Mundo de ficçãoIniciar sessãoO dia seguinte amanheceu abafado, como se até o ar estivesse pesado demais para respirar.
Eu mal tinha dormido. Passei a noite inteira tramando planos de fuga que pareciam se desfazer assim que o sol ameaçava nascer. Agora, sentada no sofá da sala principal, torcia as mãos no colo, o coração batendo descompassado, como se fosse explodir a qualquer momento. Elena, ao meu lado, tentou me oferecer um sorriso tranquilizador, mas o nervosismo era palpável até em sua respiração. A porta se abriu. — Elas chegaram — anunciou o mordomo, com uma reverência tensa. Tive que me obrigar a me levantar. O chão sob meus pés descalços parecia feito de espinhos . Forcei um olhar calmo, embora não quisesse estar ali. Meu corpo inteiro gritava para fugir. A primeira a entrar era uma mulher alta, de cabelos loiros impecavelmente presos, olhos duros como vidro quebrado. Vestia um conjunto de linho branco que exalava riqueza e frieza — uma presença impossível de ignorar. Atrás dela, vinha uma jovem da minha idade — ou talvez um pouco mais velha — com o mesmo olhar altivo, embora escondesse um sorriso forçado nos lábios pintados de vermelho. Eu tentei manter a postura, mas cada músculo do meu corpo protestava. Eu não queria estar ali. Cada gesto, cada olhar delas, parecia pesar sobre mim, lembrando que minhas escolhas já estavam tomadas e que meu destino não me pertencia mais. — Senhora Valenti, senhorita Valenti — cumprimentou meu pai, surgindo do fundo da sala, a voz carregada de respeito forçado. — Sejam bem-vindas. Mantive a cabeça erguida, embora cada músculo do meu corpo implorasse para fugir, para correr para qualquer lugar longe dali. — Esta é minha filha, Isabella — disse ele, empurrando-me para frente como se eu fosse uma peça de porcelana sendo avaliada. A senhora Valenti me examinou de cima a baixo, como quem avalia um cavalo em um leilão. — Hm — murmurou, sem esconder o julgamento. — É bonita o suficiente. Mordi a língua para não retrucar. A jovem ao lado dela esboçou um sorriso forçado de lado. — Ela é linda — comentou a jovem. — Meu irmão vai gostar. — Eu não sou uma mercadoria para ser avaliada — deixei escapar, incapaz de segurar a língua. O olhar do meu pai veio como um golpe silencioso, duro, me ordenando que me calasse. Naquele momento, foi exatamente assim que me senti: uma mercadoria sendo analisada. Cada segundo ali embrulhava meu estômago, fazia minha pele arder de vergonha e revolta. — Ou vai querer quebrá-la — respondeu a senhora Valenti, fria como gelo. Senti a mão de Elena apertar a minha discretamente, tentando me manter no lugar. Mas meu corpo inteiro queria se mover, fugir, desaparecer daquele ambiente sufocante. — Espero que você saiba qual é o seu papel, Isabella — continuou a senhora Valenti, sem rodeios. — Meu filho é um homem muito ocupado. Ele não tolera escândalos, nem desobediência. O peso das palavras dela caiu sobre mim como uma sentença definitiva. Cada olhar, cada gesto, cada sílaba me lembrava que, ali, eu não tinha escolhas. Que cada passo era vigiado. Que minha liberdade estava prestes a ser arrancada… e que o meu futuro já tinha dono. Ergui o queixo, sentindo o sangue ferver nas veias. — Talvez ele tenha que aprender a tolerar — disse, a voz baixa, mas cortante. O silêncio que se seguiu foi brutal. Meu pai tossiu nervosamente, lançando-me um olhar de advertência pela segunda vez, mas eu não recuei. A senhora Valenti sorriu — um sorriso gélido e cruel. — Você é valente. Isso pode ser… interessante. Ou desastroso. Ela se virou para a filha . — Vamos, não temos tempo a perder. O vestido precisa ser ajustado, e os documentos do dote devem ser revisados. Antes de sair, a jovem Valenti lançou-me um último olhar curioso — como se estivesse apostando quanto tempo aquela rebeldia duraria nas mãos do irmão. Quando a porta se fechou atrás delas, soltei um ar que nem sabia que estava prendendo. Elena me abraçou. — Você foi corajosa… — sussurrou. Mas eu não me sentia corajosa. Sentia-me presa. Como um pássaro batendo desesperadamente contra as grades de uma gaiola. E eu sabia, no fundo, que o pior ainda estava por vir. O vestido de noiva já