Mundo de ficçãoIniciar sessãoAos quinze anos, Camila teve o futuro decidido por outros. Rafael nunca acreditou no amor, até o dia em que Camila cruzou seu caminho. Prometidos por um acordo entre famílias, eles seguem caminhos opostos diante do mesmo destino: Camila foge do casamento que não escolheu; Rafael vai atrás dela. Ambos são teimosos e não perdem a chance de pensar apenas em si. Mas isso também muda. Entre encontros marcados pela tensão, olhares que permanecem e silêncios que pesam, a distância entre obrigação, vingança e desejo começa a diminuir. Há segredos e escolhas que custam caro. E quando fugir já não é suficiente, o amor pode surgir como a única coisa impossível de controlar.
Ler maisParte 1...
Camila
Eu cheguei da escola pouco depois das seis. O céu ainda estava claro, mas a casa parecia quieta demais. Subi os degraus da frente e a porta se abriu.
Era Rosa e ela não sorriu pra mim, como sempre.
— Boa noite, menina Camila.
A voz estava baixa, presa.
— Boa noite… - respondi, entrando e olhando em volta. — Aconteceu alguma coisa?
Ela hesitou. Olhou para o corredor do escritório.
— Não.
— E por que esse silêncio?
— Seu pai está em reunião com alguns homens. Pediu para não ser interrompido.
Meu sentido ficou alerta. Nem sei porquê.
— E a minha mãe?
— Está na sala.
Passei por ela sem dizer mais nada. Minha mãe estava sentada no sofá, com as mãos entrelaçadas no colo, olhando para um ponto qualquer da parede. Quando me viu, levantou depressa demais.
— Filha… Você já chegou?
— Já. O que houve? – deixei a mochila no sofá.
— Nada, meu amor. Nada demais.
Ela mentiu mal. A voz falhou no final. Já conheço.
— Mãe… - dei um passo à frente. — Você está estranha. Algum problema?
— Seu pai está resolvendo uns assuntos. Coisas de trabalho. - segurou meu braço, como se eu pudesse cair. — Suba para o quarto. Fique lá até ele chamar você.
— Por quê?
— Porque sim, ora!
— Mãe, o que está acontecendo? A senhora parece nervosa.
Ela respirou fundo, os olhos brilhando.
— Por favor, Camila. Suba, está bem?
Olhei para o corredor do escritório. A porta fechada. Aquela sensação ruim no peito virou pressão.
— Tem alguém aqui que eu não conheço, não é?
Ela não respondeu. Isso foi resposta suficiente.
— Está bem, mãe, eu vou para meu quarto.
Saí e subi alguns degraus. Parei e esperei. Meu coração batia forte demais. Dei meia-volta devagar e voltei pelo corredor, pisando no tapete como se ele pudesse denunciar meus passos.
Passei rápido pela frente da sala, minha mãe não me viu. Fui até o escritório e encostei o ouvido na porta para tentar ouvir o que diziam lá dentro.
Eram vozes graves. A do meu pai e mais outras duas que não reconheci.
— …Não podemos esperar mais - disse um homem. O tom parecia de comando.
— Eu sei - meu pai respondeu. — Mas ela ainda é uma criança.
Meu corpo gelou.
— Criança ou não, é sua filha. E isso é uma garantia. Sabe bem como funciona.
— Eu não negocio a minha filha como mercadoria.
— Então não aja como se ela não fosse um vínculo. Isso é assim desde o começo, não vai mudar agora.
Silêncio. Meu coração acelerou.
— Ela vai resistir - meu pai disse. — Vocês não a conhecem. Minha filha é muito jovem e...
— Ela não precisa gostar. Precisa obedecer. Se tantas outras já fizeram isso, porque ela é diferente?
Minha garganta fechou. Ouvi passos.
— Já chega. O que está acertado deve ser cumprido - outra voz disse, mais próxima. — Vamos embora.
Afastei-me num pulo e saí correndo pelo corredor. Dobrei a esquina e bati em alguém. O choque me fez perder o ar. Quase caí e mãos firmes me seguraram pelos braços.
— Ei!
Levantei o rosto. Não o conheço. Não era visitante da casa. Terno escuro. Barba por fazer. Olhos frios, atentos demais. Meu coração quase saiu pela boca.
— Desculpa - murmurei, me soltando.
Passei por ele sem pensar e corri escada acima. Tranquei a porta do quarto e me encostei nela, respirando rápido demais. Meu corpo tremia inteiro.
