O sol já tinha nascido quando entrei no táxi rumo à rodoviária.
A luz da manhã era cruel — clara demais, honesta demais — como se fizesse questão de expor cada vestígio da noite que eu tentava apagar.
Eu vestia Estela outra vez.
Casaco fechado. Cabelo preso. Postura ereta.
Mas a pele sob o tecido ainda ardia com a memória de Pedro Felipe.
O cheiro dele parecia impregnado em mim, uma prova silenciosa e incriminadora de que Luna tinha existido.
Tentei enterrá-la durante toda a viagem.
Fracassei.
Cada curva da estrada trazia o rosto dele. O toque. O sorriso torto. O jeito como tinha dito meu nome — o nome errado — como se fosse a coisa mais certa do mundo.
Aquilo tinha sido um erro. Um erro monumental.
E eu era boa em corrigir erros.
Quando cheguei, minha mãe e Marcus já me esperavam.
O abraço dela foi apertado, cheio de saudade e expectativas.
— Estela, querida! Você conseguiu!
Marcus veio logo atrás. Eu já o conhecia; tínhamos sido apresentados no ano anterior, numa visita rápida e educada. Ele era alto, imponente, tinha um sorriso fácil e olhos… estranhamente familiares. Ignorei a sensação.
— É um prazer revê-la, Estela — disse ele, gentil.
— O prazer é meu — respondi, apertando sua mão e vestindo meu melhor sorriso.
— Fico feliz que tenha chegado antes do almoço.
— Eu estou exausta — confessei. A voz era minha, mas o cansaço era de Luna. — A viagem foi longa. Se não for pedir demais, eu queria tomar um banho e descansar um pouco.
Minha mãe sorriu, compreensiva, e me levou até o quarto novo.
— É lindo, mãe. Obrigada.
— Descanse um pouco. O almoço vai ser em uma hora. — Ela fez uma pausa, animada. — O filho do Marcus chega hoje também. Veio direto do aeroporto pra cá.
Assenti, aliviada por ter aquele intervalo.
O banho foi demorado, quase ritualístico. Eu tentei lavar cada lembrança da noite anterior, cada toque, cada sensação proibida. Depois, deitei e deixei o sono me engolir.
Por um tempo, fui apenas Estela.
Quando acordei, a casa estava silenciosa, iluminada pela luz da tarde. Meu corpo estava melhor, mas o peso no peito permanecia.
Hora de voltar ao papel.
Desci as escadas com cuidado, recomposta, educada, impecável.
A mesa estava posta para quatro.
— Olha só quem resolveu aparecer — minha mãe brincou. — Sente-se, Estela.
Marcus sorriu.
— Sua mãe estava ansiosa. Falou muito de você.
— Espero não ter exagerado — ela riu.
— A faculdade correu bem? — Marcus perguntou. — Soube que você teve um semestre excelente.
— Foi intenso, mas consegui finalizar tudo bem.
— Ela tirou A em tudo! — minha mãe completou, orgulhosa. — Sempre foi focada assim.
Sorri. Aquela parte eu dominava. Estela era segura, previsível, fácil de sustentar.
Eu ia responder algo sobre a próxima etapa da faculdade quando ouvi a porta da frente se abrir.
— Cheguei! Desculpa o atraso, o voo foi um caos.
A voz.
Meu coração simplesmente… parou.
Eu conhecia aquela voz.
Lenta. Grave. Familiar demais.
Os passos se aproximaram. E então ele apareceu na sala de jantar.
Pedro Felipe.
O mesmo rosto que eu tinha memorizado horas antes. O mesmo sorriso que tinha me desarmado. O mesmo olhar que tinha conhecido minha pele na escuridão.
Agora ele usava outra roupa, outro contexto — mas era ele.
O sorriso dele congelou no mesmo instante em que nossos olhos se encontraram.
O silêncio ficou pesado.
Marcus se levantou, orgulhoso, completamente alheio ao terremoto que acontecia diante dele.
— Filho! Finalmente. Estela, este é meu filho, Pedro Felipe. Chegou hoje de viagem.
Meu sangue gelou.
Pedro não apertou a mão do pai de imediato. Ele me olhava como se estivesse tentando entender se aquilo era real ou uma punição cósmica.
Então ele se aproximou.
Estendeu a mão para mim.
Mas o olhar não era de um futuro irmão.
Era o olhar do homem que tinha me beijado horas antes.
— Olá, Estela — disse ele, a voz baixa, controlada demais.
Meu corpo inteiro travou.
E então, num sussurro que só eu ouvi, ele completou:
— É bom finalmente te encontrar… Luna.
O chão não se abriu.
O mundo não acabou.
Mas eu soube, naquele instante, que a liberdade de uma única noite tinha acabado de me condenar para sempre.