pendia de um cabide dourado no canto do quarto, como uma sentença. Eu o observava de longe, como se fosse um predador prestes a me atacar. Bateram à porta. Antes que eu pudesse responder, meu pai entrou. Trazia no rosto aquela expressão grave que eu aprendera a temer desde pequena. Ele fechou a porta atrás de si com um clique seco. — Sente-se — ordenou, apontando para a poltrona. Obedeci, mas mantive a cabeça erguida, o olhar desafiador. Ele caminhou lentamente até mim, as mãos cruzadas nas costas, cada passo pesado como um aviso silencioso. — Faltam poucos dias para o seu casamento — começou ele, a voz fria, controlada. — E você vai se comportar como uma Moretti. Não como essa garota rebelde e respondona que insiste em envergonhar nossa família. Cerrei os punhos no colo. — Eu não pedi por esse casamento — murmurei, a voz quase um sussurro. Meu pai inclinou-se para frente, o rosto tão próximo que pude sentir o hálito dele. — Não interessa o que você quer. Interessa o que a família precisa. E a nossa sobrevivência depende dessa aliança. Ele se endireitou, ajeitando o paletó com um gesto calculado, como se cada movimento fosse medido para me lembrar do controle que tinha sobre mim. — Alessandro Valenti é um homem poderoso. Um homem que pode fazer ou destruir a vida de quem ousar desrespeitá-lo. — Então que ele destrua a minha vida é isso? — disparei, antes que pudesse me conter. O tapa veio rápido e preciso. Não forte o suficiente para me derrubar, mas o suficiente para que o mundo tremesse diante dos meus olhos. Levei a mão à bochecha, a pele ardendo, mas não deixei uma lágrima escapar. — Você vai entrar naquela igreja sorrindo — rosnou meu pai. — Vai obedecer ao seu marido. Vai ser uma esposa digna do nome que carrega. — Eu não sou propriedade de ninguém — respondi, a voz firme apesar da dor. Ele me olhou com desprezo. — Você é minha filha. E enquanto viver sob este teto, sob este nome, fará o que eu mandar. Ou sofrerá as consequências. Meu pai se virou e caminhou até a porta. Antes de sair, lançou-me um último olhar. — Pense bem, Isabella. Se tentar se rebelar… se envergonhar esta família, não haverá lugar no mundo onde possa se esconder de mim. A porta se fechou com um estalo seco. Fiquei imóvel na poltrona, o rosto em fogo, o peito explodindo de raiva e medo. Por alguns minutos, só o som do meu próprio coração ecoava pelo quarto. Então, lentamente, me levantei. Fui até o vestido de noiva. Passei os dedos pela renda fria como gelo. Se aquele era o destino que tinham escolhido para mim, eu sabia: ou encontraria um jeito de destruí-lo… ou ele me destruiria primeiro. Depois de me arrumarem como se eu fosse uma boneca de vitrine, eu saí da casa. Do lado de fora, um carro preto já me aguardava, o motor ligado, silencioso e impaciente — como se soubesse que eu não queria estar ali. Ele me levaria até o local do ensaio de casamento. Ensaio. A palavra soava quase irônica. Na verdade, tudo aquilo tinha sido organizado para que eu e Alessandro nos conhecêssemos. Ou melhor… nos reencontrássemos. Quando nos vimos pela última vez, ainda éramos crianças. Tempo demais havia passado para que aquilo significasse alguma coisa. Eu já não era a mesma garota — e me recusava a acreditar que ele fosse o mesmo menino . Mas eu não seria submissa. Eu não seria a esposa perfeita. Não importava o que custasse. O salão estava repleto de flores brancas e douradas. O som suave de um piano de cauda preenchia o espaço, mas nada conseguia acalmar a tempestade que se formava dentro de mim. Eu estava em pé no centro da sala, o vestido de noiva pesando sobre meus ombros — mais como uma prisão do que como uma peça de vestuário. A renda brilhava sob as luzes suaves, mas eu mal conseguia respirar. Cada movimento parecia forçado, como se eu estivesse tentando me encaixar em algo que nunca foi feito para mim. Os olhos do meu pai estavam fixos em mim, atentos, vigilantes. O sorriso da minha mãe não trazia conforto — era uma ordem silenciosa. — O que está acontecendo, Isabella? — ela perguntou, com impaciência na voz. — Anda logo, você vai fazer a entrada perfeita. Sorria. Como ensaiamos. Forcei um sorriso que não chegou