Capítulo 7 - O corpo sabe

Lívia tentava se convencer de que era só cansaço.

O tipo de exaustão que vem depois de muito barulho, muita gente, muita obrigação social acumulada num espaço pequeno demais para respirar. Nada além disso.

Era o que fazia sentido.

Mesmo assim, o aperto no peito não cedia.

Ela observava o homem à frente — agora falando ao microfone, postura impecável, voz firme, segura — e sentia algo estranho, quase deslocado, como se estivesse assistindo a uma cena que não lhe dizia respeito… e, ao mesmo tempo, dissesse respeito demais.

Era insistente como uma nota fora do tom que o ouvido reconhece mesmo sem saber explicar.

Lívia desviou o olhar.

O simples ato de encará-lo por mais de alguns segundos fazia sua respiração perder o ritmo. 

— Amiga… — murmurou, puxando levemente a manga de Ayla. — Você tá sentindo esse calor estranho?

Ayla congelou por uma fração de segundo.

Tempo suficiente para entender que Lívia não estava falando de temperatura.

— Deve ser o povo amontoado — respondeu rápido, calculando cada palavra. — Esses eventos sempre ficam abafados.

Lívia assentiu, embora não estivesse convencida.

O calor não vinha de fora.

Vinha de dentro.

Era um espalhar lento, começando no centro do peito e se irradiando como ondas suaves — não agradáveis, mas também não exatamente ruins. Apenas… presentes.

Ela respirou fundo, tentando se ancorar em algo concreto. Contou cadeiras. Observou as bandeiras ao fundo. Fixou-se no som da voz masculina ecoando pelo campo.

Nada ajudava.

Do outro lado, Alef falava.

As palavras saíam no ritmo certo, treinado, seguro. Ele cumpria o papel que esperavam dele — líder humano, CEO exemplar, figura inspiradora.

Mas por dentro, tudo estava errado.

O cheiro ainda estava ali.

Mais contido agora. Mais distante.

E, ainda assim, impossível de ignorar.

Cada respiração puxava aquele rastro invisível mais fundo para dentro de si, misturando-se ao sangue, provocando o lobo a se mover sob a pele com um desconforto crescente.

Não era urgência de posse.

Era reconhecimento.

E isso o aterrorizava.

Alef sabia o que aconteceria se perdesse o controle de novo. Sabia o quanto Ayla estava se esforçando para manter tudo em equilíbrio. Sabia que aquela mulher — a humana de cabelos ruivos, postura tensa meio perdida — era o centro de algo que não deveria estar acontecendo ali.

Não agora.

Não daquele jeito.

Ele concluiu o discurso sob aplausos, inclinou levemente a cabeça em agradecimento e desceu do púlpito com passos firmes, cada movimento calculado para não parecer o que realmente sentia.

Deslocamento.

Chamado.

Uma força sutil puxando-o para a lateral do evento.

Ayla, seguiu o impulso.

— Vamos dar uma volta — disse ela, em tom casual, puxando Lívia pelo braço antes que a amiga pudesse protestar. — Se ficarmos aqui mais cinco minutos, eu vou derreter.

Lívia riu fraco.

— Achei que só eu estivesse me sentindo assim.

As duas começaram a se afastar da área central, buscando um espaço menos cheio, menos iluminado, onde o som das conversas se diluía no fundo.

Foi nesse instante que Lívia sentiu.

Não o toque.

A proximidade.

Algo atravessou seu corpo como um arrepio tardio, um alerta sem forma, fazendo-a parar no meio do passo.

O ar parecia mais denso.

O coração acelerou sem motivo claro.

Ela virou o rosto.

E encontrou o olhar dele.

Não foi intenso.

Não foi ameaçador.

Foi firme.

Atento.

Como se ele também estivesse tentando entender por que aquele encontro — tão breve, tão comum à primeira vista — parecia carregar um peso que nenhum dos dois sabia nomear.

Lívia engoliu em seco.

A voz interna, que costumava comentar tudo com ironia ou consolo, permaneceu muda.

Nenhum aviso.

Nenhuma piada.

Nenhuma orientação.

Só silêncio.

E, pela primeira vez, isso a assustou mais do que qualquer pensamento.

Lívia desviou o olhar primeiro.

Não por fraqueza.

Mas por escolha.

Porque havia aprendido, ao longo dos anos, que algumas coisas, quando encaradas cedo demais, não podem mais ser desfeitas.

Soltou o ar devagar, sem perceber que estava o prendendo.

— Ayla… — murmurou. — Acho que eu preciso ir embora.

A amiga assentiu na mesma hora.

— Eu sei.

Sem perguntas.

Sem insistência.

Ayla segurou sua mão com firmeza, conduzindo-a para longe dali.

Atrás delas, Alef observou.

Imóvel.

Desorientado.

Sabendo, com uma clareza desconfortável, que aquele não havia sido um encontro qualquer.

Não porque algo tivesse começado.

Mas porque algo — irrevogavelmente — já havia sido marcado.

E o corpo dela…

…já sabia.

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