Mundo de ficçãoIniciar sessãoO MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO Série Sabores – Limão Siciliano Giorgio acreditou ter sido traído pela única mulher que amou. Dominado pelo orgulho, ele a expulsou da própria vida sem imaginar que tudo não passava de uma cruel armação. Grávida, Gemima voltou para sua cidade natal e decidiu criar a filha sozinha, escondendo do mundo inteiro quem era o pai da menina. Quatro anos depois, o destino os coloca frente a frente em um pomar de limão siciliano. Ao reencontrar Gemima, Giorgio descobre que perdeu muito mais do que um grande amor: perdeu os primeiros anos da vida da própria filha. Mas o passado ainda cobra um preço alto. Casado, preso às tradições da família e cercado por mentiras que continuam ameaçando sua felicidade, Giorgio precisará enfrentar as consequências de suas escolhas para tentar reconquistar a única mulher que jamais conseguiu esquecer. Será que um homem pode ser perdoado depois de destruir o próprio destino?
Ler maisCAPÍTULO 1 – O ENCONTRO
Giorgio Hoje resolvo vir falar com Marina a respeito da contratação de novos funcionários para a fábrica de azeite. Enquanto caminho pelos corredores da administração, respondo algumas mensagens no celular relacionadas aos hotéis. Minha agenda está lotada, como sempre, e preciso voltar para Milão ainda hoje. Estou prestes a bater na porta do escritório quando paro abruptamente. A porta está entreaberta. Uma conversa prende completamente minha atenção. Permaneço em silêncio absoluto, mantendo a postura tensa, observando o interior da sala sem ser visto. — Eu acredito, dona Marina, que se os donos colocassem temperos nos azeites, venderiam muito mais. Eles poderiam continuar vendendo o azeite tradicional, mas também criar sabores diferentes. Franzo a testa, sentindo o peso da sugestão. Temperos? Azeite aromatizado? Aproximo-me discretamente da porta, movido por uma curiosidade que raramente experimento em meio a tantos negócios burocráticos. Marina sorri para a jovem que está à sua frente, sua expressão suavizando-se com aquela proposta inusitada. — Como assim, filha? — Olha... um azeite apimentado para quem gosta de comida mais forte. Outro com alho. Um com alho e limão. Outro apenas com limão siciliano para acompanhar saladas. Também poderia existir um com ervas finas. E o azeite puro continuaria sendo vendido normalmente. Assim, quem prefere o tradicional continuaria comprando, mas quem gosta de experimentar novidades também teria opções. Cruzo os braços, sentindo o movimento dos músculos sob o tecido do meu paletó. Não consigo esconder meu interesse. Há anos procuro maneiras de expandir a marca da família sem abandonar a tradição que meu pai defende com tanto rigor. Nunca ninguém dentro desta fazenda apresentou uma ideia tão simples e, ao mesmo tempo, tão comercialmente promissora. Marina continua olhando para ela com uma admiração evidente, o que me faz focar ainda mais naquelas palavras. — Sabe que essa sua ideia é muito boa? Seria interessante conversar com o senhor Matheus. A jovem arregala os olhos imediatamente, e vejo um vislumbre de temor cruzar seu rosto. — Deus me livre, dona Marina! O senhor Matheus nem deixa a gente chegar perto dele. A única pessoa que poderia sugerir isso é a senhora. Ele jamais ouviria uma simples funcionária que está aqui há pouco mais de nove meses dando uma ideia dessas. Marina solta uma risada baixa, um som que ecoa suavemente no ambiente silencioso da administração. — É... você tem razão. O senhor Matheus é muito tradicionalista. Mas o senhor Giorgio é completamente diferente. Ele é o oposto do pai. A jovem inclina levemente a cabeça, mantendo a postura de quem respeita a autoridade, mas ainda demonstra uma curiosidade genuína. — Eu não conheço o senhor Giorgio. Ele ainda não veio aqui à fazenda das oliveiras. — É porque ele vive viajando o mundo inteiro fechando contratos. Além da produção de azeite, ele administra toda a rede de hotéis da