CAPÍTULO 2 — CONTROLE

POV RAUL

O carro avançava pelas ruas de Nápoles com a mesma precisão que regia tudo na minha vida. Sem desvios, sem hesitação, sem espaço para imprevistos. Do lado de fora, a cidade pulsava em seu próprio ritmo, caótica, viva, cheia de vozes e movimentos que se cruzavam sem ordem aparente. Pessoas caminhavam apressadas, vendedores gritavam ofertas, buzinas cortavam o ar quente do início da noite… e, ainda assim, nada daquilo me atingia de verdade.

Eu observava pela janela com um interesse distante, como quem assiste algo que já entende por completo.

Meu nome abre portas antes mesmo de eu atravessá-las.

Maldonado não é apenas um sobrenome. É uma estrutura. Uma garantia. Um aviso.

Não construí o que tenho em uma noite, nem em um golpe de sorte. Cada restaurante, cada contrato, cada expansão foi calculada com precisão, erguida sobre decisões que poucos teriam coragem de tomar. E é exatamente por isso que ninguém no meu mundo se permite errar.

Erro custa caro.

E quem trabalha comigo sabe disso.

— A reunião com os investidores foi confirmada para às dez — informou Lorenzo do banco da frente, sem tirar os olhos do tablet.

— Não atrase — respondi, mantendo o olhar na rua.

— Nunca atraso.

Um silêncio confortável se instalou, daqueles que não precisam ser preenchidos. Lorenzo sabia seu lugar, assim como todos ao meu redor. E isso era suficiente.

— O assunto do galpão foi resolvido — acrescentou ele, um pouco mais baixo.

Levei a mão ao nariz, pressionando levemente por um instante, absorvendo a informação sem realmente precisar dela.

— Nunca foi um assunto — corrigi.

Era procedimento.

Simples assim.

Voltei minha atenção para fora. Um grupo de jovens ria na calçada, completamente alheio ao tipo de mundo que realmente sustenta aquele em que vivem. Pequenas alegrias, pequenas preocupações… tudo tão fácil de quebrar.

— O restaurante da Via Toledo teve um problema ontem à noite — Lorenzo continuou. — Um dos chefs não apareceu, o serviço atrasou e houve reclamações.

— Demita.

A resposta saiu automática, sem peso, como respirar.

— Já foi feito. Mas a equipe está instável.

Inclinei levemente a cabeça, refletindo por menos de um segundo.

— Substitua todos.

Houve uma breve pausa.

— Todos? — ele perguntou, cauteloso.

Virei o rosto devagar, encarando-o pelo reflexo do vidro.

— Se um elo falha, você não conserta. Você elimina e reconstrói.

Ele assentiu.

Não havia espaço para debate.

O carro desacelerou ao se aproximar dos portões da mansão. Os portões se abriram antes mesmo de pararmos completamente, como sempre acontecia. Nada ali funcionava por acaso. Tudo respondia ao meu tempo.

Desci sem pressa, ajustando o paletó enquanto atravessava o caminho até a entrada. A casa permanecia iluminada, impecável, silenciosa — uma estrutura que refletia exatamente o que eu exigia de tudo ao meu redor.

A porta se abriu antes que eu tocasse.

— Boa noite, senhor Raul — disse Laís, com um leve sorriso respeitoso.

— Boa noite, Laís. Onde está minha avó?

— Dona Flora está na cozinha, terminando o jantar.

Levei a mão ao nariz novamente, pressionando de leve enquanto soltava o ar pelo nariz.

— Está cozinhando… de novo?

Laís sorriu, quase divertida.

— Disse que nossas comidas não lembram as da nonna dela… nem as da madre. Que tudo aqui é sem graça.

Soltei um suspiro baixo.

Isso não tinha solução.

Passei por ela sem subir as escadas, mudando o trajeto de forma quase automática. Meus passos seguiram em direção à cozinha, guiados por um som familiar de panelas, vozes e movimento.

Antes mesmo de entrar, o cheiro me atingiu.

Massa.

Molho.

Tempero.

Casa.

Empurrei a porta com calma.

— Nonna… o que está fazendo?

O movimento lá dentro cessou por um segundo. Havia várias pessoas na cozinha, empregados indo de um lado para o outro, mas todos pararam assim que me viram. Não por medo… mas por hábito.

Ela se virou.

Os olhos ainda vivos, atentos, cheios de uma energia que não combinava com a idade.

