CAPÍTULO 4 — A ESCOLHA

POV FLORA

Raul parou diante de mim com aquele olhar sério de sempre, como se o mundo inteiro dependesse do próximo passo dele. Eu continuei tricotando, sem levantar os olhos de imediato, só para provocar. Ele odiava quando eu fingia que não estava prestando atenção.

— Nonna, fique em casa hoje. E cuide da sua pressão.

Bufei, erguendo o olhar devagar, como se aquilo fosse a coisa mais absurda que eu já tivesse ouvido na vida.

— Não sou uma criança, Raul. Já tenho setenta e nove anos.

Ele sorriu de lado, aquele sorriso contido que pouca gente via.

— Mas tem atitudes iguais.

Revirei os olhos e, sem pensar muito, joguei o novelo de lã na direção dele. Não com força suficiente para machucar, mas o bastante para marcar meu ponto. Ele segurou no ar com facilidade, como se já esperasse por aquilo.

— Teimoso — resmunguei.

Ele deu um passo à frente, aproximando-se de mim, e então fez algo que ninguém mais naquele mundo via.

Abaixou-se levemente.

— Bença, nonna.

Meu coração sempre amolecia nesse momento, por mais que eu não demonstrasse.

Levei a mão até a cabeça dele com carinho.

— Che Dio ti benedica.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquele gesto ainda significasse algo… e significava. Sempre significou. Depois se levantou, ajustando o paletó, voltando a ser o homem que o mundo temia.

Meu neto.

Meu menino.

Observei enquanto ele saía, os passos firmes ecoando pelo corredor até desaparecer de vista. Fiquei ali por alguns segundos, o tricô parado entre os dedos, o silêncio da casa se instalando ao redor.

Então larguei tudo.

— Júlia! Otília!

As duas apareceram quase imediatamente, como se já esperassem que eu fosse aprontar alguma coisa.

— Senhora?

Levantei-me com calma, ajeitando o vestido.

— Vamos sair.

As duas trocaram um olhar rápido.

— Dona Flora… a senhora não pode — começou Júlia. — Lembre das recomendações médicas…

— Recomendações médicas? — interrompi, irritada. — Eu não vou morrer por respirar ar fora dessa casa!

Otília tentou intervir.

— Senhora, é por sua segurança…

Apontei o dedo para as duas.

— Eu vou procurar minha nora. E se vocês não vierem comigo… eu vou sozinha.

Silêncio.

Elas sabiam que eu faria.

— Vamos — completei, já caminhando.

O motorista abriu a porta do carro, e os seguranças assumiram suas posições discretas, como sempre. Entrei sem esperar por ninguém, e em poucos segundos o carro já estava em movimento.

— Aquele moleque vai ver — murmurei, cruzando os braços. — Se ele não arruma uma nora, eu mesma arrumo e levo para casa.

O motorista tentou disfarçar o sorriso. Júlia e Otília falharam completamente nisso.

— A senhora já disse isso antes — comentou Júlia, baixinho.

— E vou dizer de novo até acontecer.

O carro parou próximo a uma praça movimentada. Desci com cuidado, ignorando completamente a movimentação ao redor.

Olhei para trás, vendo o segurança já se aproximando.

— Fiquem para trás — ordenei, estreitando os olhos. — Não quero essas caras assustando minha futura nora.

Eles pararam.

Claro que pararam.

Caminhei sozinha.

A praça estava cheia, pessoas indo e vindo, crianças correndo, casais conversando, vida acontecendo. Respirei fundo. Havia algo naquele lugar que me lembrava tempos antigos, quando tudo era mais simples… ou talvez só parecesse.

Sentei-me em um banco.

Observei.

Esperei.

— É hoje que eu encontro você minha neta. Eu li no horóscopo que era o melhor dia. — falei mais para mim, do que para qualquer outra pessoa.

E então algo chamou minha atenção. Dois homens se aproximaram. O cheiro veio antes da presença — álcool, sujeira. Um deles olhou diretamente para minhas mãos. Para os anéis.

— Bonito isso aí, velha — disse, com um sorriso torto.

Ignorei.

O outro se aproximou mais.

— Dá pra gente.

Levantei o olhar devagar.

— Saiam de perto de mim.

Eles riram.

E o riso… mudou.

Ficou mais pesado.Mais perigoso. Senti os pêlos do meu braço se eriçarem, meus anos de vida sabia reconhecer quando o perigo se aproximava.

Um deles segurou meu braço com força.

— Eu disse… dá.

— Solte-me! Vocês sabem quem eu sou!

Tentei me levantar, mas fui empurrada de volta contra o banco. A dor subiu pelo corpo rápido demais para eu reagir com clareza.

Olhei ao redor, as pessoas passavam e nem se importavam com o que estava acontecendo, procurei visualmente o segurança e as meninas mas estavam longe demais.

