O “quero” escapou da minha boca antes que o bom senso tivesse tempo de reagir.
Pedro Felipe não sorriu.
Ele simplesmente me puxou para um beijo que roubou todo o meu ar — urgente, quente, faminto — como se aquela resposta tivesse liberado algo que ele também vinha segurando.
— Meu apartamento é mais perto — murmurou entre um beijo e outro. — E ninguém vai nos achar lá.
A Estela estudiosa, a filha responsável, a garota que sempre calculava consequências… ficou para trás.
Luna assumiu o controle.
E, naquele momento, só existia o calor dele e a vontade de não pensar.
O caminho até o prédio virou um borrão de risadas baixas, beijos roubados, mãos se encontrando sem pudor. No elevador, nossos corpos estavam colados, refletidos no espelho como dois estranhos prestes a atravessar um limite invisível — e irreversível.
O apartamento tinha cheiro de lavanda e maresia. Moderno, silencioso. Mas eu mal registrei qualquer detalhe. A porta mal se fechou e ele me girou, me encostando contra a parede fria, como se precisasse sentir que aquilo era real.
O beijo mudou.
Não era mais flerte.
Era desejo sem negociação.
Minhas mãos subiram para o pescoço dele, meus dedos se perderam em seu cabelo, e eu percebi — com um susto delicioso — que não havia mais timidez em mim. Só vontade.
— Se você quiser parar… — ele murmurou contra minha pele, mas o tom da voz era tudo, menos um aviso.
Eu não respondi com palavras. Apenas o puxei de volta.
— Não — sussurrei. — Continua.
O vestido escorregou pelo meu corpo sem cerimônia, caindo no chão como uma pele antiga. A Estela teria se encolhido.
Luna se sentiu poderosa.
Ele me olhou por um segundo — um olhar intenso, atento, quase reverente — antes de se livrar da própria camisa. A tensão na mandíbula, o calor da pele, a forma como ele parecia tão entregue quanto eu… tudo me incendiava.
Eu o puxei pela mão até o quarto. A cama grande, desarrumada, parecia nos esperar.
O resto foi entrega.
Não houve pressa, nem delicadeza excessiva — apenas intensidade. Sensações que eu nunca tinha permitido sentir. Cada toque dele era uma permissão para eu ser tudo o que sempre reprimi. Não era só físico. Era libertador.
Eu estava vivendo a vida que Luna tinha despertado em mim.
Em algum momento, entre respirações descompassadas e sussurros na escuridão, a última parte racional de mim apareceu.
— Você tem…?
Ele respondeu com segurança, e aquilo bastou. Naquela noite, o desejo guiava tudo.
Quando o mundo desacelerou, deitamos lado a lado. O silêncio era confortável. O corpo cansado, satisfeito. Mas dentro de mim, algo começava a apertar.
O sol surgia tímido pelas frestas da janela. O cheiro dele estava em mim.
E a culpa — velha conhecida — voltou a bater à porta.
Eu precisava ir.
Me vesti rápido, o coração acelerado, como se fugir fosse a única forma de preservar aquela versão de mim.
— Eu preciso ir — murmurei, já perto da porta.
Ele se levantou, confuso, ainda lindo demais para aquela hora.
— Espera… me passa seu número, Luna.
Apertei o casaco contra o corpo, tentando guardar aquele cheiro, aquela noite, aquele erro.
— Não posso. Foi só…
— Só por esta noite? — ele completou, o sorriso diminuindo.
Assenti, com o peito apertado.
— Eu viajo agora. Obrigada, Pedro Felipe.
Beijei sua bochecha, peguei a bolsa e saí antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. A porta se fechou com um clique seco — o som exato de uma mentira sendo selada.
No táxi, enquanto a cidade acordava e eu me afastava dali, entendi a verdade que doía e aquecia ao mesmo tempo:
Eu não tinha só vivido uma noite intensa.
Eu tinha criado uma lembrança impossível de apagar.
E, no fundo, eu sabia.
Aquele tinha sido o erro mais doce — e mais irreversível — da minha vida.