Mundo de ficçãoIniciar sessãoo que começa como um encontro sem consequências muda tudo. Em uma festa longe de casa, Estela conhece Pedro. A atração é imediata, intensa e termina do jeito que encontros de uma noite costumam terminar: sem promessas, sem nomes, sem futuro. No dia seguinte, ela volta para sua cidade natal acreditando que aquilo ficou para trás. Mas não ficou. Pedro reaparece no pior cenário possível: ele é o filho do homem que vai se casar com a mãe de Estela. De uma noite anônima, eles passam a dividir o mesmo espaço, a mesma família prestes a se formar — e um sentimento que insiste em não desaparecer. Entre tentativas de fuga, negação e novos interesses amorosos, Estela e Pedro lutam contra algo que nunca pediram para sentir. Porque algumas conexões não surgem para durar — surgem para desestabilizar tudo. Um romance sobre desejo, culpa e a linha tênue entre o que se quer e o que não se pode escolher.
Ler maisA despedida começou como qualquer outra reunião animada demais para ser completamente inocente. Risadas espalhadas pela casa, música alta o suficiente para abafar conversas sérias, copos sendo enchidos sem que ninguém realmente perguntasse se eu queria.Eu queria.Mas não queria pensar.Minha mãe estava diferente naquela noite. Mais leve. Mais solta. Ria com a cabeça jogada para trás, aceitava abraços longos, brindes exagerados, promessas de felicidade eterna ditas por pessoas que não estariam ali no mês seguinte. Ver aquilo me dava um nó estranho no peito — orgulho e medo misturados, como se aquela alegria também fosse frágil demais para ser tocada.— Estela, você quase não bebe — alguém comentou, já estendendo a garrafa antes que eu respondesse.Deixei.O álcool desceu devagar, sem pressa. Não queimou. Aqueceu. Espalhou uma sensação confortável pelo corpo, como se tivesse sido feito para dissolver exatamente o que eu vinha segurando há dias.A música mudou e, sem perceber quando, co
O quarto estava silencioso demais.Não o silêncio confortável do fim da noite, mas aquele que sobra quando a casa já acordou e as pessoas decidiram não dizer tudo o que pensam. Um silêncio atento, quase vigilante.Fiquei parada no centro do quarto, sentindo o peso das escolhas espalhadas sobre a cama. Não eram roupas. Eram versões. Cada peça parecia carregar uma narrativa possível, um caminho que eu poderia seguir — e, ao mesmo tempo, evitar.Passei os dedos pelo tecido da primeira. Era bonita. Ajustada. Correta. Daquelas que não chamam atenção, mas também não deixam margem para erro. Vesti.O espelho devolveu uma imagem conhecida demais. A filha certa. A mulher adequada. A presença que não incomoda ninguém.Vazia.Tirei.A segunda peça não pediu licença. O tecido deslizou pela minha pele com uma facilidade quase ofensiva, como se já soubesse onde ficar. Quando ergui os olhos, não vi exagero. Não vi provocação gratuita. Vi intenção. Uma decisão silenciosa que não precisava de testemun
A corrida não me acalmou.Empurrei o corpo além do ritmo confortável, como se o cansaço físico pudesse abafar o que insistia em latejar por dentro. Não funcionou. Voltei para casa com a respiração irregular, o suor grudando na pele e a certeza desconfortável de que fugir não adianta quando o problema não está no caminho — está em mim.Entrei pela porta lateral, tentando ser silenciosa. Um hábito antigo, quase infantil. Como se fazer menos barulho diminuísse a chance de existir demais.O cheiro de café me avisou antes de vê-lo.Pedro estava na cozinha.Sozinho. Camisa básica. O café já passado demais, escurecendo na garrafa como se tivesse sido esquecido ali por tempo demais. A cena era simples. Comum. E ainda assim, tudo em mim parou.Eu congelei.Ele me viu no mesmo instante — e desviou o olhar.Não foi natural. Foi deliberado. Um movimento calculado, preciso demais para ser casual. Como quem sabe exatamente onde não pode pisar.— Bom dia — eu disse, porque o silêncio crescia rápido
Acordei antes do sol.O quarto ainda estava escuro, silencioso demais para alguém que tinha dormido pouco e pensado demais. Fiquei alguns minutos encarando o teto, sentindo o corpo cansado e a mente em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer — mesmo sem saber o quê.Levantei devagar.Coloquei um short, uma camiseta larga, amarrei o cabelo num coque apressado. Tênis. Relógio. Tudo automático. Tudo Estela.Correr sempre foi isso pra mim: linha reta. Ritmo. Controle.Antes de sair do quarto, respirei fundo. Era só uma corrida. Era só o começo do dia. Era só… fugir um pouco.Abri a porta.E dei de cara com ele.Pedro vinha pelo corredor no sentido oposto, também vestido para correr — camiseta escura, fone pendurado no pescoço, expressão ainda meio perdida de quem tinha acabado de acordar. Ele parou no mesmo instante que eu.O corredor ficou pequeno demais.— Bom dia — ele disse.— Bom dia.Silêncio.Nenhum dos dois se mexeu. Nenhum dos dois sorriu.— Vai sair? — ele perguntou,
A manhã chegou cedo demais.Acordei antes do despertador, o corpo cansado e a mente acelerada. Por alguns segundos, fiquei de olhos fechados, tentando lembrar onde estava — e torcendo para que tudo tivesse sido só um sonho estranho.Não foi.A casa estava silenciosa quando desci para a cozinha. O cheiro de café fresco denunciava que alguém já estava acordado. Minha mãe apareceu logo depois, de pijama, cabelo preso de qualquer jeito e um sorriso tranquilo demais para alguém que tinha juntado duas vidas na noite anterior.— Dormiu bem? — perguntou.— Dormi — menti.Ela me observou por um segundo a mais do que o normal.— Você parecia cansada ontem.— Foi o dia longo — respondi. Verdade suficiente para passar.Ela assentiu, satisfeita, e começou a falar sobre o cronograma do casamento, como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo estivesse exatamente no lugar.Peguei uma xícara de café e sentei à mesa.Foi quando ouvi passos no corredor.Meu corpo reagiu antes da cabeça.Pedro entrou
O jantar do ensaio terminou como essas coisas sempre terminam:risadas demais, taças vazias, promessas de que “vai ser lindo”.Eu sorria. Respondia. Cumpria o papel.Mas por dentro, eu estava em estado de alerta.Pedro estava do outro lado da mesa, mais quieto do que antes. Não me encarava diretamente, mas eu sentia a presença dele como uma pressão constante, quase física. Como se a qualquer momento algo fosse ceder.Quando os últimos convidados começaram a se despedir, minha mãe parecia radiante. Segurava o braço de Marcus, animada, falando sobre flores, música, detalhes pequenos que, pra ela, significavam tudo.— Estela — ela disse, se virando para mim — você nem entrou na piscina desde que chegou.Eu pisquei.— Ainda não.Ela sorriu daquele jeito casual, inocente demais para o caos que eu carregava.— Então vamos fazer o seguinte — disse ela, olhando para Pedro também. — Eu vou colocar uma roupa mais confortável. Se quiserem, podem ir pra piscina… ou pra hidromassagem. A água está





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