família. Ela apenas sorri, uma expressão tímida e contida. — Ah... entendo. Enquanto escuto sua voz, meus olhos finalmente encontram seu rosto com nitidez. Ela é linda, de uma beleza que parece não se importar com os padrões impostos pelo mundo dos negócios. Os cabelos castanho-claros estão presos em um rabo de cavalo simples, revelando a linha do pescoço. Os olhos verdes acompanham cada palavra com um entusiasmo que me desarma, e existe uma delicadeza natural em seus gestos que chama minha atenção sem esforço algum. Mas não é apenas sua beleza que me impressiona. É a paixão com que fala sobre algo tão básico como azeite. Ela não está pensando apenas em vender ou bater metas. Está pensando em criar algo novo. Em inovar. Exatamente o que venho tentando fazer há anos, sozinho, em meio a tantas reuniões enfadonhas. Ela agradece a Marina, provavelmente sentindo o peso do tempo passar. Quando se vira para sair, nossos olhares se encontram, presos no espaço entre a porta e o corredor. Ela leva um pequeno susto ao perceber que existe um homem de porte imponente parado diante da porta, observando-a. Vejo suas bochechas corarem instantaneamente, um sinal de timidez que parece ainda mais atraente diante daquela força intelectual que ela acabara de demonstrar. Ela abaixa levemente a cabeça, evitando encarar meu rosto por muito tempo. — Com licença. Dou um passo para o lado, cedendo caminho com um movimento calculado. Ela passa por mim rapidamente, sem imaginar quem eu sou, sem saber que o homem que ela descreveu como um fantasma acaba de ouvir cada palavra de sua sugestão inovadora. Meu olhar acompanha seus passos até que ela desaparece pelo corredor. Somente então entro no escritório. Marina sorri ao me ver, notando minha entrada um tanto atípica. — Bom dia, senhor Giorgio. Retribuo o cumprimento com um aceno curto antes de perguntar, mantendo o tom de voz controlado, embora meu interior esteja agitado: — Quem é essa jovem que estava dando sugestões tão interessantes? Marina também olha para a porta por onde ela acabou de sair, como se visse um rastro de luz ali. — Ela está conosco há quase nove meses, senhor. Veio da região dos limões sicilianos para trabalhar aqui na fazenda. É muito dedicada e aprende tudo muito rápido. Assinto lentamente, processando a informação. Agora entendo por que ela mencionou tantas vezes o limão siciliano com tanta convicção. Aquele aroma parecia emanar de sua própria experiência de vida. — Foi de lá que nasceu a ideia dela. — Exatamente. Permaneço alguns segundos em silêncio, minha mente trabalhando velozmente. Consigo imaginar perfeitamente uma linha de azeites especiais estampando nosso selo. Limão siciliano. Alho. Pimenta. Ervas. Produtos voltados para restaurantes de luxo, hotéis que gerencio e consumidores que procuram uma experiência gastronômica, não apenas um item básico de cozinha. Volto meus olhos para Marina, decidido. — Vamos começar os testes. Ela arregala os olhos, surpresa com a prontidão da minha decisão. — O senhor gostou mesmo da ideia? Sorrio, sentindo que finalmente encontrei uma fagulha de criatividade neste lugar que parecia estagnado. — Gostei muito. Ela parece hesitar, o medo do meu pai ainda pairando sobre as paredes do escritório. — Mas... o senhor sabe que seu pai talvez não concorde. Minha expressão muda imediatamente, a sombra de Matheus Trovato não sendo capaz de obscurecer este momento. — Meu pai administra esta fazenda. Quem administra todo o grupo empresarial sou eu. Ela permanece em silêncio, reconhecendo a autoridade. Continuo, impondo meu ritmo. — Marque uma reunião com a equipe técnica. Quero começar os testes ainda esta semana. Se os resultados forem bons, lançaremos uma linha de azeites aromatizados. Marina abre um largo sorriso, contagiada pela perspectiva de renovação. — Sim, senhor Giorgio. Antes de sair do escritório, volto a olhar discretamente para o corredor onde ela sumiu. Não sei o nome daquela jovem. Mas tenho a estranha