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CAPÍTULO 7 — O RESTO DA DIGNIDADE

POV ZOE

Acordei com o corpo doendo como se eu tivesse apanhado da cidade inteira.

Por alguns segundos, fiquei imóvel, sem saber exatamente onde estava, até o frio grudado na pele e a dureza do chão sob o meu quadril me trazerem de volta à realidade. A mala continuava ao meu lado, torta, servindo mais como barreira psicológica do que como proteção de verdade. Lira ainda dormia no meu colo, pequena, quente, o rosto afundado contra o meu peito como se ali ainda existisse algum tipo de segurança.

Olhei em volta devagar.

A praça já não era aquela mancha escura e ameaçadora da madrugada. A manhã começava a tomar conta de tudo com uma luz acinzentada, meio tímida, meio cruel, como se o dia também soubesse que eu não estava pronta para ele. Algumas barracas começavam a ser montadas do outro lado da rua. Um homem varria a calçada. Duas mulheres conversavam perto de um ponto de ônibus. O mundo seguia, indiferente, enquanto eu me sentia quebrada por dentro e por fora.

Passei a mão no cabelo de Lira com cuidado, tentando não acordá-la de uma vez. Ela se mexeu um pouco, resmungou baixinho e abriu os olhos devagar, ainda presa naquele estado meio sonolento em que as crianças demoram a entender onde estão.

— Mamãe… — murmurou, a voz rouca de sono.

Sorri, ou tentei.

— Oi, meu amor.

Ela olhou em volta, confusa, e eu vi o momento exato em que aquela cabecinha pequena tentou entender por que não havia cama, teto, parede, nada.

Meu coração se apertou tanto que doeu de verdade.

— A gente vai levantar agora, tá bom? — falei, alisando o rosto dela. — A mamãe vai resolver tudo.

Eu não sabia como. Mas mães prometem o impossível quando o medo de decepcionar é maior do que o medo de mentir.

Levantei com cuidado, sentindo as costas protestarem no mesmo instante. Minhas pernas estavam duras, meu pescoço latejava, e havia uma pontada aguda perto do ombro direito por eu ter passado horas na mesma posição segurando Lira para que ela não sentisse tanto frio. Ainda assim, me obriguei a ficar ereta. Não porque estivesse forte. Mas porque, naquele momento, desmoronar seria um luxo caro demais.

Arrumei o pouco que ainda restava comigo, ajeitei a roupa amarrotada, passei os dedos sob os olhos tentando apagar o rosto de quem tinha passado a noite na rua. Não adiantou muito. Eu continuava parecendo exatamente o que era: uma mulher cansada, assustada, estrangeira e sem a menor ideia do que fazer.

Mas ainda era mãe.

E isso tinha que bastar.

Levei Lira comigo até a delegacia novamente. O caminho pareceu mais curto do que na noite anterior, talvez porque agora eu já não tivesse espaço para esperança. Só para necessidade. O lugar ainda cheirava a papel velho, café requentado e impaciência. As mesmas cadeiras duras, a mesma luz fria, a mesma sensação de que dor alheia ali virava apenas mais um número na fila.

Um dos policiais me reconheceu assim que me aproximei do balcão.

Foi o mesmo que na noite anterior me fez repetir minha história três vezes até entender metade dela.

Ele olhou primeiro para mim, depois para Lira, depois para a mala ao meu lado. O tipo de olhar de quem entende sem que você precise explicar.

— Você de novo — disse, em inglês hesitante, mas suficiente.

Assenti.

Minha garganta estava seca demais para rodeios.

— Vim saber se encontraram meus documentos… ou minha bolsa. Qualquer coisa. Eu preciso deles.

Ele desviou o olhar para alguns papéis, mexeu em alguma coisa no computador, soltou um suspiro curto e me encarou de novo.

— Seu caso ainda está em aberto.

A frase caiu em mim como se eu já não a esperasse.

Ainda assim, doeu.

Fechei os olhos por um segundo, só um, para não deixar o desespero tomar forma no meu rosto.

— Eu preciso achar um lugar para ficar — falei depois, mais baixo do que gostaria. — Meu dinheiro estava todo lá.

Ele me observou por alguns segundos em silêncio. Não com pena explícita, e eu agradeci por isso. Pena demais humilha. Mas havia alguma coisa no jeito como o olhar dele desceu até Lira e voltou para mim… alguma coisa que parecia mais humana do que burocrática.

Ele puxou um bloco pequeno de papel e escreveu um endereço com rapidez.

— Tem uma pensão aqui — disse, empurrando o papel na minha direção. — A dona aceita imigrantes. Às vezes consegue trabalho em troca de estadia. Não é o melhor lugar da cidade… mas é um lugar.

Peguei o papel com dedos trêmulos.

Aquilo parecia pouco.

E, ao mesmo tempo, parecia tudo.

— Obrigada — murmurei.

Ele apoiou os dois antebraços no balcão e abaixou um pouco a voz.

— Você precisa resolver isso logo. Entende? Um trabalho, documentos, algum registro. Porque se continuar sem nada… a situação complica. Muito.

Senti meu estômago gelar.

— Complica como?

Ele hesitou. Talvez porque não quisesse dizer. Talvez porque soubesse que, uma vez dito, aquilo não sairia mais de mim.

— Sem documentação, sem endereço fixo, sem meios de sustentar a criança… o governo pode intervir.

Não respondi.

Não consegui.

Minha mão apertou o papel com tanta força que ele quase amassou inteiro.

— Eu vou conseguir — falei por fim, mas a frase saiu mais como prece do que como certeza. — Eu só preciso de um pouco de tempo.

Ele me observou de novo, agora de um jeito diferente. Como se soubesse que tempo era exatamente o que eu não tinha.

Então abriu a carteira, tirou uma nota dobrada de vinte euros e a colocou discretamente sobre o balcão, empurrando-a na minha direção antes que eu pudesse reagir.

— Compre comida para sua filha — disse. — E use o resto para ir até esse endereço.

Olhei para o dinheiro.

Depois para ele.

Por um instante, o mundo ficou pequeno demais para o tamanho da vergonha e da gratidão que subiram juntas pelo meu peito. Meus olhos arderam na mesma hora. Tive que morder o lado interno da boca para não chorar ali, na frente dele, sob aquela luz fria, naquele balcão que já tinha visto gente demais se partir.

— Eu… — minha voz falhou. — Obrigada.

Ele desviou os olhos como quem não queria transformar aquilo em cena.

— Vai.

Assenti.

Segurei Lira melhor no colo, peguei a nota, o papel, a mala, o que ainda me restava de dignidade, e saí da delegacia com a sensação estranha de que às vezes a bondade vem do lugar de onde a gente menos espera.

Do lado de fora, o ar parecia menos cortante do que na madrugada, mas ainda frio o bastante para fazer minha pele arrepiar. Lira já estava mais desperta, embora seu rostinho continuasse abatido, os olhos grandes demais naquela carinha miúda, como se nem ela tivesse dormido de verdade.

— Comida? — perguntou baixinho.

Meu coração se partiu em silêncio.

— Sim, meu amor. A mamãe vai comprar.

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