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Capítulo 3 - O homem que carrega o fim

O helicóptero preto, marcado com o símbolo da família Kurohana, cortava o ar com um zumbido constante.

Alef permanecia sentado com a postura impecável, as costas eretas contra o banco de couro escuro, as mãos apoiadas nas coxas. O terno estava alinhado, o relógio caro ajustado com precisão no pulso.

Nada, porém, nele sugeria tranquilidade.

A mandíbula permanecia tensa desde a decolagem, um músculo rígido denunciando a irritação de quem preferia estar em qualquer outro lugar. Alef observava o horizonte pela janela lateral sem realmente vê-lo. O mundo humano passava sob seus olhos como um ruído distante, irrelevante.

Ele deveria estar na matilha.

Supervisionando treinamentos.

Resolvendo disputas internas.

Preparando guerreiros.

Era ali que fazia sentido.

Eventos humanos nunca estiveram entre suas prioridades. Sorrisos ensaiados, discursos vazios, aplausos previsíveis — tudo aquilo sempre lhe pareceu uma perda de tempo.

Soltou um suspiro curto e afrouxou o nó da gravata com impaciência, como se o gesto pudesse aliviar o peso que se acumulava sob a pele.

Não era a primeira vez.

As buscas se repetiam.

As expectativas se renovavam.

O silêncio vinha depois.

Com os anos, a insistência das anciãs deixou de soar como esperança e passou a parecer teimosia. Minjis eram escolhidas, treinadas e espalhadas pelo mundo como peças de um tabuleiro antigo, condenadas a procurar algo que talvez nem existisse mais.

Para Alef, aquilo sempre soou cruel.

Lobas moldadas para a força e para a proteção sendo consumidas por uma promessa que nunca se cumpria.

Desta vez, no entanto, havia um motivo específico para aquela viagem.

Sua prima, Ayla.

Ele não a via desde a adolescência, desde o dia em que ela foi enviada para cumprir essa missão que jamais pareceu justa. Pensar nela trazia lembranças de treinamentos sob chuva, quedas no barro, risadas abafadas e dos cascudos que ele levava sem jamais conseguir revidar à altura.

Como ela estaria agora?

Ainda carregaria aquele olhar tranquilo e atento, como se estivesse sempre dois passos à frente do mundo?

A lembrança suave se dissipou rápido, engolida pelo peso que sempre retornava quando pensava no ritual que se aproximava. A cada tentativa frustrada, sua convicção se tornava mais sólida: a profecia não passava de uma promessa antiga, sustentada mais pelo medo do que por fé real.

Sua linhagem terminaria com ele, seu irmão Ben e sua irmã Katsumi.

Alef aceitava isso.

Não com resignação dócil, mas com a disciplina de quem aprende a conviver com uma verdade incômoda. Por fora, mantinha a postura firme, quase indiferente. Por dentro, sabia que aquele era o castigo mais cruel de todos: não a dor imediata, mas a certeza constante de que certos futuros lhe estavam negados.

A maldição não atingiu apenas sua irmã.

As lobas da matilha enfrentavam dificuldades extremas para engravidar. Quando a gestação acontecia, quase sempre resultava no nascimento de meninos. Em um século, apenas uma fêmea.

Katty.

A origem de tudo isso remontava a Kim, filha do alfa anterior. A herdeira legítima que, ao perder o pai, foi impedida de assumir o lugar que lhe pertencia. Naquele tempo, a alcateia ainda seguia regras antigas, segundo as quais uma mulher jamais poderia liderar.

Sem sucessor direto, a liderança foi decidida por competição.

Uma disputa brutal entre guerreiros homens — e um dos pré-requisitos era a comprovação de filhos homens.

O rancor nasceu ali.

Consumida pela certeza da injustiça, Kim buscou vingança nos confins do mundo. Para ela, o erro não era a falta da linhagem — era nascer mulher. E, se esse era o erro, que deixasse de existir.

O pai de Alef venceu a competição e, quando a coroa pousou sobre sua cabeça, foi como se o próprio firmamento se partisse.

Uma força invisível atravessou o clã como lâmina. O sangue se revoltou contra os corpos que o carregavam. A maldição se espalhou sem piedade, atingindo mulheres, crianças e até a vida que ainda se formava nos ventres.

Alef sentiu o peso daquela história se instalar novamente em seu peito.

Afastou os pensamentos com esforço e pegou o celular quase por instinto. Deslizou o dedo pela tela até deter-se nas fotos das crianças da alcateia. Rostos pequenos, olhos atentos, sorrisos tímidos.

Mesmo sob o peso da maldição, algo resistia.

Ele sentia que jamais teria filhos seus. Ainda assim, cada nascimento era recebido como prova silenciosa de continuidade. Não uma promessa grandiosa — apenas a certeza frágil de que o ciclo ainda respirava.

Foi esse pensamento que o trouxe de volta ao verdadeiro motivo daquela viagem.

A profecia falava da Luna.

“Aquela que nasce sob céus estrangeiros.

A que caminha entre mundos sem pertencer completamente a nenhum.

A que surge quando a esperança já está cansada.”

Segundo as anciãs, seria ela quem quebraria a maldição.

Ou quem a selaria de vez.

Alef já não acreditava ser o escolhido. Talvez nunca tivesse sido. Ainda assim, seguiria adiante.

Porque o destino não exigia fé.

Exigia obediência.

A voz do piloto cortou a cabine:

— Alfa, chegamos à escola. Prepare-se para o pouso.

Alef endireitou-se no assento, ajustou o nó da gravata e fechou o botão do paletó. Olhou pela janela por um instante antes de responder, em tom firme:

— Fora da alcateia, sou senhor Alef.

O piloto riu baixo, assentindo.

— Sim, senhor. Senhor Alef.

Enquanto o helicóptero iniciava a descida, Alef manteve os olhos fixos à frente.

Ele ainda não sabia.

Mas aquela viagem não era apenas mais uma obediência ao protocolo.

Era o último passo antes de descobrir se a profecia era, de fato, a resposta…

ou se ele próprio era o obstáculo que ainda restava.

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