Sem escolha

Entrei no quarto e tranquei a porta com um clique seco, definitivo. Encostei as costas nela por alguns segundos, o peito subindo e descendo rápido demais, como se o ar não fosse suficiente. O silêncio me envolveu — não como conforto, mas como uma trégua frágil antes da próxima explosão.

A conversa com Alessandro ecoava na minha mente, repetitiva, sufocante. Ela não só confirmou meu maior medo… escancarou tudo.

Ele não era apenas o homem que tentariam enfiar à força na minha vida.

Ele era o símbolo de tudo o que eu desprezava. Controle disfarçado de proteção. Frieza travestida de dever. Arrogância sustentada pelo poder.

E o pior de tudo: ele realmente acreditava que conseguiria me dobrar.

Caminhei até o espelho e arranquei os brincos com raiva, jogando-os sobre a penteadeira. O som metálico pareceu alto demais naquele quarto abafado. Encarei meu reflexo, os olhos ardendo, a maquiagem começando a borrar. Quem era aquela mulher?

A que sorriu durante o ensaio.

A que apertou mãos.

A que ouviu elogios como se aquilo fosse uma honra.

Uma estranha.

Uma farsa cuidadosamente construída.

Aquilo era uma máscara — e eu não pretendia usá-la por mais um segundo.

— Eu não vou me casar com ele — murmurei para o espelho.

Ouvir minha própria voz, firme apesar do tremor interno, foi libertador. Como se, pela primeira vez, eu puxasse um fio de controle no meio daquele caos sufocante. Uma decisão. Clara. Irrevogável.

Sentei-me na beira da cama, os dedos se fechando com força no tecido do vestido, amassando-o. Meu coração batia pesado no peito. Eu precisava de um plano. Precisava agir agora.

Se aquilo tinha sido apenas o ensaio… o casamento de verdade seria o meu fim.

Respirei fundo. Uma vez. Duas.

E me levantei com um impulso novo, perigoso, quase desesperado.

Ainda de vestido, com a maquiagem manchando o rosto, saí do quarto e segui pelo corredor em silêncio absoluto. Cada passo era um desafio, cada sombra parecia observar. Eu sabia exatamente onde encontraria minha mãe — no salão menor, aquele onde ela sempre se refugiava depois das grandes reuniões.

Quando empurrei a porta, o peso da cena quase me fez recuar.

Lá estava ela.

Sentada perto da janela, o corpo curvado como se carregasse décadas nos ombros, a cabeça apoiada na mão, os olhos perdidos em um ponto inexistente. O cansaço em seu rosto não era de hoje — era antigo, enraizado, daqueles que o tempo não apaga. Um cansaço que sempre esteve ali… e que eu passei a vida fingindo não ver.

— Mãe… — chamei, a voz falhando antes mesmo de alcançar meus lábios.

Ela se virou devagar, como se cada movimento exigisse esforço. Seus olhos estavam vermelhos, inchados, denunciando um choro contido, silencioso, prolongado. Não havia surpresa em seu olhar. Apenas dor. E aceitação.

Caminhei até ela e me ajoelhei ao seu lado, sem me importar com o vestido caro espalhado pelo chão. Naquele momento, riqueza, status, tudo parecia ridiculamente pequeno.

— Eu não posso fazer isso — sussurrei, sentindo a garganta queimar. — Eu não posso me casar com o Alessandro.

Ela fechou os olhos com força, como se minhas palavras fossem um golpe direto no peito, como se confirmassem um destino que ela sempre soube ser inevitável. Quando voltou a encará-me, vi algo que me dilacerou: dor misturada à resignação de quem aprendeu a sobreviver abrindo mão de si mesma.

— Isabela … — ela começou, a voz fraca, cansada.

Mas eu não consegui deixá-la continuar.

— Você sabe como é, mãe. Você sabe! — apertei sua mão com desespero, como se aquilo pudesse ancorá-la ao que eu estava dizendo. — Eu vejo nos seus olhos. Eu sempre vi.

Engoli em seco, sentindo as lágrimas escaparem.

— Você nunca foi feliz com o papai. Nunca. Você foi obrigada. Silenciada. Quebrada aos poucos.

Minha voz saiu em um fio, mas carregada de verdade.

— E agora estão tentando fazer o mesmo comigo.

Levantei o rosto, encarando-a sem medo.

— Eu não vou sobreviver a isso, mãe. Eu não vou virar você.

As palavras ficaram suspensas no ar, densas, sufocantes. Ela desviou o olhar, como se encará-las fosse perigoso demais. Mas eu não recuei.