— O que eu ouvi lá embaixo? – franzi a testa e andei até minha cama — Que conversa foi aquela, meu Deus? – sentei — E quem é aquele homem?
As perguntas vieram de vez, mas eu não tinha as respostas ainda. Tirei os sapatos e me deitei, olhando para cima. Alguns minutos depois, ouvi a voz do meu pai.
— Camila! Desça aqui, filha.
Desci descalça mesmo. A curiosidade era maior. Minha mãe estava sentada quase na mesma posição de antes e agora seu rosto estava vermelho e apertava as mãos como se estivesse ansiosa.
— Sente-se, Camila - meu pai disse, apontando para uma cadeira.
Sentei, mas estava com a curiosidade alerta. As caras de ambos não estavam boas. Algo sério tinha acontecido.
— Tomamos uma decisão importante. – meu pai começou.
Minha mãe estava com os olhos vermelhos e abaixou a cabeça.
— Filha… - ela tentou falar
— Você irá para um internato. Está prometida em casamento.
Meu pai falou de um modo que parecia algo simples, tipo ir ao shopping. Demorei a entender as palavras.
— O quê? – ergui as sobrancelhas, olhando para minha mãe.
— Você agora é noiva de Rafael Bova. Ele é um aliado da família.
— Pai... Eu tenho quinze anos. – fiquei quase sem ação — Eu não quero me casar.
— O casamento não será agora.
— Então por que estão falando disso agora?
— Porque é preciso garantir certas coisas.
— Garantir o quê? – fiquei de pé de vez.
— Segurança.
— Segurança? Para quem?
Ele não respondeu, só olhou para minha mãe.
— Quando?
— Quando você fizer vinte anos. Você vai voltar para se casar.
— Voltar de onde? – fiquei perdida.
Ele desviou o olhar.
— Você será enviada para um internato religioso.
Senti o chão sumir embaixo de meus pés.
— O-o que? Vocês vão me mandar embora?
— É para o seu bem. Já está tudo certo.
— Não. - balancei a cabeça. — Isso é mentira. Só pode ser – respirei fundo.
— Camila…
— Vocês estão me expulsando de casa.
— Não é isso, filha – minha mãe levantou.
— É exatamente isso! - minha voz subiu. — Estão me tirando da minha vida!
Minha mãe começou a chorar.
— Nós não temos escolha…
— Sempre existe escolha!
— Não nessa vida - meu pai parou em frente a mim e segurou meus braços — Sabemos o que é melhor pra você, Camila.
— Pai, pelo amor de Deus, que ideia maluca é essa?
— Camila, respeite seu pai. Ele faz as coisas pensando no nosso bem.
— Ah, claro – senti minha garganta apertar — Me dando de presente para um estranho.
— Rafael não é um estranho – ela comentou como se isso fosse ajudar em algo.
— Pra mim é! Eu não conheço esse homem.
— Mas eu conheço. Ele é filho de um amigo de negócios e de confiança.
— Não quero me casar – quase disse isso chorando.
— Mas vai – ele soltou meus braços — Eu tenho negócios com a família Bova.
— Então por que eu tenho que pagar por decisões que eu nunca tomei? Se são seus negócios, arranje outro jeito que não seja esse.
— Você vai casar com ele, Camila.
— Por que? – bati o pé com força.
— Porque você é minha filha.
— Então me proteja, não faça isso.
— É isso que estou fazendo!
— Me vendendo?!
O tapa veio seco. Meu rosto virou. Ficamos em silêncio. Levei a mão à face, sentindo a pele queimar.
— Nunca mais encoste em mim - falei, com a voz quebrada.
— Não fale assim comigo. Eu sou seu pai!
— Você não pode me obrigar a casar com alguém que eu não conheço!
— Posso. E vou. – apontou o dedo — Aqui quem manda sou eu. Você vai fazer o que eu mando.
— Eu não vou me casar!
— Você vai!
— Eu prefiro morrer.
Minha mãe levou a mão à boca.
— Nunca mais diga isso - meu pai rosnou.
— Então não destrua a minha vida! - comecei a chorar sem controle. — Eu sou sua filha. Não um acordo. Não uma garantia de bom negócio.
Ele ficou em silêncio.
— Filha, você nem conhece o rapaz – minha mãe tentou amenizar — Vamos fazer um jantar para que se conheçam.
— Era aquele homem do corredor, não é?
— Que homem? – minha mãe franziu a testa e olhou para meu pai — Tinha alguém no corredor?
— Rafael tinha saído para pegar o celular, deve ter sido ele. - a tensão no rosto dele respondeu.
