Eu estava exatamente onde sempre estou no fim de cada semestre: sentada na minha escrivaninha, com o laptop aberto, o marca-texto na mão e uma pilha de anotações que parecia uma muralha entre mim e o resto do mundo. O cheiro leve de café frio ainda estava no ar — provavelmente da xícara esquecida ao lado da luminária. O quarto estava silencioso demais, tão organizado quanto minha rotina, tão previsível quanto eu.
A caneta batia ritmicamente na madeira da mesa enquanto eu revisava, pela terceira vez, o mesmo trecho de um artigo. Eu já tinha passado na disciplina com folga, mas minha cabeça insistia em não me deixar descansar. Era como se eu precisasse provar, de novo e de novo, que controlar tudo era a única forma de não desabar.
Mais um sublinhado.
Mais uma anotação.
Mais uma tentativa desesperada de me agarrar a algo que eu entendia — diferente do caos que me esperava em casa.
A porta se abriu sem aviso.
— Estela! — Júlia entrou como um ciclone, a voz preenchendo o silêncio em segundos. — Me diz que você não tá estudando. De novo.
Levantei o rosto devagar. A energia dela sempre parecia grande demais pro meu quarto pequeno. Clara veio logo atrás, encostada no batente, sorrindo com aquele ar de “estamos aqui pra te resgatar, quer você queira ou não”.
— Só estou revisando — murmurei, virando a tela por reflexo. — A última prova foi difícil.
— Difícil pra quem? — Júlia arqueou a sobrancelha. — Você tirou a maior nota da turma. De novo. Até o professor ficou sem jeito.
Clara entrou rindo.
— E a gente combinou que hoje você não ia passar a noite presa aqui. Não depois desse semestre.
Suspirei, já antecipando onde isso ia dar.
— Meninas, eu tô exausta. E amanhã viajo cedo. Minha mãe vai infartar se eu perder o ônibus.
Clara fez um sorrisinho malicioso.
— Porque você tem um casamento pra ir, né?
A palavra me acertou no estômago. Como sempre. O casamento. O vestido. A família nova. As fotos. A sensação de que eu estava sendo empurrada pra uma vida que eu ainda não entendia.
— É… — murmurei. — Amanhã começa tudo: ensaio, jantar, reunião com decoradora… E eu preciso estar lá.
Júlia avançou, apoiando as duas mãos na minha mesa. O cheiro do perfume dela invadiu o ar.
— Estela, você é brilhante. É dedicada. Mas você não vive. Não vive mesmo. E hoje é seu último respiro antes de virar filha certinha no casamento da sua mãe.
Ri, nervosa.
— Eu não sou madrinha, Júlia.
— Ainda — ela apontou o dedo pra mim. — Mas tua mãe deve estar só esperando o momento de te colocar segurando uma almofadinha de alianças.
Clara sentou na minha cama, puxou minha mão e apertou devagar.
— A gente sabe que você tá ansiosa. Esse casamento caiu do nada, esse padrasto novo, essa família nova… ninguém lida com tudo isso fácil. Você tá tentando controlar tudo pelos estudos porque é a única coisa que você sabe que não muda. Mas isso te deixa presa.
As palavras dela entraram mais fundo do que eu gostaria de admitir.
E era verdade. Eu estava com medo.
Medo de tudo mudar.
Medo de não me encaixar nessa nova família.
Medo de decepcionar minha mãe — de novo.
Medo de não saber quem eu era fora da zona segura dos livros.
— E se eu não me divertir? — perguntei baixinho. Era mais fácil fingir que era só isso. Mas, lá dentro, a pergunta real era outra: e se eu tentar ser diferente e falhar?
Júlia sorriu, daquele jeito que parecia que ela já tinha decidido por mim.
— A gente garante isso. E ó… ninguém precisa te chamar de Estela hoje.
— Como assim? — franzi o cenho.
— Inventa um nome — disse Clara, com brilho travesso. — Só hoje. Só pra respirar antes do colapso do casamento.
— Uma versão alternativa — completou Júlia. — Uma Estela sem pressão, sem expectativas, sem obrigações… uma nova você.
Meu coração deu um pulo. Eu tentei ignorar, mas senti.
Uma parte minha, uma parte bem escondida, queria exatamente isso. Só por uma noite. Só pra saber se eu conseguia existir sem carregar o peso do mundo nas costas.
— Tá… mas que nome? — perguntei, tentando disfarçar a curiosidade.
Júlia cruzou os braços, como quem já tinha decidido fazia horas.
— Luna.
O nome pairou no ar. Suave. Livre.
Era como se chamasse uma versão minha que eu nunca tive coragem de ser.
— Combina com você — disse Clara. — Não com a Estela que todo mundo acha que conhece… mas com a que você esconde até de si mesma.
Olhei para minhas anotações, para o laptop aberto, para a vida que me sufocava tanto quanto me protegia.
E pela primeira vez em semanas, talvez meses, eu deixei a ideia entrar.
Quem eu seria… se eu me deixasse?
Respirei fundo.
— Tá. Eu vou na festa.
As duas gritaram, e Júlia praticamente me arrancou da cadeira enquanto Clara me abraçava.
E eu deixei que o sorriso escapasse — pequeno, mas real.
Antes de mergulhar na rotina organizada, controlada e metódica que me esperava no casamento da minha mãe…
Eu deixei nascer a pergunta:
Quem eu poderia ser, só por uma noite?
Só hoje.
Só como… Luna.