— Por favor, mãe… — minha voz falhou, mas não quebrou. — Não deixe que façam isso comigo.

Respirei fundo, sentindo o peito apertar.

— Eu não quero acabar como você. Presa a uma vida que não escolheu. Sem amor. Sem liberdade. Apenas sobrevivendo.

Ela fechou os olhos por um instante, inspirando profundamente, como se lutasse contra uma maré interna prestes a transbordar. Quando voltou a me encarar, algo havia rachado. A máscara impecável, rígida, que ela usava há anos… tinha uma fissura.

— Eu tentei lutar, Isabela — sussurrou, a voz frágil, quase infantil. — Mas eu era jovem. Assustada. E estava completamente sozinha.

Meu coração disparou.

— Você é diferente… — continuou, engolindo em seco. — Você é forte. Corajosa. Muito mais do que eu jamais fui.

Uma faísca de esperança acendeu dentro de mim, quente, urgente.

— Então me ajuda. — segurei sua mão com firmeza. — Me ajuda a sair disso. Você sabe que essa vida não é pra mim. Nunca foi.

Ela levou a mão ao meu rosto, os dedos trêmulos, como se tocasse algo proibido. O carinho era delicado, quase doloroso.

— Se eu ajudar você… — murmurou — eles nunca vão me perdoar.

— Eu também sou sua filha. — minha voz saiu firme, decidida. — Escolhe a mim, mãe. Só dessa vez.

Ficamos nos encarando. Longos segundos. Vi a guerra silenciosa dentro dela: dever contra amor, medo contra culpa, passado contra futuro.

E então… algo mudou.

Uma chama pequena, mas real, brilhou em seus olhos.

— Eu vou pensar — disse, quase num sopro. — Mas você precisa ser paciente. Fria. Inteligente.

Ela apertou minha mão com força.

— Eles estão sempre observando.

Assenti devagar.

Não era uma promessa… mas era o mais perto de esperança que eu tinha sentido em anos. Pela primeira vez, eu já não me sentia completamente sozinha.

O que eu não sabia — ou talvez não quisesse saber — era que a porta entreaberta revelava mais do que imaginávamos.

Meu pai estava ali.

Escondido nas sombras do corredor, imóvel como um predador à espreita, ouvindo cada palavra. Seu rosto era uma máscara de pedra: frio, rígido, tomado por uma raiva silenciosa que sempre antecedia o pior.

— Então é isso? — a voz cortou o ar como uma lâmina. — Vai envergonhar essa família por causa da sua filha? Vai permitir que ela fuja do casamento?

Minha mãe se virou de imediato. O susto foi evidente, mas algo nela havia mudado. Ela não recuou. Não abaixou os olhos.

— Eu só queria entender o que ela sente…

— Entender? — ele cuspiu a palavra, avançando um passo. — O que tem pra entender?

Apontou para mim, o dedo tremendo de ódio.

— Essa menina vai se casar. E ponto final.

O silêncio pesou.

— E se ela fugir… se ousar fazer qualquer coisa contra esse acordo — ele se aproximou da minha mãe, a voz baixa, venenosa — eu juro que mato você. Porque a vergonha será sua.

Meu sangue ferveu.

— Você não pode me obrigar a casar com aquele homem! — explodi, finalmente chamando sua atenção. — A vida é minha! Sou eu que tenho que escolher isso!

Ele se virou devagar para mim. O olhar era cruel. Conhecido demais.

Eu sabia.

Se aquilo continuasse, o pior cairia sobre a minha mãe.

E isso… eu não ia permitir.

Meu pai nunca foi um homem de família.

Nunca foi um pai.

Nunca foi um marido.

Ele só era leal aos negócios. Ao poder. À imagem.

Quantas vezes já me bateu por ousar falar?

Quantas vezes quebrou minha mãe com palavras e mãos?

Quantas vezes o silêncio foi a única forma de sobrevivência?

Não mais.

— Cala a sua boca e saia daqui, Isabela — ele rosnou, avançando um passo. — Antes que sobre pra você também.

— Ela quer liberdade, Leonardo! Quer viver! — minha mãe se impôs, a voz firme apesar do tremor. — Você me obrigou a uma vida que eu nunca escolhi. Não faça isso com ela!

Meu pai virou-se devagar, o rosto tomado por uma fúria quase doentia, como se aquelas palavras fossem uma afronta imperdoável.

— Saia daqui agora, Isabela — ele rosnou, olhando para mim como se eu fosse um erro que precisava ser apagado.

