Plano de fulga

— O que você pretende fazer, Isabela? — Elena pergunta, me fazendo olhar para ela.

— Eu ainda não sei... Mas eu não vou me casar com aquele homem — falo, sentando-me na cama.

— Eu vi vocês dois conversando. Vocês formam um lindo casal. Ele é muito lindo, Isabela! Seria um sonho me casar com um homem como aquele.

Será que um dia isso vai acontecer comigo? — ela diz, se jogando na cama e olhando para o teto.

— Eu espero que isso nunca aconteça, apesar de eu ter meio que te oferecido para se casar com ele no meu lugar — falo. Então ela olha para mim.

— Você está falando sério? O que ele falou para você? Ele aceitou? — Elena pergunta, com uma empolgação que não me agrada.

— Foi um erro o que eu fiz. Eu falei que você era até mais bonita do que eu, que ele podia se casar com você no meu lugar, que você era diferente de mim, obediente, submissa e que seria a esposa perfeita para ele. Mas eu não deveria ter falado aquilo. Eu não quero que você tenha um destino desse. Você ainda é uma menina — falo, olhando para ela.

Minha irmã é tão tola… Será que ela acha que se casar é tudo nessa vida? Será que não consegue olhar para os nossos pais e ver que esse casamento pode ser uma prisão?

— O que ele falou? — pergunta Elena, virando-se para mim com curiosidade. — Apesar de não ser verdade… você é muito mais bonita do que eu.

Sempre chama mais atenção, tem um corpo mais desenvolvido… e eu ainda não tenho nada disso.

— Não diga isso, você é uma menina linda, só está se formando ainda — falo.

— Não é verdade, Isabela… você sempre chama mais atenção do que eu. — Ela suspira, desviando o olhar. — Mas enfim… me fala, o que foi que ele disse?

— Você acredita que ele só quer casar comigo para me domar? Ele disse que seria um prazer me fazer submissa a ele — respondo, furiosa.

— Sério que ele falou isso? Que sonho… — Elena diz, me fazendo revirar os olhos.

— Você é tão boba, Elena — falo, sem paciência.

— Eu não tenho culpa se você não quer se casar com um homem daquele — ela responde.

— Então casa você com ele! — retruco.

— Se ele quisesse se casar comigo, eu casaria — ela fala, ficando triste.

— Não fica assim, Elena. Você ainda é muito nova, não precisa pensar em casamento agora — falo, tentando animá-la.

— Eu só não queria ficar nessa casa sozinha, sem você, Isabela… — ela diz, a voz carregada de tristeza.

Vou até a sua cama e a abraço.

— Eu vou dar um jeito de fugir… e vou levar você comigo — sussurro, deitando-me ao lado dela.

— Você tá doida, Isabela. Você não pode fugir! Se fizer isso, o papai vai te matar — ela diz. Eu a abraço mais forte.

— Shhh… não pensa nisso. Eu vou dar um jeito — digo, já começando a planejar o que aind fazer.

— Elena, se eu fugir… você vem comigo? — pergunto, encarando-a, com algo já decidido em minha mente.

Me afasto da cama para tentar organizar os pensamentos. Se eu quiser, consigo fugir dessa casa sem o papai saber.

Ela me olha assustada, como se não soubesse se estou brincando ou falando sério. Seus olhos vacilam, cheios de dúvida… mas também de esperança.

— Eu…? — ela hesita. — Isabela, eu… eu não sei. E se der errado? E se a gente for pega?

— Mas e se der certo? — insisto, me aproximando.

— A gente pode recomeçar em outro lugar. Longe do papai, longe desse casamento. Longe de tudo isso. Você poderia estudar, ser livre, sonhar… sem medo.

Ela baixa os olhos, apertando as mãos no colo. Fica em silêncio por um instante.

— Eu tenho medo, Isabela. Medo do que pode acontecer. Mas mais medo ainda de ficar aqui… sozinha, vendo você ir embora e me deixando pra trás — ela diz, com a voz embargada.

Me ajoelho diante dela e pego suas mãos.

— Então vem comigo. Eu não vou deixar nada acontecer com você, prometo. Mas eu preciso saber agora, porque se eu for… não tem volta. E eu quero você ao meu lado.

Elena respira fundo. Depois me encara, e vejo a decisão se formando em seus olhos.

— Eu vou com você.

Meu coração acelera. O plano ainda é só uma ideia, mas agora tem uma chance real.

O silêncio paira por alguns segundos, quebrado apenas pelo som distante dos passos do papai no andar de baixo. Eu sei que ele nunca aceitaria uma fuga. Sei também que, se eu falhar, não vai haver perdão.

— Isabela… e se a mamãe descobrir? — Elena sussurra, agarrada ao meu braço.

— Ela não vai descobrir. E mesmo que descubra… não vai me impedir. Acho que, no fundo, ela também queria fugir antes de casar — respondo, com a voz firme, mas baixa.

Elena não diz nada. Só me olha, com aqueles olhos grandes, cheios de medo e admiração. Ela acredita em mim, mesmo sem entender direito o que está em jogo.

— E se o papai fizer algo com a mamãe, achando que ela nos ajudou? — Elena pergunta, me fazendo ficar pensativa.

Minha respiração prende por um momento. Eu não tinha pensado nisso… Papai seria capaz de tudo para manter as aparências. Até mesmo machucar alguém da própria família.

— Podemos levar a mamãe conosco — falo, levantando-me da cama. Começo a andar pelo quarto, inquieta. A ideia parece loucura, mas cada segundo aqui também é uma prisão.

— Eu preciso de dinheiro… documentos… Talvez falar com a tia Rosa. Ela sempre disse que, se eu precisasse de ajuda, era só procurá-la. Talvez ela ainda mantenha contato com aquele pessoal de Milão…

— Você vai mesmo fugir? — Elena pergunta, sentando-se na cama. Pela expressão dela, acho que está achando que estou brincando. Mas eu nunca falei tão sério na minha vida.

— Não tenho escolha. E você e a mamãe vêm comigo, lembra? — digo, olhando para ela com um meio sorriso.

— E se a mamãe não aceitar? — ela pergunta, com a voz baixa.

— Eu não sei o que vou fazer… — respondo, parando de andar. Olho para a janela, onde a noite já caiu lá fora. — Mas não posso continuar aqui esperando que ele decida quem eu devo ser.

Elena me observa em silêncio. O quarto parece pequeno demais para todos os pensamentos que invadem minha mente. Eu sei que não tenho muito tempo: o casamento é daqui a uma semana, no mesmo dia em que vou completar dezoito anos.

— E se ele vier atrás de você, Isabela? O Alessandro não parece o tipo de homem que aceita um “não” como resposta…

— Pois então ele vai descobrir o que acontece quando alguém força uma mulher a viver uma vida que ela não escolheu — respondo, com os olhos fixos na janela.

Do lado de fora, a noite já cobre tudo com seu manto escuro. Mas, para mim, a escuridão não assusta. Ela é liberdade. É nela que meu plano começa.

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