que ficou não era desconfortável. Era carregado.

Sierra sorriu de leve, inclinando a cabeça.

— Você não parece bem.

— Eu estou.

— Raul… — ela soltou, com um leve suspiro. — Nós nos conhecemos há tempo demais para você tentar esse tipo de resposta comigo.

Continuei analisando os documentos à minha frente.

— Então não pergunte.

Ela se levantou.

Sem pressa.

Deu a volta na mesa e parou atrás de mim. Senti as mãos dela pousarem nos meus ombros, firmes, seguras, começando uma pressão calculada, como se já soubesse exatamente onde tocar.

— Me fala… — murmurou perto demais. — quem está deixando esses ombros assim?

Fechei os olhos por um segundo.

Não porque queria.

Mas porque, de fato, a tensão estava ali.

E ela sabia.

Era isso que a tornava perigosa.

— Você não precisa carregar tudo sozinho — continuou ela, a voz baixa, controlada.

Não respondi.

Não me afastei.

Mas também não cedi.

Ela parou.

Contornou a mesa novamente e se sentou na beira dela, de frente para mim, cruzando as pernas com calma, como se já tivesse todo o tempo do mundo.

— Vamos parar de fingir — disse, olhando diretamente para mim. — Nós dois sabemos que não existe ninguém mais adequado do que eu.

Levantei os olhos.

Agora, sim.

— Para quê?

Ela sorriu.

— Para estar ao seu lado. Para manter isso tudo funcionando como deve. — Fez um gesto sutil com a mão, indicando a empresa ao redor. — Para ser sua esposa.

Silêncio.

Considerei.

Por um segundo.

Ela era eficiente. Inteligente. Sabia como o sistema funcionava porque ajudou a construí-lo comigo. Estava ali desde o início, quando o nome Maldonado ainda não significava o que significa hoje.

Era… lógico.

Conveniente.

Seguro.

Mas não era necessário.

Afastei-me levemente.

— Você confunde conveniência com necessidade — falei, com calma. — Eu não preciso de você.

O sorriso dela não desapareceu.

Mas mudou.

Pequeno.

Controlado.

A mão dela fechou discretamente por um instante, antes de relaxar.

Ela se levantou com elegância.

— Um dia você vai perceber que precisa.

Ajustou a roupa com naturalidade.

— E quando esse dia chegar… eu ainda vou estar aqui.

Se inclinou levemente, depositando um beijo rápido na minha testa, como se aquilo fosse algo natural entre nós.

Não era.

— Pense nisso — acrescentou.

E saiu.

O silêncio voltou.

Ficou.

Olhei para a porta por alguns segundos.

Nenhuma reação.

Nenhum sentimento.

Nada.

Lorenzo voltou com o café, parando ao meu lado.

— Eu perdi alguma proposta indecente?

— Nada relevante.

Ele colocou a xícara na mesa.

— Interessante. Porque, do lado de fora, parecia uma negociação internacional.

Ignorei.

Voltei aos documentos.

Mas, por um breve instante…

A palavra permaneceu.

Casamento.

Levei a mão ao nariz, pressionando levemente.

Aquilo não fazia parte do meu mundo.

Nunca fez.

Mas, pela primeira vez…

não parecia tão distante quanto deveria.

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