Mundo ficciónIniciar sesiónPOV FLORA
Raul parou diante de mim com aquele olhar sério de sempre, como se o mundo inteiro dependesse do próximo passo dele. Eu continuei tricotando, sem levantar os olhos de imediato, só para provocar. Ele odiava quando eu fingia que não estava prestando atenção. — Nonna, fique em casa hoje. E cuide da sua pressão. Bufei, erguendo o olhar devagar, como se aquilo fosse a coisa mais absurda que eu já tivesse ouvido na vida. — Não sou uma criança, Raul. Já tenho setenta e nove anos. Ele sorriu de lado, aquele sorriso contido que pouca gente via. — Mas tem atitudes iguais. Revirei os olhos e, sem pensar muito, joguei o novelo de lã na direção dele. Não com força suficiente para machucar, mas o bastante para marcar meu ponto. Ele segurou no ar com facilidade, como se já esperasse por aquilo. — Teimoso — resmunguei. Ele deu um passo à frente, aproximando-se de mim, e então fez algo que ninguém mais naquele mundo via. Abaixou-se levemente. — Bença, nonna. Meu coração sempre amolecia nesse momento, por mais que eu não demonstrasse. Levei a mão até a cabeça dele com carinho. — Che Dio ti benedica. Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquele gesto ainda significasse algo… e significava. Sempre significou. Depois se levantou, ajustando o paletó, voltando a ser o homem que o mundo temia. Meu neto. Meu menino. Observei enquanto ele saía, os passos firmes ecoando pelo corredor até desaparecer de vista. Fiquei ali por alguns segundos, o tricô parado entre os dedos, o silêncio da casa se instalando ao redor. Então larguei tudo. — Júlia! Otília! As duas apareceram quase imediatamente, como se já esperassem que eu fosse aprontar alguma coisa. — Senhora? Levantei-me com calma, ajeitando o vestido. — Vamos sair. As duas trocaram um olhar rápido. — Dona Flora… a senhora não pode — começou Júlia. — Lembre das recomendações médicas… — Recomendações médicas? — interrompi, irritada. — Eu não vou morrer por respirar ar fora dessa casa! Otília tentou intervir. — Senhora, é por sua segurança… Apontei o dedo para as duas. — Eu vou procurar minha nora. E se vocês não vierem comigo… eu vou sozinha. Silêncio. Elas sabiam que eu faria. — Vamos — completei, já caminhando. O motorista abriu a porta do carro, e os seguranças assumiram suas posições discretas, como sempre. Entrei sem esperar por ninguém, e em poucos segundos o carro já estava em movimento. — Aquele moleque vai ver — murmurei, cruzando os braços. — Se ele não arruma uma nora, eu mesma arrumo e levo para casa. O motorista tentou disfarçar o sorriso. Júlia e Otília falharam completamente nisso. — A senhora já disse isso antes — comentou Júlia, baixinho. — E vou dizer de novo até acontecer. O carro parou próximo a uma praça movimentada. Desci com cuidado, ignorando completamente a movimentação ao redor. Olhei para trás, vendo o segurança já se aproximando. — Fiquem para trás — ordenei, estreitando os olhos. — Não quero essas caras assustando minha futura nora. Eles pararam. Claro que pararam. Caminhei sozinha. A praça estava cheia, pessoas indo e vindo, crianças correndo, casais conversando, vida acontecendo. Respirei fundo. Havia algo naquele lugar que me lembrava tempos antigos, quando tudo era mais simples… ou talvez só parecesse. Sentei-me em um banco. Observei. Esperei. — É hoje que eu encontro você minha neta. Eu li no horóscopo que era o melhor dia. — falei mais para mim, do que para qualquer outra pessoa. E então algo chamou minha atenção. Dois homens se aproximaram. O cheiro veio antes da presença — álcool, sujeira. Um deles olhou diretamente para minhas mãos. Para os anéis. — Bonito isso aí, velha — disse, com um sorriso torto. Ignorei. O outro se aproximou mais. — Dá pra gente. Levantei o olhar devagar. — Saiam de perto de mim. Eles riram. E o riso… mudou. Ficou mais pesado.Mais perigoso. Senti os pêlos do meu braço se eriçarem, meus anos de vida sabia reconhecer quando o perigo se aproximava. Um deles segurou meu braço com força. — Eu disse… dá. — Solte-me! Vocês sabem quem eu sou! Tentei me levantar, mas fui empurrada de volta contra o banco. A dor subiu pelo corpo rápido demais para eu reagir com clareza. Olhei ao redor, as pessoas passavam e