Capítulo 6— O ASSALTO

POV ZOE

Quando chegamos a Nápoles, a noite já tinha caído.

As luzes da rodoviária brilhavam de um jeito cansado, amarelado, como se até elas soubessem que ali chegavam mais perdidos do que esperançosos. Havia vozes por toda parte, o cheiro de café velho, fumaça, fritura, gente apressada, ônibus chegando, outros saindo. Segurei a mãozinha da Lira e a mala ao mesmo tempo, tentando parecer mais segura do que me sentia.

Eu tinha pesquisado tudo. Sabia o nome do hostel, sabia que ficava perto dali, sabia que precisava passar uma noite barata antes de procurar algo mais fixo pela manhã. Tinha repetido o endereço tantas vezes na cabeça que ele parecia uma oração.

Só mais uma noite, eu disse a mim mesma. Só mais uma noite e amanhã eu resolvo.

Lira, sonolenta, apoiou a cabeça na minha perna enquanto eu parei por um segundo para pegar o celular na bolsa e conferir o endereço mais uma vez. Foi por isso que não percebi na mesma hora.

Um esbarrão.

Depois outro.

Uma voz perguntando alguma coisa rápido demais.

Eu virei a cabeça por reflexo. Um homem falava comigo em italiano, gesticulando, insistente. Eu tentei entender, tentei dizer que não tinha compreendido, tentei proteger a bolsa com o cotovelo enquanto puxava a mala com a outra mão. Foi tudo rápido demais. Outro corpo passou por trás. Um puxão seco. Um tranco tão forte que quase me desequilibrou.

Quando olhei, a bolsa já não estava mais em mim.

Meu coração parou.

— Ei! — gritei sem pensar. — Ei! Volta aqui!

Vi apenas o vulto correndo entre as pessoas, engolido pela movimentação da rodoviária como se a cidade o aceitasse sem resistência. Soltei a mala e dei dois passos na direção dele, mas a voz da Lira atrás de mim me travou no mesmo instante.

— Mamãe…

Olhei para a minha filha.

Olhei para a multidão.

Olhei para o nada.

A bolsa tinha ido.

Tudo estava ali dentro.

Documentos. Dinheiro. Celular reserva. Endereços anotados. O pouco que eu tinha.

Senti o sangue sumir do meu rosto.

— Não… não… não…

Corri até um guarda, falei depressa, tropeçando nas palavras, misturando inglês com o pouco de italiano que eu conhecia. Ele tentou entender, fez perguntas que eu não consegui responder direito, apontou para um lado, depois para outro. Outra pessoa me mandou ir até a delegacia. Um homem sequer tirou o cigarro da boca para me dizer que eu devia “ter mais cuidado”. Como se eu tivesse escolhido ser roubada na primeira hora em uma cidade desconhecida.

Arrastei minha mala, levei Lira comigo e fui até a delegacia mais próxima quase sem sentir as pernas. Lá dentro, tudo pareceu ainda pior. Luz fria. Cadeiras duras. Gente esperando. Um funcionário cansado demais para ter paciência com o meu desespero. Tentei explicar, mostrei o que ainda tinha, repeti que não conhecia ninguém, que meu dinheiro estava na bolsa, que eu precisava dos meus documentos, que tinha uma criança comigo. Ele anotou alguma coisa, me fez perguntas burocráticas, prometeu um procedimento que soou vazio desde a primeira sílaba.

Saí de lá pior do que entrei.

Sem bolsa.

Sem dinheiro.

Sem ajuda.

Sem chão.

A rodoviária já estava mais vazia quando voltei, e o frio da madrugada começava a se espalhar pelas ruas com uma crueldade silenciosa. O hostel, sem pagamento, havia deixado de existir para mim. Eu ainda tentei falar com duas pessoas, perguntar por alguma igreja, algum abrigo, qualquer lugar. Recebi olhares desconfiados, respostas vagas e portas fechadas.

Foi então que a realidade finalmente caiu inteira em cima de mim.

Eu estava em uma cidade estranha, em outro país, sem dinheiro, sem documentos, sem lugar para dormir, com uma menina de dois anos que começava a sentir frio.

Lira esfregou os olhos e me olhou com aquela confiança que ainda me destruía.

— Mamãe… casa?

Quase morri ali.

Sorri para ela, porque mães mentem quando precisam proteger.

— Já vamos descansar, meu amor.

Mas eu não sabia onde.

Encontrei um canto mais afastado, perto de um muro baixo e de algumas árvores, longe o bastante do fluxo principal para não chamar atenção demais e perto o bastante para que eu pudesse ouvir movimento humano se precisasse gritar. Coloquei a mala ao meu lado, sentei no chão duro e puxei Lira para o meu colo.

O frio de Nápoles não era o pior frio do mundo.

Mas naquela noite ele entrou nos ossos como castigo.

Tirei meu casaco e enrolei nela primeiro. Depois puxei meu suéter, mesmo estremecendo no mesmo instante em que o ar bateu na minha pele, e usei para cobrir as pernas dela. Lira se aninhou contra mim, pequena demais, quente demais, confiando sem saber que eu estava tremendo tanto quanto ela.

— Tá tudo bem — sussurrei no topo da cabeça dela, passando a mão pelos seus cabelos. — A mamãe tá aqui.

Eu estava.

Mesmo sem ter ideia do que fazer.

Mesmo sentindo o fracasso esmagar meu peito.

Mesmo me odiando por ter trazido minha filha para aquilo.

Abracei Lira com força, tentando criar ao redor dela um mundo que eu não conseguia oferecer. Esfreguei suas mãozinhas entre as minhas, soprei de leve seus dedos gelados, beijei sua testa muitas vezes, como se carinho pudesse substituir cobertor. Em algum momento comecei a cantar baixinho, uma melodia antiga que eu nem sabia que ainda lembrava. Talvez da infância. Talvez inventada na hora. Qualquer coisa que a mantivesse calma.

Ela choramingou por alguns minutos, inquieta, até que o cansaço venceu.

Dormiu.

Eu não.

Fiquei ali, encostada ao muro, sentindo o corpo doer, as costas latejarem, a pele arrepiar a cada rajada de vento, a madrugada passar devagar demais. Olhava para cada sombra com medo. Para cada passo ao longe com desconfiança. Para cada minuto como se fosse uma pequena eternidade.

Houve um momento em que meus olhos encheram de lágrimas e eu precisei morder a parte interna da bochecha para não deixar o choro sair. Não por mim. Eu já tinha chorado por mim tantas vezes que estava cansada disso. Mas porque Lira não merecia aquela noite. Não merecia aquela mãe tremendo de frio, fingindo coragem. Não merecia ter sido trazida para um lugar onde a primeira lembrança seria o chão duro de uma madrugada sem abrigo.

Encostei a testa no alto da cabeça dela e fechei os olhos por um segundo.

— Me ajuda — murmurei, sem saber se falava com Deus, com o universo ou com qualquer coisa que ainda pudesse me ouvir. — Por favor… só me ajuda a não errar com ela.

O céu começou a clarear devagar, num azul acinzentado e triste. A cidade despertava aos poucos, e eu me sentia como se não tivesse dormido havia anos. Meu corpo estava duro. Minha garganta, seca. Meu estômago doía de fome, mas a fome era o menor dos problemas quando comparada ao resto.

Lira ainda dormia no meu colo quando eu olhei para a rua e entendi que, gostando ou não, o dia ia começar comigo destruída.

E eu teria que me levantar mesmo assim.

Porque cair sozinha já era uma desgraça.

Mas cair sendo mãe…

era um luxo que eu não tinha.

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