— Raulzinho! — disse com um sorriso imediato. — Você chegou. A nonna está fazendo sua comida preferida. Gnocchi e ossobuco. Você vai gostar.

Parei a alguns passos dela, apoiando uma das mãos na cintura, observando aquela cena que não combinava com o resto da minha vida.

— Vovó… há uma casa cheia de funcionários aqui. Não precisa fazer isso.

Ela me olhou como se eu tivesse dito algo ofensivo.

— E deixar essas meninas fazerem comida sem gosto? — retrucou, erguendo a colher como se fosse uma arma. — Aquilo parece comida de hospital. Insossa. Sem alma. Eu sou italiana, Raul. Preciso de massa, de tempero… de verdade.

Uma das mulheres tentou disfarçar um sorriso.

Eu não.

Era inútil discutir.

Julia, a cuidadora, se aproximou com cautela.

— Dona Flora, a senhora sabe que não pode exagerar. Muito sal, muita gordura…

— Ah, tenha dó, menina — cortou Flora, sem nem olhar para ela. — Não vou morrer por comer comida de verdade um dia.

Levei a mão ao nariz novamente, pressionando por um instante mais longo dessa vez.

Controle.

Respirei fundo e puxei uma cadeira.

— Vamos jantar antes que a senhora resolva cozinhar para o bairro inteiro.

Ela sorriu, satisfeita.

Sentamos.

Por alguns minutos, o som foi apenas o dos talheres, do prato sendo servido, da comida sendo provada. E, por mais que eu não admitisse em voz alta, estava… bom.

Muito bom.

— Raul… — ela começou, como quem não queria nada.

Revirei os olhos antes mesmo que terminasse.

— Não.

— Nem falei nada ainda!

— Vai falar.

Ela me olhou, avaliando, e então soltou:

— Quando vai me apresentar minha nora?

Suspirei, levando a mão ao nariz mais uma vez.

— Nonna…

— Eu quero um bisneto, Raul. Todas as minhas amigas do bingo têm. Só eu não.

— Essa conversa já tem cinco anos.

— E nesses cinco anos eu continuo sem segurar um bisneto no colo!

Ela bateu levemente a mão na mesa, irritada.

Eu permaneci em silêncio por alguns segundos, observando-a.

— Isso não é prioridade.

— Para você, não! — retrucou. — Para mim, é tudo!

O tom dela mudou.

Mais baixo.

Mais pesado.

— Eu não tenho o seu tempo.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Denso.

Ela desviou o olhar por um segundo, como se estivesse reunindo forças, e então voltou a me encarar.

— Eu estou morrendo, Raul.

Levei a mão ao nariz de forma automática, pressionando com mais força dessa vez.

— Não comece com isso.

— E não vou segurar meu bisneto no colo?

A voz dela falhou.

Os olhos se encheram de lágrimas.

Julia deu um passo à frente.

— Dona Flora…

— Minha pressão… — murmurou ela, levando a mão ao peito.

O corpo dela cedeu.

Por um segundo, tudo ficou silencioso.

Depois virou caos.

— Dona Flora!

— Chama o médico!

— Cuidado!

Levantei imediatamente, o coração batendo mais forte do que deveria.

— Vovó!

Me aproximei, segurando o braço dela enquanto Julia tentava estabilizá-la.

O médico entrou apressado, avaliando rapidamente a situação.

Segundos.

Talvez menos.

— Está tudo bem — disse ele, depois de examiná-la. — Foi apenas um pico de pressão. Nada grave.

Soltei o ar lentamente.

— Ela precisa evitar estresse — acrescentou.

Olhei para ele.

Depois para ela.

Depois para a porta.

— Quanto tempo? — perguntei, a voz mais baixa do que o normal.

O médico hesitou.

— Não sabemos precisar, senhor. Mas… seria bom atender aos desejos dela sempre que possível.

Assenti, sem responder.

Ele saiu.

A sala ficou em silêncio.

Observei minha avó ali, sendo cuidada, pequena de uma forma que eu raramente via.

E, pela primeira vez naquela noite…

algo saiu do controle.

Virei-me sem dizer nada e caminhei até a porta.

Antes de sair, parei por um segundo.

Respirei fundo.

Levei a mão ao nariz.

Pressionei.

Se a única forma de mantê-la bem… fosse ceder…

então eu tinha um problema.

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