— Eu não vou sair! — rebati, sentindo o coração disparar. — Eu não vou deixar a minha mãe aqui sozinha com você!

Por um segundo, vi o corpo dele tensionar. O passo à frente. O gesto conhecido.

Ele vinha para cima de mim.

Minha mãe foi mais rápida. Segurou-o pelo braço com força, como se estivesse segurando um monstro prestes a se soltar.

— Saia daqui, querida. — ela disse, voltando-se para mim.

Seu olhar não era de ordem. Era de súplica.

Um por favor silencioso, desesperado, implorando que eu fosse embora antes que fosse tarde demais.

Tudo em mim gritava para ficar.

Mas eu sabia… se eu continuasse ali, só pioraria.

Com o peito apertado, dei um passo para trás. Depois outro. E saí.

Ao abrir a porta, dei de cara com Elena parada no corredor, pálida, claramente bisbilhotando tudo.

— O que aconteceu? — ela sussurrou. — O papai está furioso!

Fechei a porta com cuidado, deixando apenas uma fresta, pequena o suficiente para não chamar atenção… grande o bastante para ouvirmos tudo.

— Fica quieta. — murmurei, puxando-a para perto. — Vamos ouvir.

— Nossa filha é jovem, Leonardo. — a voz da minha mãe saiu firme, apesar do medo. — Ela só quer estudar. Quer fazer suas próprias escolhas.

Meus olhos se encheram de lágrimas no mesmo instante.

Mesmo com ele furioso, perigoso… ela ainda me defendia.

Ela não devia.

Devia ter ficado em silêncio.

Porque eu sabia exatamente como isso terminaria.

— Cale a boca! — ele gritou.

O som veio logo em seguida.

Seco.

Estalado.

Cruel.

Meu coração despencou.

As lágrimas transbordaram sem controle. Dei um passo à frente, o impulso desesperado de entrar na sala me dominando, mas Elena me segurou com força.

— Ele bateu na mamãe por minha causa, Elena! — sussurrei entre soluços. — Eu preciso entrar lá… eu preciso fazer alguma coisa!

— Shhh! — ela me puxou para perto, me abraçando forte. — Fica quieta. Se ele perceber você aqui, vai sobrar pra você também.

Do outro lado da porta, a voz dele voltou, carregada de ódio.

— A culpa é sua dessas meninas serem assim! — ele berrou. — Você não soube criar elas!

Meu estômago revirou.

Então ouvimos os passos. Pesados.

Aproximando-se da porta.

O pânico nos tomou.

Sem pensar, corremos pelo corredor, o coração disparado, o medo nos empurrando escada acima. Só paramos quando entramos no nosso quarto e fechamos a porta, ofegantes, como se aquilo pudesse nos proteger.

Eu desabei.

— Ele bateu na mamãe por minha causa… — repeti, chorando, tomada por uma mistura sufocante de culpa e raiva.

Elena suspirou, cansada, como se aquela cena fosse apenas mais uma.

— Você e a mamãe sabem como ele é. — disse, em tom baixo. — Não deviam ter enfrentado ele.

Levantei o rosto de imediato, indignada, o peito queimando.

— Eu não acredito que estou ouvindo isso, Elena! — gritei, a voz rasgando a garganta. — Como você consegue falar assim? Como consegue ficar do lado daquele monstro?

Apontei para a porta, como se ele ainda estivesse ali.

— Olha o que ele faz com a nossa mãe! Olha o que ele está fazendo comigo!

Elena respirou fundo, desviando o olhar por um instante antes de me encarar de novo. Havia cansaço ali. Não raiva. Cansaço de quem desistiu há muito tempo.

— Eu não estou do lado dele, Isabela . — disse, num tom baixo, quase cansado demais para discutir. — A questão é aceitar. Nosso pai é assim. Ele nunca vai mudar.

Fez uma pausa curta, dolorosa.

— E esse casamento… você já sabia dele há muito tempo. Era pra você estar preparada.

Senti algo se partir dentro de mim.

— Preparada pra quê? — minha voz saiu amarga. — Pra ser vendida? Pra viver presa? Pra apanhar em silêncio como a mamãe?

Ela não respondeu.

Dei um passo à frente, o olhar em chamas.

— Eu nunca vou aceitar isso, Elena Nunca. — declarei, cada palavra firme como uma promessa feita a mim mesma. — Eu não vou viver ajoelhada.

Não vou trocar minha vida pela imagem dessa família.

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