Fiquei parada em frente ao espelho por longos segundos, como se estivesse olhando para alguém que sempre existiu, mas que eu nunca tivera coragem de liberar.
Eu já era bonita — sabia disso. Mas nunca investi muito nisso.
Tempo de maquiagem? Zero.
Rotina de skincare? O básico, só pra não parecer que sobrevivi a um furacão.
Tempo com livros? Sempre. Tempo com mim mesma? Nunca.
Mas naquela noite… algo diferente pulsava dentro de mim. Um friozinho gostoso que misturava medo e expectativa. Eu queria ver quem “Luna” poderia ser.
— Meu Deus, Estela! — Júlia entrou como um trovão, gritando com entusiasmo. — Olha isso! Você tá a própria versão premium de você mesma.
Clara veio logo atrás, segurando três brincos diferentes, os dedos tremendo de animação.
— Eu sabia que esse vestido ia ficar perfeito — murmurou, orgulhosa, quase como se tivesse ajudado a me criar.
Respirei fundo. O ar do quarto tinha cheiro de perfume misturado à luz morna da lâmpada. A cama bagunçada, o laptop aberto, minhas anotações… tudo parecia distante, irrelevante.
O vestido era simples, preto, curto, mas elegante. Ajustava-se nos lugares certos e soltava nos lugares certos. Mostrava minhas pernas, realçava minhas curvas que eu sempre finjo que não existem. O decote? Discreto, mas suficiente pra me lembrar que eu tinha um colo bonito.
Eu olhei para mim mesma. Sentia o tecido escorregar sobre a pele, o frio leve da sala, o peso sutil dos brincos nas orelhas. Era um eu que eu nunca tinha permitido existir — Luna.
Júlia mexia no meu cabelo, ajeitando cada mecha com precisão exagerada, enquanto Clara finalizava a maquiagem. Eu podia sentir o cheiro do batom, o toque do pincel na pele, a textura do pó suave.
— Você tem noção de que sempre foi gata? — disse Júlia, sorrindo. — A diferença é que hoje você decidiu mostrar.
— Eu não decidi nada — respondi, rindo nervosa. — Vocês decidiram por mim.
Clara sorriu, tocando meu ombro.
— É porque você nunca deixa. Hoje você deixou. Aproveite.
O frio na barriga apertou de novo. Não era medo. Era expectativa. Uma vontade silenciosa de explorar algo que sempre evitei: ser livre comigo mesma, sem regras, sem culpa.
— E aí, Estela? — Júlia cruzou os braços. — Ou devo dizer…
Ela se inclinou, sorriso malicioso nos olhos.
— Luna.
O nome bateu dentro de mim como um estalo suave.
Luna não estudava aos sábados.
Luna não revisava provas três vezes.
Luna não tentava ser perfeita.
Luna… simplesmente existia, permitia-se sentir, respirar, errar, sorrir, olhar o mundo sem pressão.
Eu fechei os olhos por um instante e respirei fundo, sentindo o ar quente do quarto, misturado com o perfume das amigas e o tecido macio do vestido sobre minha pele. Coloquei os brincos devagar, consciente de cada movimento, de cada sensação.
— Ok — murmurei, olhando profundamente nos meus próprios olhos no espelho. — Hoje eu sou Luna.
Júlia bateu palmas, animada.
— Isso! Agora vamos aproveitar antes que a noite acabe.
Saímos do dormitório rindo, passos leves pelo corredor iluminado. Cada risada parecia dissolver parte da Estela que eu conhecia. A música da festa vibrava ao longe, e o corredor parecia mais amplo, mais acolhedor, cheio de possibilidades.
Do lado de fora, o ar da noite estava quente e suave, cheio de vida. Risadas ecoavam, luzes coloridas piscavam, e o campus parecia diferente — quase mágico. O vento tocava minha pele, fazendo o vestido se mover delicadamente, lembrando-me de que eu podia ser leve, podia ser Luna.
Clara entrelaçou o braço no meu.
— Só lembra de uma coisa… Você não precisa ser perfeita hoje. Nem certa. Nem responsável. Só… seja. Como quiser. Sem culpa.
Engoli em seco, sentindo o coração acelerar.
— Vou tentar.
— Não tenta — corrigiu Júlia. — Faz.
Cada passo que demos em direção à festa me afastava da Estela rígida, controlada e perfeita. Cada risada, cada cheiro, cada toque me aproximava de Luna, da versão de mim mesma que eu nunca tinha permitido existir.
E quando cruzei a porta da festa, fui inundada por cores, música e calor humano. O ar parecia vibrar ao redor de mim, como se estivesse vivo.
Não era Estela entrando ali.
Era Luna.
Leve. Curiosa. Presente.
Pela primeira vez em muito tempo, eu respirei sem culpa.
Pela primeira vez, me permiti existir.
E sem saber exatamente o motivo, um sorriso lento e genuíno se abriu no meu rosto.
Talvez eu não tivesse vindo buscar nada naquela noite.
Talvez eu só tivesse vindo me encontrar.
E, por aquela noite inteira, isso bastava.