Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia tentava se convencer de que era só cansaço.
O tipo de exaustão que vem depois de muito barulho, muita gente, muita obrigação social acumulada num espaço pequeno demais para respirar. Nada além disso.
Era o que fazia sentido.
Mesmo assim, o aperto no peito não cedia.
Ela observava o homem à frente — agora falando ao microfone, postura impecável, voz firme, segura — e sentia algo estranho, quase deslocado, como se estivesse assistindo a uma cena que não lhe dizia respeito… e, ao mesmo tempo, dissesse respeito demais.
Era insistente como uma nota fora do tom que o ouvido reconhece mesmo sem saber explicar.
Lívia desviou o olhar.
O simples ato de encará-lo por mais de alguns segundos fazia sua respiração perder o ritmo.
— Amiga… — murmurou, puxando levemente a manga de Ayla. — Você tá sentindo esse calor estranho?
Ayla congelou por uma fração de segundo.
Tempo suficiente para entender que Lívia não estava falando de temperatura.
— Deve ser o povo amontoado — respondeu rápido, calculando cada palavra. — Esses eventos sempre ficam abafados.
Lívia assentiu, embora não estivesse convencida.
O calor não vinha de fora.
Vinha de dentro.Era um espalhar lento, começando no centro do peito e se irradiando como ondas suaves — não agradáveis, mas também não exatamente ruins. Apenas… presentes.
Ela respirou fundo, tentando se ancorar em algo concreto. Contou cadeiras. Observou as bandeiras ao fundo. Fixou-se no som da voz masculina ecoando pelo campo.
Nada ajudava.
Do outro lado, Alef falava.
As palavras saíam no ritmo certo, treinado, seguro. Ele cumpria o papel que esperavam dele — líder humano, CEO exemplar, figura inspiradora.
Mas por dentro, tudo estava errado.
O cheiro ainda estava ali.
Mais contido agora. Mais distante.
E, ainda assim, impossível de ignorar.Cada respiração puxava aquele rastro invisível mais fundo para dentro de si, misturando-se ao sangue, provocando o lobo a se mover sob a pele com um desconforto crescente.
Não era urgência de posse.
Era reconhecimento.
E isso o aterrorizava.
Alef sabia o que aconteceria se perdesse o controle de novo. Sabia o quanto Ayla estava se esforçando para manter tudo em equilíbrio. Sabia que aquela mulher — a humana de cabelos ruivos, postura tensa meio perdida — era o centro de algo que não deveria estar acontecendo ali.
Não agora.
Não daquele jeito.Ele concluiu o discurso sob aplausos, inclinou levemente a cabeça em agradecimento e desceu do púlpito com passos firmes, cada movimento calculado para não parecer o que realmente sentia.
Deslocamento.
Chamado.Uma força sutil puxando-o para a lateral do evento.
Ayla, seguiu o impulso.
— Vamos dar uma volta — disse ela, em tom casual, puxando Lívia pelo braço antes que a amiga pudesse protestar. — Se ficarmos aqui mais cinco minutos, eu vou derreter.
Lívia riu fraco.
— Achei que só eu estivesse me sentindo assim.
As duas começaram a se afastar da área central, buscando um espaço menos cheio, menos iluminado, onde o som das conversas se diluía no fundo.
Foi nesse instante que Lívia sentiu.
Não o toque.
A proximidade.
Algo atravessou seu corpo como um arrepio tardio, um alerta sem forma, fazendo-a parar no meio do passo.
O ar parecia mais denso.
O coração acelerou sem motivo claro.Ela virou o rosto.
E encontrou o olhar dele.
Não foi intenso.
Não foi ameaçador.Foi firme.
Atento.Como se ele também estivesse tentando entender por que aquele encontro — tão breve, tão comum à primeira vista — parecia carregar um peso que nenhum dos dois sabia nomear.
Lívia engoliu em seco.
A voz interna, que costumava comentar tudo com ironia ou consolo, permaneceu muda.
Nenhum aviso.
Nenhuma piada. Nenhuma orientação.Só silêncio.
E, pela primeira vez, isso a assustou mais do que qualquer pensamento.
Lívia desviou o olhar primeiro.
Não por fraqueza.
Mas por escolha.Porque havia aprendido, ao longo dos anos, que algumas coisas, quando encaradas cedo demais, não podem mais ser desfeitas.
Soltou o ar devagar, sem perceber que estava o prendendo.
— Ayla… — murmurou. — Acho que eu preciso ir embora.
A amiga assentiu na mesma hora.
— Eu sei.
Sem perguntas.
Sem insistência.Ayla segurou sua mão com firmeza, conduzindo-a para longe dali.
Atrás delas, Alef observou.
Imóvel.
Desorientado.Sabendo, com uma clareza desconfortável, que aquele não havia sido um encontro qualquer.
Não porque algo tivesse começado.
Mas porque algo — irrevogavelmente — já havia sido marcado.
E o corpo dela…
…já sabia.







