Mundo de ficçãoIniciar sessãoAyla possuía sentidos que iam além da visão e da audição comuns — muito além dos humanos. Eram herança direta do instinto ancestral que corria em seu sangue de loba, sentidos que se tornaram mais aguçados quando, aos dezesseis anos, despertou.
Naquele dia, não despertou apenas como loba.
Despertou como Minji.
Desde então, aprendera que algumas existências não escolhem seu papel. Apenas o assumem. As profecias falavam da Luna estrangeira — aquela que surgiria fora de sua terra, carregando em si a possibilidade de romper um destino cruel. E diziam, também, que uma Minji surgiria para encontrá-la.
Não por acaso.
Não por escolha. Mas por chamado.Quando seus caminhos se cruzassem, o laço seria irrevogável. Não de sangue, mas de alma. Seladas como irmãs por algo maior do que ambas.
Onde a Luna caminhasse, a Minji estaria ao seu lado.
Onde a Luna vacilasse, a Minji se ergueria.Não como sombra.
Mas como escudo.
A Minji sentia primeiro. Sempre. A dor chegaria antes em seu corpo, o medo ecoaria antes em seu peito, o perigo a atravessaria antes mesmo de tocar aquela que deveria guardar. Se o destino exigisse, seria a primeira a sangrar — e a última a cair.
Ayla ergueu o olhar para o céu pálido e avistou o ponto escuro rompendo o horizonte. Inspirou profundamente, e o cheiro veio: metálico, frio, artificial.
Um helicóptero.
A loba sob sua pele se eriçou, inquieta. Ayla respirou fundo, contendo o impulso. Sabia que aquela aproximação tinha o poder de mudar tudo.
Não acreditava que Alef lhe faria mal. Ele sempre protegeria a matilha acima de qualquer coisa. Ainda assim, havia nele algo que todos temiam quando a frustração se acumulava.
A fúria de um alfa frustrado não era apenas raiva.
Era força bruta.
Destruição sem freio.Aquilo não seria apenas o fracasso de uma busca.
Poderia ser o estopim de uma guerra.
Alef já havia passado por aquela seleção vezes demais. Na maioria delas, aceitou o fracasso com austeridade. Mas havia limites. O episódio da França era prova disso.
Uma Minji jurou ter encontrado a Luna, e sinais interpretados às pressas inflaram esperanças que Alef jamais imaginara. Em poucas semanas, seu nome deixou de ser apenas o de um alfa e passou a circular como promessa, como salvação, como espetáculo.
Entrevistas foram concedidas sem seu consentimento.
Narrativas fabricadas ganharam força. Fotos montadas se espalharam sem controle.Alef foi seguido.
Observado. Cercado.Não como líder — mas como produto.
O que ninguém via era o preço. O pouco anonimato que lhe restava sendo arrancado, a pressão constante, a expectativa de um clã inteiro comprimindo o peito.
E, quando a seleção foi validada e o encontro finalmente aconteceu, o fracasso não foi apenas íntimo.
Foi público.
Humilhante.A frustração que se seguiu foi pior do que qualquer ataque físico. Ao liberar sua aura de alfa, a atmosfera tornou-se pesada, opressiva. O chão tremeu. Corpos cederam.
A Minji caiu primeiro. O peso esmagando o peito, roubando o ar. Ela desabou à beira do colapso.
Por um instante, todos acreditaram que ela não se levantaria novamente. O silêncio tornou-se absoluto, carregado do medo cru de que aquela fúria tivesse ido longe demais.
Mas Alef recolheu sua presença a tempo.
Ayla nunca teve muita afeição por Minji Samira. Sempre a considerou arrogante e cruel com lobos menores. Ainda assim, havia alívio de que o pior não tivesse acontecido.
Ayla não queria — e não podia — errar.
Não queria frustrar seu alfa. Nem a matilha. Muito menos ser enviada para mais uma busca incerta em outro lugar do mundo.
Por meses, revisou sinais, intuições, ensinamentos. Quando decidiu agir, notificou as anciãs em sigilo. Precisava ter certeza.
E tinha.
Não vinha do protocolo.
Vinha do coração.
Ayla amava Lívia como uma irmã de alma. Era ao olhar para ela que sentia — com uma certeza silenciosa — que a busca havia terminado.
Agora, observava a amiga aplaudir com um sorriso forçado. Os olhos de Lívia estavam fixos no helicóptero que se aproximava.
Os sons das hélices ecoavam no peito de Ayla, acelerando-lhe o coração. Tentou disfarçar o nervosismo.
Estava ansiosa pela chegada de seu alfa.
Mas ansiava ainda mais pela possibilidade de que Lívia encontrasse, enfim, a felicidade que merecia.
— Tá tudo bem, amiga? — Lívia perguntou.
— Claro — Ayla respondeu rápido demais. — Isso já vai acabar.
Lívia sorriu, erguendo as mãos para o céu.
— Que o universo colabore, irmã!
Para Lívia, era apenas o fim de um evento.
Para Ayla, era o fim de meses de angústia — e o primeiro fio de esperança para uma matilha à beira do colapso.
Mas esperança nunca vinha sem custo.







