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POV RAUL
O homem chorava o som ecoava pelo galpão vazio, misturado ao pingar lento de alguma infiltração no teto, um gotejar insistente que parecia marcar o tempo daquela cena com uma precisão incômoda. Era um lugar esquecido, afastado da cidade, onde ninguém faria perguntas… e, mais importante, onde ninguém ouviria respostas. Eu permaneci sentado na sombra, sem pressa, sem qualquer urgência em encerrar aquilo. O charuto entre meus dedos queimava devagar, a brasa acendendo e apagando como um pulso discreto no meio da escuridão, preenchendo o ar com o cheiro forte do tabaco que contrastava com o odor metálico que já começava a se espalhar pelo ambiente. — Por favor… eu posso explicar… Sempre podem. Inclinei levemente a cabeça, observando-o com atenção silenciosa. Ele estava de joelhos, o corpo curvado para frente, como se o próprio peso da culpa o esmagasse contra o chão frio de concreto. Havia sangue seco na lateral do rosto e as mãos tremiam tanto que mal conseguiam se manter apoiadas, escorregando de vez em quando, denunciando o descontrole que ele tentava esconder. Curioso. Até poucos dias atrás, aquele mesmo homem atravessava os corredores da minha empresa com passos firmes, terno caro perfeitamente ajustado, postura ereta e um olhar que beirava a arrogância de quem acredita que pertence àquele lugar. Agora… implorava. É impressionante como as pessoas revelam quem realmente são quando tudo o que sustenta a aparência delas é arrancado. — Explicar? — repeti, com a voz baixa, quase desinteressada, como se aquilo fosse apenas mais uma conversa qualquer. Ele assentiu rápido demais, ansioso, desesperado para se agarrar a qualquer brecha. Erro. — Foi um erro… eu… eu estava sendo pressionado… eu posso devolver o dinheiro, cada centavo, eu juro… Soltei uma breve expiração pelo nariz, sem alterar a expressão. Dinheiro. Sempre voltam ao dinheiro, como se tudo pudesse ser reduzido a números, como se qualquer falha pudesse ser corrigida com uma transferência bancária. Traguei o charuto lentamente, deixando que a luz da brasa iluminasse parte do meu rosto por um segundo. Foi o suficiente para ver o momento exato em que o olhar dele mudou, quando o desespero deu lugar ao medo real, aquele que não se esconde atrás de palavras. — Quanto foi? — perguntei, com calma. Ele hesitou. Erro número dois. — E-eu… Um dos homens ao lado dele não teve a mesma paciência e acertou um chute forte nas costelas, fazendo o corpo dele se curvar ainda mais enquanto um grito rouco escapava sem controle. — Fala direito com o chefe! Levantei a mão, sem sequer olhar na direção deles. O efeito foi imediato. O silêncio caiu como uma ordem invisível, pesada, incontestável. Controle não precisa de força. Precisa de presença. — Quanto — repeti, mais devagar, deixando cada palavra cair com precisão — você roubou de mim? Ele fechou os olhos por um instante, como se aquilo pudesse poupá-lo de alguma coisa, e então respondeu com a voz quase inexistente: — Duzentos mil… Balancei levemente a cabeça, negando. — Não. Levantei o olhar e encarei-o diretamente pela primeira vez. E foi o suficiente. Os olhos dele se arregalaram, o corpo inteiro enrijeceu, como se naquele exato momento ele finalmente tivesse entendido o que realmente estava acontecendo ali. — Você roubou muito mais do que dinheiro. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de significado. Levantei-me com calma, ajustando o paletó enquanto o som do sapato contra o concreto ecoava pelo galpão, cada passo calculado, medido, inevitável. Caminhei até ele sem pressa, deixando que a tensão crescesse no intervalo entre um movimento e outro. Parei diante dele. — Você roubou tempo, — continuei, olhando para aquelas mãos trêmulas. — roubou confiança… e, principalmente, roubou a ilusão de que eu estava cercado por profissionais competentes. Abaixei o olhar para os dedos dele, sujos, instáveis, mãos que dias atrás assinavam contratos e movimentavam valores que sustentavam parte do meu império. — Eu trabalho com precisão — acrescentei, inclinando levemente a cabeça. — Tudo o que me pertence é controlado. Cada detalhe, cada número, cada pessoa. Ergui novamente os olhos. — Inclusive as perdas. Ele começou a chorar de novo, agora sem tentar esconder, o desespero escorrendo junto com as palavras. — Eu tenho família… por favor… eu tenho filhos… eu só queria dar uma vida melhor pra eles… Fechei os olhos por um breve segundo, não por empatia, mas por puro cansaço daquela justificativa previsível. — Todos têm alguma coisa a perder — murmurei, abrindo os olhos novamente. E era exatamente por isso que consequências existiam. Fiz um gesto simples com a mão. Não precisei dizer nada. Os homens ao redor entenderam imediatamente, movendo-se com precisão. O desespero dele explodiu. — NÃO! POR FAVOR! EU DEVOLVO! EU DEVOLVO TUDO! Não me movi. Não desviei o olhar. Não alterei um único músculo da expressão. — Eu não preciso que você devolva — respondi com calma. Dei um passo mais perto. — Eu preciso que você aprenda. O grito veio logo depois. Alto. Cru. Desesperado. Ecoando pelo galpão como um aviso que ficaria gravado na memória de todos ali. E então… silêncio. Ajoelhei-me à frente dele, observando com atenção o tremor descontrolado do corpo, a respiração falha, a dor estampada de forma irreversível. — Isso — falei, mantendo o olhar fixo no dele — é para que você nunca mais confunda oportunidade com fraqueza. Levantei-me com tranquilidade, ajeitando o paletó como se estivesse apenas encerrando uma reunião qualquer. Olhei ao redor, avaliando o ambiente, cada detalhe sob controle, exatamente como deveria estar. — Levem ele para um hospital. Um dos homens hesitou por um segundo, talvez esperando uma ordem diferente, algo mais definitivo. — Senhor… e depois? Olhei por cima do ombro, a resposta vindo sem esforço. — Depois… ele aprende a viver com as próprias escolhas. Caminhei em direção à saída, o som da porta de metal sendo aberta cortando o silêncio restante. Antes de atravessar, parei por um breve instante, não o suficiente para parecer dúvida, apenas o bastante para reforçar o que precisava ser dito. — E deixem claro. Ninguém se moveu. Ninguém respirou mais alto. — Quem rouba de Raul Maldonado… paga o preço. Saí. A noite me recebeu com um ar frio e limpo, contrastando com o ambiente que deixei para trás. As luzes da cidade brilhavam ao longe, indiferentes ao que acontecia nas sombras que sustentavam aquele mesmo mundo. Traguei o restante do charuto, soltando a fumaça devagar, observando-a se dissipar no ar como tudo que não tem peso suficiente para permanecer. Controle. Sempre foi isso. Desde o momento em que entendi que ninguém viria me salvar. Desde o instante em que vi que o mundo não recompensa fraqueza… apenas a explora. Joguei o charuto no chão e o apaguei com o sapato, firme, sem hesitação. No meu mundo… não existe espaço para erros. Muito menos para misericórdia. E definitivamente… não existe espaço para amor.






