Capítulo 2 - Cedo ou tarde

Lívia sentiu antes de entender.

Não foi um pensamento.

Nem uma emoção clara.

Foi o corpo.

Ela mudou o peso de um pé para o outro, ajeitando a bolsa no ombro.

— Isso aqui parece mais um show do que um evento da escola — murmurou.

Ayla, ao seu lado, sorriu de leve.

— Pelo menos não estamos trancadas num salão.

Lívia soltou um suspiro curto. Talvez. O vento ajudava um pouco. Refrescava a pele e dava a falsa sensação de que aquilo tudo era suportável.

Mas ainda sentia um aperto baixo no estômago, como quando algo importante está prestes a acontecer.

Ela franziu a testa, incomodada.

— Você tá sentindo isso? — perguntou a Ayla, sem saber exatamente o que estava perguntando.

Ayla endireitou a postura.

E isso, por si só, já era estranho.

— Sentindo o quê? — perguntou com curiosidade.

Lívia abriu a boca para responder… e fechou.

Como explicar algo que não tinha forma?

— Não sei — disse, sincera. — Parece que… ficou diferente.

Ayla desviou o olhar para o céu no mesmo instante e fez piada.

— Helicóptero?

Lívia acompanhou o movimento, protegendo os olhos do sol com a mão. Ainda não via nada além do céu claro.

— Ele não vai chegar de helicóptero… vai? — perguntou, incrédula.

Ayla demorou um pouco mais do que o normal para responder.

— Vai.

E então o som chegou.

Primeiro distante.

Depois mais claro.

Um ruído grave, ritmado, que não fazia parte da música nem da conversa das pessoas. As hélices cortavam o ar em círculos largos, constantes, criando uma vibração que atravessava o chão e subia pelos pés.

Lívia sentiu um arrepio subir pela nuca.

Algo dentro dela contraiu, como um músculo que se prepara antes do impacto. O coração acelerou sem aviso, e uma sensação estranha — quase elétrica — percorreu seus braços.

Ela levou a mão ao próprio peito, pressionando levemente, como se pudesse conter aquilo.

— Estranho… — murmurou.

— O quê? — Ayla perguntou, rápido demais.

— Não sei. — Lívia passou a mão pelo colo, tentando afastar a sensação. — Fiquei meio tonta do nada.

Ayla virou-se para ela com atenção total agora. Não sorriu.

— Você quer sentar?

— Não — respondeu de imediato. — Já passa.

— Ele chegou — disse Ayla, por fim.

Lívia piscou.

— Quem?

Ayla percebeu a desorientação da amiga. Com um sorriso rápido e irônico, disse, aliviando a tensão:

— O chefe. O “Caviar”. Não era hoje?

Era.

Lívia sabia disso.

Sabia que o evento inteiro girava em torno daquela chegada. Ainda assim, a palavra chegou ecoou estranho demais dentro dela.

O helicóptero descia agora, rompendo o ar com mais força. O vento espalhou folhas pelo gramado, levantou cabelos, bagunçou roupas.

E, no meio disso tudo…

Algo mais.

Lívia não sabia dizer o que era. Não algo específico. Era uma presença que se insinuava antes mesmo de se mostrar.

As hélices foram desacelerando até parar. As conversas retomaram força. Pessoas se viraram, curiosas, ajeitando roupas, posturas, e algumas já erguiam o celular, animadas demais.

Lívia permaneceu parada.

Sentia-se estranhamente deslocada, como se estivesse alguns segundos fora de sincronia com o resto do mundo.

— Ayla… — murmurou, engolindo em seco. — Acho que não tô legal.

— Quer sentar um pouco?

Lívia assentiu sem discutir.

O cerimonial começou quase imediatamente. Autoridades se aproximaram. O reitor ajeitou o microfone. O burburinho se transformou em expectativa organizada.

Foi nesse momento que Lívia levantou o olhar.

E o viu.

Ele ainda não estava perto. Ainda descia os últimos degraus do helicóptero, cercado por pessoas que pareciam orbitá-lo. Mesmo à distância, a presença dele era… evidente.

Não chamava atenção.

Dominava.

Alto. Postura firme. Movimentos precisos, contidos. O tipo de homem que não precisava fazer nada para ser admirado — tudo era atraído para ele.

Lívia sentiu o corpo reagir de novo.

Dessa vez, diferente.

Um calor estranho no peito, como se tudo dentro dela tivesse se inclinado na direção dele.

Ela desviou o olhar.

Ayla a observou de canto de olho.

Não disse nada.

O homem caminhou até o centro do evento, cumprimentando pessoas, seguindo o protocolo com uma naturalidade treinada. Quando tomou posição diante do microfone, o ambiente silenciou quase por reflexo.

Lívia sentiu o impacto de novo.

Como se, naquele instante, algo invisível tivesse sido alinhado.

E o cheiro hipnotizante atingiu o seu olfato: cedro, maçã-verde e fava-tonka.

Não houve choque.

Não houve raio.

Não houve reconhecimento consciente.

Mas algo se encaixou.

Lívia não sabia o nome daquilo.

Só sabia que, a partir daquele instante, nada mais voltaria ao normal.

Ela desviou o olhar, tomada por uma urgência que não fazia sentido.

Não porque quisesse.

Mas porque precisava.

A sensação que a atravessou não foi curiosidade nem atração.

Foi a certeza incômoda de que, se permanecesse ali por mais tempo, algo dentro dela cruzaria um limite sem volta.

E, pela primeira vez, Lívia entendeu que não era ele quem caminhava em sua direção.

Era o contrário.

E, cedo ou tarde, seus caminhos se cruzariam.

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