aos meus olhos. Meu coração estava longe dali. Meu olhar foi até a porta de entrada, imaginando a chegada de Alessandro. Curiosidade. Medo. Raiva. Tudo se misturava dentro de mim. Mas não era apenas ele que me aterrorizava. Era a ideia de me perder. De deixar de ser quem eu era. De ser reduzida a um objeto bonito, silencioso e obediente. — Lembre-se do seu papel — meu pai disse, quase em um sussurro, mas carregado de ameaça. — Você vai fazer essa família se orgulhar. Não faça nada para nos envergonhar. Engoli em seco. Porque, naquele momento, eu já sabia: aquele ensaio não era apenas um encontro. Era o primeiro passo da minha prisão. E se Alessandro achava que eu entraria naquela história de cabeça baixa… ele estava prestes a descobrir que não será tão fácil como ele imagina. Tentei ignorar o aperto no peito, mas era impossível. Ao som de uma leve batida, a porta se abriu. Uma figura imponente entrou na sala: Alessandro Moretti. Seus olhos se fixaram em mim de imediato, frios e afiados, como lâminas que perfuravam minha alma. Ele vestia um terno escuro, perfeitamente ajustado ao corpo, mas não era a elegância que assustava — era a presença esmagadora, quase predatória, que fazia o ar parecer mais pesado no instante em que ele cruzou a porta. Eu o observei por um momento, tentando não deixar transparecer o turbilhão que fervia dentro de mim. Nossos olhares se encontraram, e senti um frio percorrer minha espinha. Ele não sorriu. Não havia admiração, nem surpresa, nem sequer uma centelha de emoção. Apenas… observava. Como um caçador analisando a presa à sua frente. Meu pai fez um gesto cortês. — Alessandro, aqui está sua noiva, Isabella. Ergui o queixo, mais por instinto do que por qualquer outra coisa. Alessandro me olhou com uma frieza absoluta, e o peso daquele olhar me fez encolher por dentro. Mas não me deixaria abater. Não seria anulada por ele. Dei um passo à frente. O vestido arrastando levemente no piso de mármore, meus saltos ecoando no silêncio. Meus olhos nunca se desviaram dos dele. — Então… — ele começou, a voz baixa, firme, carregada de algo que não era apenas desdém, mas curiosidade — …você é a tal Isabella Moretti. Ergui o queixo, tentando que minha voz soasse firme. — Sim. E você é Alessandro Valenti — Um sussurro ácido, quase um desafio. Ele inclinou a cabeça levemente, avaliando-me, os olhos estreitando de forma que senti um arrepio percorrer minha espinha. O silêncio reinou entre nós enquanto meus pais observavam, tentando controlar a situação com sorrisos forçados. Eu podia sentir o peso da expectativa em cada olhar, em cada gesto, mas não iria me render. Nada — nem ele, nem aquela família — faria com que eu cedesse. Eu sabia exatamente o que esperavam de mim. Doçura. Submissão. Obediência. Mas eu não era feita disso. Me afastei um pouco, ainda mantendo os olhos presos aos dele. Não era apenas coragem — era instinto. Se eu desviasse o olhar, perderia algo que nem sabia nomear. — Então… como vai ser o nosso casamento? — perguntei, deixando a ironia escorrer de leve na voz. Alessandro não pareceu surpreso. Ele apenas me observou, em silêncio, como se estivesse decidindo se eu merecia uma resposta. O ar ficou pesado, denso, quase difícil de respirar. — Será simples — disse por fim. A voz baixa, firme, sem emoção. — Não se preocupe. Está tudo planejado. Minha mãe cuida disso. Senti a raiva subir devagar, queimando por dentro. Ainda assim, não me calei. — E a minha liberdade? — perguntei, a voz mais baixa, mas carregada de desafio. — Onde ela entra nisso? Você ao menos se perguntou se eu queria esse casamento? Se eu queria… você? O silêncio voltou. Mas agora era diferente. Mais perigoso. Alessandro inclinou levemente a cabeça, os olhos escurecendo. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios — não de diversão, mas de avaliação. Como se eu tivesse acabado de confirmar algo que ele já suspeitava. — Que liberdade, Isabella? — respondeu, calmo demais. — A partir do momento em que esse casamento acontece… você é minha. As palavras não foram ditas em tom alto. Não precisaram. Elas caíram sobre mim como uma sentença. E, ainda assim, eu não desviei o olhar.