Então um puxão brusco me jogou para o chão.

O impacto tirou o ar dos meus pulmões.

E, por um instante,o mundo girou.

— LARGA ELA!

Uma voz cortou o caos era de uma mulher, firme, decidida.

Eu não vi de onde veio.

Os homens se viraram, irritados.

— Sai daqui!

— NÃO!

Ouvi passos, senti um corpo entre mim e eles me protegendo.

Isso foi totalmente inesperado, todos esses anos e ninguém nunca fez isso.

Ela empurrou um deles com força, mesmo claramente não sendo páreo físico. O outro tentou puxá-la, mas ela resistiu, gritando, chamando atenção.

— SEGURANÇA! ALGUÉM AJUDA! LADRÃO!

O barulho começou a crescer ao redor.

Apitos ao fundo.

Os homens se entreolharam.

— Vamos embora — resmungou um deles, já puxando as joias que conseguiu. — Não vale a pena.

E desapareceram.

Assim.

Como vieram.

Fiquei no chão, tentando recuperar o fôlego, o corpo pesado, a visão turva.

Então ela apareceu acima de mim, desfocada pela minha visão limitada sem os óculos que caíram em algum lugar longe de mim.

— Senhora… por favor… não fecha os olhos… olha pra mim…

A voz dela tremia.

Mas não recuava.

Senti a mão dela no meu rosto, quente, firme, tentando me manter ali.

Abri os olhos com esforço.

E, por um segundo…

achei que estava vendo algo que não pertencia àquele mundo.

— Minha neta… — murmurei, tocando o rosto dela com dificuldade. — você é um anjo…

Ela sorriu.

— Senhora… eu não sou sua neta… mas a senhora vai ficar bem…

Ouvi sirenes ao longe, passos apressados, murmúrios próximos.

— O que aconteceu aqui?

A voz de um homem veio depois mais ao lado.

— Aqueles homens… roubaram a senhora — ela respondeu rápido.

Um dos homens que vi serem policiais olhou melhor para ela.

Franziu a testa.

— Você…

Ela não respondeu.

Ou talvez não teve tempo.

Porque, de repente, tudo virou barulho.

— SENHORA!

Júlia, Otília e o segurança que Raul recomendou e que me segue a tantos anos apareceram rapidamente.

No meio da confusão não a vi mais, minha mente foi se esvaindo mesmo eu pedindo para não dormir, era o preço que eu estava pagando pela minha desobediência e ao meu corpo velho e cansado.

Quando acordei novamente, já estava no hospital.

Minha cabeça ainda doía, meu corpo eu sabia que havia hematomas, minha costela doía.

Olhei na direção de alguma sussuros e notei lá policiais e meu empregados ao lado, cara de preocupação, porque sabiam que tinham falhado comigo e as consequências com aquele moleque teimoso viria. Mas antes mesmo de qualquer pergunta minha voz saiu rouca.

— Quem era aquela mulher?

O segurança e os policiais trocaram um olhar.

— Senhora… podemos levantar as informações…

— Então levantem — interrompi. — Eu quero saber quem ela é.

Silêncio.

— Em meia hora.

Eles não discutiram, não ousaram falar mais nada, sou Flora Maldonado, nunca uso meu sobrenome para impor nada, mas medidas desesperadas, exigem o uso extremo da minha reputação. Os policiais saíram junto com o segurança me deixando somente com Otília e Julia.

Elas me olharam com medo.

— Não se preocupem, ele não vai falar nada com vocês. A culpa é dele! Disse fazendo com que elas ficassem mais leves.

— Mas senhora... Otília começou, mas levantei minha mão onde o soro estava.

— Não se preocupem, não vou mais sair de casa e fazer novamente, aprendi minha lição. Falei acabando com o falatório que viria, sabia que meu neto saberia do ocorrido, mas não tinha tempo para ele.

E eu fiquei ali, olhando para a porta, sentindo algo estranho dentro do peito.

Meia hora depois, a porta se abriu novamente.

O segurança entrou, postura rígida, expressão séria.

— Senhora… encontramos as informações.

Ele estendeu o papel.

Peguei.

Meus olhos correram pelas linhas rapidamente.

E então pararam.

Zoe Peterson.

Repeti mentalmente.

Uma vez.

Duas.

Gravei.

Levantei o olhar lentamente.

Um pequeno sorriso surgiu no canto da minha boca.

— Então… Zoe Peterson…

Dobrei o papel com calma.

— você será a minha neta.

Levantei-me, ignorando completamente qualquer tentativa de protesto.

— Vamos.

O segurança hesitou.

— Senhora… para onde?

Olhei direto para ele.

Sem dúvida. Sem espaço para questionamento.

— Vamos encontrar minha neta.

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