sensação de que ela acabou de mudar muito mais do que o futuro dos nossos azeites. Ela acabou de despertar uma curiosidade que não sinto por ninguém há muito tempo.O CONVITESinalizei discretamente para um dos funcionários do serviço, um rapaz jovem que mantinha o refeitório em ordem. Troquei algumas palavras rápidas com ele, mantendo o tom baixo, e apontei para a mesa onde Gemima ainda se encontrava, quase escondida atrás da amiga.Vi o garçom assentir com um respeito automático e começar a caminhar pelo salão. Ele desviava entre as mesas com uma seriedade profissional, mas havia algo na sua postura que deixou o ambiente em estado de alerta. Pude ver o momento exato em que a mensagem chegou até ela.Gemima sentiu-se minúscula, sentada ali com o avental manchado pelo trabalho pesado da manhã. O burburinho ao seu redor começou a crescer, com outros funcionários sussurrando e lançando olhares curiosos sobre o movimento incomum de um magnata enviando um garçom até a mesa de uma simples trabalhadora.O rapaz limpou a garganta ao se aproximar, mantendo a postura firme, mas seus olhos mostravam que ele também esta
O ALMOÇO Sento-me diante do meu pai no refeitório da fazenda, um ritual que mantenho religiosamente sempre que venho à Sicília. — Gosto de observar a rotina, conversar com os funcionários e entender, na prática, como as engrenagens da empresa giram. Não existe relatório de diretoria que substitua o contato direto com as pessoas que fazem este negócio funcionar todos os dias. — Meu pai, como de costume, exibe seu descontentamento evidente antes mesmo de levar o primeiro bocado de comida à boca.— Eu não sei por que você insiste nisso, Giorgio. — Ele diz, com um desdém que mal tenta esconder.Continuo cortando um pedaço de carne, movendo a faca com precisão, antes de levantar os olhos para encará-lo.— Insisto em quê, exatamente?Ele faz um gesto amplo com a mão, uma demonstração de repulsa que engloba todo o refeitório, as mesas simples e o pessoal da produção.— Você passou a manhã inteira sobrevoando a fazenda, olha
GEMIMA O PATRÃO Quando saio do escritório de dona Marina, ainda sinto o coração batendo com um ritmo descompassado contra as costelas. O ar parece mais pesado, ou talvez seja apenas a minha consciência pesada por ter falado mais do que deveria. Eu só queria compartilhar uma ideia, algo simples que me ocorreu durante as manhãs intermináveis de separação dos frutos. Pensava nos temperos e ervas que minha família sempre utilizou em nossa mesa, lá em Noto. Mas, agora que caminho pelo corredor de pedra, o silêncio ao meu redor parece amplificar minha hesitação. Tenho apenas nove meses de casa e sei, por tudo o que ouço nos corredores, que o senhor Matheus não é um homem que aprecia funcionários tomando liberdades. No instante exato em que me viro para seguir rumo à fábrica, meus passos travam. Há um homem parado a poucos metros, encostado na parede próxima à porta por onde saí. Ele é alto, imponente, co
CONTINUAÇÃO O clima no refeitório tornou-se subitamente denso, quase palpável, como se o ar tivesse adquirido uma densidade física que dificultava a respiração. — Cada vez que eu tentava levar o talher à boca, minha mão hesitava no meio do caminho, traída por um tremor involuntário.Meus olhos insistiam em desafiar minha própria vontade, desviando-se constantemente para a mesa de madeira maciça onde a família Trovato estava sentada. — O senhor Matheus falava algo com rispidez, gesticulando com o dedo indicador, enquanto Giorgio, o filho, mantinha uma postura contida, quase alheia ao sermão do patriarca.— Coma, Gemima. Se você parar de comer, vai parecer que está passando mal ou escondendo algo. — Pepita sussurrou, mantendo o rosto voltado para o prato e o tom de voz quase inaudível.Tentei forçar uma garfada, mas o gosto da comida parecia ter se perdido por completo.— A conversa na mesa dos patrões era impossível de escutar,










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