Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV ZOE
Do outro lado da praça, uma barraca começava a funcionar. O cheiro de caldo quente chegou antes mesmo que eu me aproximasse, e foi tão simples, tão cotidiano, tão humano, que quase me fez chorar de novo. Fazia poucas horas que eu estava naquela cidade, mas parecia que tinha envelhecido anos desde a noite anterior. Pedi um caldo de frango e um pão. A mulher que servia não fez perguntas. Só olhou para mim, para a criança, para a nota na minha mão, e entregou a comida com um aceno breve que valia mais do que muitas palavras. Sentei Lira em um banco próximo, de frente para mim, onde eu pudesse vê-la bem. O caldo ainda soltava vapor quando o coloquei com cuidado diante dela. — Devagar, tá? Tá quente. Ela assentiu com aquela obediência que me doía, porque criança tão pequena não deveria entender tanto sobre falta. Soprei a colher e levei até sua boca. Ela comeu a primeira, depois a segunda, depois a terceira, e aos poucos a cor pareceu voltar um pouco ao seu rosto. O pão eu parti em pequenos pedaços, observando a maneira concentrada com que ela segurava cada um deles com as mãozinhas ainda frias. Fiquei olhando minha filha comer como se aquele fosse o maior milagre da manhã. Talvez fosse. Por alguns segundos, quase consegui acreditar que o pior já tinha passado. Que eu pegaria um táxi, iria até a pensão, descobriria um jeito qualquer de trabalhar, de limpar, servir, carregar peso, o que fosse. Não precisava ser bom. Só precisava ser possível. Foi então que ouvi a confusão. Uma voz alterada. Depois outra. Um tom masculino, pesado, agressivo. Levantei o rosto por instinto e vi, do outro lado da praça, uma senhora sentada em um banco, elegante demais para aquele lugar, joias brilhando discretamente sob a luz pálida da manhã. Dois homens cercavam o banco. Um deles já estava perto demais. O outro olhava em volta como quem mede até onde pode ir. Senti o corpo inteiro enrijecer. Meu primeiro impulso foi abaixar a cabeça e fingir que não era comigo. Não porque eu fosse covarde. Mas porque eu estava no limite. Porque eu tinha uma filha a poucos passos de mim. Porque eu não tinha dinheiro, nem documentos, nem casa, nem força para virar heroína de ninguém. Um dos homens puxou o braço da senhora. Ela reagiu. Mesmo de longe, vi o movimento brusco, a violência seca, a brutalidade de quem sabe que quase ninguém se mete. Meu estômago virou. Olhei para Lira. Ela ainda comia, distraída, sem entender. Aproximei-me rápido do banco, peguei o copo de caldo e o pão, coloquei-os com cuidado em suas mãos pequenas. — Fica aqui, meu amor. Só por um minuto. A mamãe tá aqui. Não sai daqui, tá bom? Ela me olhou sem compreender direito, mas assentiu. Virei de novo para a cena. Podia ir embora. Podia pegar minha filha, minha mala, meus vinte euros e desaparecer antes que a cidade me cobrasse mais alguma coisa. Podia. Mas havia algo no jeito daquela mulher tentando manter a dignidade enquanto era cercada que atravessou direto a parte mais ferida de mim. Talvez porque eu conhecesse bem demais o gosto de ser deixada sozinha quando mais precisava. Talvez porque, depois de uma vida inteira sem ninguém se levantando por mim, eu simplesmente não conseguisse assistir e seguir andando. Então o segundo homem a empurrou. E ela caiu. Foi nesse instante que meu corpo decidiu antes da minha cabeça. Corri. — LARGA ELA! Minha própria voz me pareceu distante, alta demais, impulsiva demais. Os homens se viraram na mesma hora. Um deles tinha nos olhos aquele brilho sujo de quem já passou do ponto entre necessidade e crueldade. — Sai daqui! — ele rosnou. — NÃO! Me coloquei entre eles e a senhora no chão sem pensar no tamanho da estupidez que aquilo era. Meu coração batia tão forte que eu sentia o pulso na garganta, no rosto, nas mãos. O medo estava inteiro em mim, vivo, rasgando, mas não maior do que a raiva. Um deles tentou me empurrar. Eu empurrei de volta com o pouco de força que tinha. — SEGURANÇA! ALGUÉM AJUDA! LADRÃO! Minha voz saiu mais alta, mais desesperada, mais feroz do que eu imaginava conseguir. Pessoas começaram a olhar. Apitos soaram ao longe. Os homens se entreolharam. — Vamos embora — resmungou um deles, puxando o que tinha conseguido arrancar da senhora. — Não vale a pena. Eles correram. Assim, rápido, covarde, engolidos pela praça do mesmo jeito que o ladrão da minha bolsa tinha sido engolido pela rodoviária. Por um segundo fiquei parada, ofegante, sentindo o corpo tremer da cabeça aos pés. Depois me ajoelhei ao lado da senhora. Ela estava no chão, os cabelos um pouco fora do lugar, a respiração irregular, os olhos semicerrados, como se lutasse para não apagar. — Senhora… — toquei seu rosto de leve. — Senhora, por favor, não fecha os olhos. Olha pra mim. Ei… olha pra mim. A voz saiu trêmula. A minha mão também tremia. Eu ainda sentia o susto correndo na veia como eletricidade. Ela abriu os olhos com esforço e me olhou como se tentasse me enxergar através de uma névoa. Por um instante, a expressão dela mudou. Ficou estranhamente doce. A mão enrugada subiu devagar e tocou meu rosto. — Minha neta… — murmurou. — Você é um anjo… Senti um aperto tão inesperado no peito que precisei engolir em seco antes de responder. — Senhora… eu não sou sua neta — sussurrei, tentando sorrir para não assustá-la. — Mas a senhora vai ficar bem. Tá me ouvindo? Vai ficar bem. Sirenes soaram ao fundo. Passos. Vozes. — O que está acontecendo aqui? A polícia. — Aqueles homens roubaram a senhora — respondi rápido, ainda abaixada ao lado dela. Um dos policiais me olhou com mais atenção e franziu a testa. — Você… Eu o reconheci na mesma hora. O mesmo da delegacia. Mas não houve tempo para mais nada. Porque, de repente, a praça virou barulho. Duas mulheres correram na direção da senhora, seguidas por um homem de postura rígida que tinha cara de segurança antes mesmo de abrir a boca. Todos falavam ao mesmo tempo, chamando-a, tocando-a, tentando levantá-la com cuidado. No meio da confusão, alguém esbarrou em mim com força. Quase caí para trás. Meu primeiro instinto foi olhar para onde eu tinha deixado Lira. Ela ainda estava no banco. Pequena demais. Sozinha demais. Meu coração quase saiu pela boca. Levantei na mesma hora e fui até ela, sem esperar, sem pensar, sem olhar mais para trás do que o necessário. Peguei minha filha, a mala, o medo, o pouco que me restava de senso e me afastei da confusão enquanto a sirene da ambulância crescia no ar. Não esperei agradecimento. Não disse meu nome. Nem sabia se ela ainda conseguiria me reconhecer. Só fui embora. Porque naquela manhã o destino já tinha me cobrado mais do que eu podia pagar. E, mesmo assim, por algum motivo que eu ainda não entendia… eu tinha parado para salvar uma estranha.