nem se importavam com o que estava acontecendo, procurei visualmente o segurança e as meninas mas estavam longe demais. Então um puxão brusco me jogou para o chão. O impacto tirou o ar dos meus pulmões. E, por um instante,o mundo girou. — LARGA ELA! Uma voz cortou o caos era de uma mulher, firme, decidida. Eu não vi de onde veio. Os homens se viraram, irritados. — Sai daqui! — NÃO! Ouvi passos, senti um corpo entre mim e eles me protegendo. Isso foi totalmente inesperado, todos esses anos e ninguém nunca fez isso. Ela empurrou um deles com força, mesmo claramente não sendo páreo físico. O outro tentou puxá-la, mas ela resistiu, gritando, chamando atenção. — SEGURANÇA! ALGUÉM AJUDA! LADRÃO! O barulho começou a crescer ao redor. Apitos ao fundo. Os homens se entreolharam. — Vamos embora — resmungou um deles, já puxando as joias que conseguiu. — Não vale a pena. E desapareceram. Assim. Como vieram. Fiquei no chão, tentando recuperar o fôlego, o corpo pesado, a visão turva. Então ela apareceu acima de mim, desfocada pela minha visão limitada sem os óculos que caíram em algum lugar longe de mim. — Senhora… por favor… não fecha os olhos… olha pra mim… A voz dela tremia. Mas não recuava. Senti a mão dela no meu rosto, quente, firme, tentando me manter ali. Abri os olhos com esforço. E, por um segundo… achei que estava vendo algo que não pertencia àquele mundo. — Minha neta… — murmurei, tocando o rosto dela com dificuldade. — você é um anjo… Ela sorriu. — Senhora… eu não sou sua neta… mas a senhora vai ficar bem… Ouvi sirenes ao longe, passos apressados, murmúrios próximos. — O que aconteceu aqui? A voz de um homem veio depois mais ao lado. — Aqueles homens… roubaram a senhora — ela respondeu rápido. Um dos homens que vi serem policiais olhou melhor para ela. Franziu a testa. — Você… Ela não respondeu. Ou talvez não teve tempo. Porque, de repente, tudo virou barulho. — SENHORA! Júlia, Otília e o segurança que Raul recomendou e que me segue a tantos anos apareceram rapidamente. No meio da confusão não a vi mais, minha mente foi se esvaindo mesmo eu pedindo para não dormir, era o preço que eu estava pagando pela minha desobediência e ao meu corpo velho e cansado. Quando acordei novamente, já estava no hospital. Minha cabeça ainda doía, meu corpo eu sabia que havia hematomas, minha costela doía. Olhei na direção de alguma sussuros e notei lá policiais e meu empregados ao lado, cara de preocupação, porque sabiam que tinham falhado comigo e as consequências com aquele moleque teimoso viria. Mas antes mesmo de qualquer pergunta minha voz saiu rouca. — Quem era aquela mulher? O segurança e os policiais trocaram um olhar. — Senhora… podemos levantar as informações… — Então levantem — interrompi. — Eu quero saber quem ela é. Silêncio. — Em meia hora. Eles não discutiram, não ousaram falar mais nada, sou Flora Maldonado, nunca uso meu sobrenome para impor nada, mas medidas desesperadas, exigem o uso extremo da minha reputação. Os policiais saíram junto com o segurança me deixando somente com Otília e Julia. Elas me olharam com medo. — Não se preocupem, ele não vai falar nada com vocês. A culpa é dele! Disse fazendo com que elas ficassem mais leves. — Mas senhora... Otília começou, mas levantei minha mão onde o soro estava. — Não se preocupem, não vou mais sair de casa e fazer novamente, aprendi minha lição. Falei acabando com o falatório que viria, sabia que meu neto saberia do ocorrido, mas não tinha tempo para ele. E eu fiquei ali, olhando para a porta, sentindo algo estranho dentro do peito. Meia hora depois, a porta se abriu novamente. O segurança entrou, postura rígida, expressão séria. — Senhora… encontramos as informações. Ele estendeu o papel. Peguei. Meus olhos correram pelas linhas rapidamente. E então pararam. Zoe Peterson. Repeti mentalmente. Uma vez. Duas. Gravei. Levantei o olhar lentamente. Um pequeno sorriso surgiu no canto da minha boca. — Então… Zoe Peterson… Dobrei o papel com calma. — você será a minha neta. Levantei-me, ignorando completamente qualquer tentativa de protesto. — Vamos. O segurança hesitou. — Senhora… para onde? Olhei direto para ele. Sem dúvida. Sem espaço para questionamento. — Vamos encontrar minha neta.






