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CAPÍTULO 6 — O Despertar

O sol já tinha nascido quando entrei no táxi rumo à rodoviária.

A luz da manhã era cruel — clara demais, honesta demais — como se fizesse questão de expor cada vestígio da noite que eu tentava apagar.

Eu vestia Estela outra vez.

Casaco fechado. Cabelo preso. Postura ereta.

Mas a pele sob o tecido ainda ardia com a memória de Pedro Felipe.

O cheiro dele parecia impregnado em mim, uma prova silenciosa e incriminadora de que Luna tinha existido.

Tentei enterrá-la durante toda a viagem.

Fracassei.

Cada curva da estrada trazia o rosto dele. O toque. O sorriso torto. O jeito como tinha dito meu nome — o nome errado — como se fosse a coisa mais certa do mundo.

Aquilo tinha sido um erro. Um erro monumental.

E eu era boa em corrigir erros.

Quando cheguei, minha mãe e Marcus já me esperavam.

O abraço dela foi apertado, cheio de saudade e expectativas.

— Estela, querida! Você conseguiu!

Marcus veio logo atrás. Eu já o conhecia; tínhamos sido apresentados no ano anterior, numa visita rápida e educada. Ele era alto, imponente, tinha um sorriso fácil e olhos… estranhamente familiares. Ignorei a sensação.

— É um prazer revê-la, Estela — disse ele, gentil.

— O prazer é meu — respondi, apertando sua mão e vestindo meu melhor sorriso.

— Fico feliz que tenha chegado antes do almoço.

— Eu estou exausta — confessei. A voz era minha, mas o cansaço era de Luna. — A viagem foi longa. Se não for pedir demais, eu queria tomar um banho e descansar um pouco.

Minha mãe sorriu, compreensiva, e me levou até o quarto novo.

— É lindo, mãe. Obrigada.

— Descanse um pouco. O almoço vai ser em uma hora. — Ela fez uma pausa, animada. — O filho do Marcus chega hoje também. Veio direto do aeroporto pra cá.

Assenti, aliviada por ter aquele intervalo.

O banho foi demorado, quase ritualístico. Eu tentei lavar cada lembrança da noite anterior, cada toque, cada sensação proibida. Depois, deitei e deixei o sono me engolir.

Por um tempo, fui apenas Estela.

Quando acordei, a casa estava silenciosa, iluminada pela luz da tarde. Meu corpo estava melhor, mas o peso no peito permanecia.

Hora de voltar ao papel.

Desci as escadas com cuidado, recomposta, educada, impecável.

A mesa estava posta para quatro.

— Olha só quem resolveu aparecer — minha mãe brincou. — Sente-se, Estela.

Marcus sorriu.

— Sua mãe estava ansiosa. Falou muito de você.

— Espero não ter exagerado — ela riu.

— A faculdade correu bem? — Marcus perguntou. — Soube que você teve um semestre excelente.

— Foi intenso, mas consegui finalizar tudo bem.

— Ela tirou A em tudo! — minha mãe completou, orgulhosa. — Sempre foi focada assim.

Sorri. Aquela parte eu dominava. Estela era segura, previsível, fácil de sustentar.

Eu ia responder algo sobre a próxima etapa da faculdade quando ouvi a porta da frente se abrir.

— Cheguei! Desculpa o atraso, o voo foi um caos.

A voz.

Meu coração simplesmente… parou.

Eu conhecia aquela voz.

Lenta. Grave. Familiar demais.

Os passos se aproximaram. E então ele apareceu na sala de jantar.

Pedro Felipe.

O mesmo rosto que eu tinha memorizado horas antes. O mesmo sorriso que tinha me desarmado. O mesmo olhar que tinha conhecido minha pele na escuridão.

Agora ele usava outra roupa, outro contexto — mas era ele.

O sorriso dele congelou no mesmo instante em que nossos olhos se encontraram.

O silêncio ficou pesado.

Marcus se levantou, orgulhoso, completamente alheio ao terremoto que acontecia diante dele.

— Filho! Finalmente. Estela, este é meu filho, Pedro Felipe. Chegou hoje de viagem.

Meu sangue gelou.

Pedro não apertou a mão do pai de imediato. Ele me olhava como se estivesse tentando entender se aquilo era real ou uma punição cósmica.

Então ele se aproximou.

Estendeu a mão para mim.

Mas o olhar não era de um futuro irmão.

Era o olhar do homem que tinha me beijado horas antes.

— Olá, Estela — disse ele, a voz baixa, controlada demais.

Meu corpo inteiro travou.

E então, num sussurro que só eu ouvi, ele completou:

— É bom finalmente te encontrar… Luna.

O chão não se abriu.

O mundo não acabou.

Mas eu soube, naquele instante, que a liberdade de uma única noite tinha acabado de me condenar para sempre.

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