— Vamos fazer um jantar amanhã e você vai poder conhecer o rapaz – eu neguei com a cabeça — Depois arrume suas coisas. Você viaja em duas semanas.
Foi ali que algo quebrou de verdade.
— Eu odeio vocês! Eu odeio essa casa!
Parte 118…Camila— Engraçado… - Ania disse devagar, olhando para mim como se estivesse analisando algo sujo. — Matteo não estuda mais e não tem naquela faculdade. Então me explica por que ele estaria lá… Se não fosse para encontrar você.Demorei um pouco para entender o que ela estava insinuando.— Eu não combinei encontro nenhum - respondi, tentando manter a voz firme. — Ele apareceu lá. Só isso.— Claro - ela sorriu sem humor, mas cheia de maldade. — Coincidências acontecem o tempo todo, não é?Senti o ambiente ficar mais pesado atrás de mim. Rafael ainda estava parado alguns degraus acima, segurando o corrimão, o corpo rígido.— Mãe, chega... Já disse - ele disse, a voz baixa, mas carregada.Ela ignorou completamente o que ele disse.— Meu filho não bebe desse jeito. Nunca bebeu. Alguma coisa mudou depois que você entrou nessa casa. É algum plano de seu pai?Respirei fundo. Só podia ser brincadeira.— A senhora está tirando conclusões erradas. E criando problemas onde não tem.— E
Parte 117…CamilaEu percebi que Rafael não estava bem antes mesmo de entrarmos em casa. Não era só o silêncio dele. Era o peso. Como se ele estivesse carregando algo grande demais sozinho e estivesse tentando impedir que aquilo vazasse.Fiquei ao lado dele sem fazer mais perguntas. Não porque não quisesse saber, porque eu queria muito, mas porque entendi que insistir só faria com que ele se fechasse mais.E sendo bem honesta. Tenho medo que se insistir, ele acabe brigando comigo, assim como meu pai fazia com minha mãe quando ela insistia em algo.E algumas coisas precisam de espaço para sair. De repente é mesmo algo relacionado ao trabalho que o cansou e por isso está esquisito.Outras coisas precisam apenas de companhia. Isso eu posso dar a ele.Eu até pensei em contar que as provas tinham ido bem. Melhor do que eu imaginava. Que provavelmente eu, Jocelyn e Guerd seríamos aceitos para continuar o curso na faculdade. Aquilo era importante para mim. Muito. Mas quando olhei para Rafael
Parte 116...RafaelEu enrolei o máximo que pude para evitar voltar ao escritório de meu pai e fazer uma bobagem. Cheguei em casa já era noite, mas não tive a sensação de estar voltando para um lugar seguro. O portão se fechou atrás de mim com um som metálico que pareceu alto demais. Nem mesmo dei boa noite aos seguranças que estavam na entrada.Cada passo até a porta principal pesava como se eu estivesse carregando algo invisível nos ombros. Eu precisava falar com minha mãe. Precisava entender o que realmente tinha acontecido com meu pai. Precisava juntar peças que, de repente, não faziam mais sentido nenhum.E acima de tudo, precisava continuar fingindo que estava tudo normal. O que era pior. Isso me causou uma dor de cabeça chata por toda a tarde.Minha mão ainda estava na maçaneta quando percebi que estava tremendo. Respirei fundo antes de entrar.A casa estava silenciosa, iluminada apenas pelas luzes indiretas da sala. Fui direto para o quarto. Tirei o paletó devagar, tentando o
Parte 115...RafaelDirigi sem destino por vários minutos. O trânsito passou a ser apenas ruído. Semáforos, buzinas, pessoas atravessando. Era tudo automático. Meu corpo conduzia o carro, mas minha cabeça ainda estava naquele corredor, naquela porta fechada, naquela frase que não parava de repetir dentro de mim.Quem matou Riccardo foi você.Apertei o volante com força até os nós dos dedos ficarem brancos. Quando percebi onde estava, já via o mar. Estava no porto.Caminhei até o final do cais. Ali quase não havia ninguém naquela hora. Só o som das ondas pequenas batendo e o vento empurrando minha camisa contra o corpo.Passei a mão pelo rosto e respirei fundo, me sentindo sufocado, mas não ajudou.Riccardo apareceu na minha memória como sempre surgia: rindo alto demais, implicando comigo, dizendo que eu levava tudo sério demais. A nossa última discussão. A última vez que o vi vivo.Eu passei anos tentando provar que Antônio tinha matado meu irmão. Investigando. Revirando negócios. Pr





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