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Capítulo 5 - O cheiro da espera

Alef acreditava que finalmente havia chegado ao fim daquela jornada.

Cumpriria o protocolo exigido, resolveria o que precisava ser resolvido e, então, retornaria à matilha — onde realmente pertencia.

Ainda assim, antes de qualquer coisa, permitiria a si mesmo um momento pessoal. Daria um abraço em sua prima e amiga de infância. Já havia decidido que conversaria com Ayla sobre sua permanência. Não seria uma decisão imposta.

Pela história que compartilhavam, concederia a ela o direito de escolha. Ayla poderia decidir para onde iria, ou até mesmo se desejava permanecer no Brasil. Mesmo ciente de que não encontraria ali a sua Luna, Alef considerava a possibilidade de mantê-la por perto. Observando. Talvez auxiliando. Enquanto aguardavam a Luna destinada ao seu sucessor.

Antes, porém, sorriu com um pensamento travesso.

Aproveitaria a oportunidade para cobrar — com juros e bom humor — todos os cascudos que havia levado na infância, agora usando como desculpa o simples fato de ter sido ela a responsável por trazê-lo até ali.

Um pequeno acerto de contas carregado de afeto, nostalgia e de uma amizade que o tempo jamais conseguira apagar.

Ele percorreu a multidão com o olhar em busca de Ayla.

Nada.

Não a encontrou nas primeiras fileiras, nem próxima às laterais, onde ela costumava se esconder quando queria observar sem ser notada. Aquilo o surpreendeu. Ayla jamais perdia o controle do ambiente — principalmente em situações como aquela.

Quando estava prestes a avançar alguns passos para procurá-la com mais atenção, sua concentração foi abruptamente arrancada.

O cerimonial havia começado.

Alef endireitou-se com a formalidade ensaiada de quem anuncia momentos importantes. Contra a própria vontade, desviou o olhar da multidão e voltou-se para o centro do evento. A partir daquele instante, distrações não eram mais uma opção.

O protocolo assumira o comando — e, com ele, a responsabilidade que sempre o acompanhava.

Levou a mão ao bolso do paletó, tateando o papel do discurso como se precisasse confirmar a própria realidade. Um gesto quase nervoso. E completamente desnecessário. Cada palavra estava gravada em sua mente. Ainda assim, o toque serviu como âncora, lembrando-o de que não havia recuo.

Tudo aquilo não passava de um teatro humano.

Caminhou em direção ao reitor com passos firmes e, por hábito, curvou-se em um ângulo preciso de noventa graus. Só então lembrou-se de onde estava. No Ocidente. Corrigiu o gesto, estendendo a mão para um aperto firme e estritamente protocolar.

Em seguida, seguiu-o até o púlpito montado à sua espera, imponente sob as luzes da estrutura montada no campo.

Ao posicionar-se ali, o ambiente silenciou gradualmente.

Não era apenas atenção.

Era expectativa.

O peso daquele olhar coletivo pousou sobre seus ombros com uma familiaridade incômoda. Alef jamais se acostumou à sensação de ser observado como um VIP. Um artista. Quase um idol do K-pop — termo que seu irmão adorava usar para provocá-lo.

Como se não fossem gêmeos idênticos.

Alef retirou o papel do discurso do bolso com um gesto calculado. Deu um passo à frente e bateu no microfone três vezes — não por impaciência, mas para testá-lo. Limpou a garganta e inspirou fundo.

O som seco ecoou, silenciando até os últimos murmúrios.

Seus olhos percorreram o público.

Houve um breve silêncio — denso, expectante.

Para ele, definitivamente, era mais fácil lidar com lobos do que com humanos.

O vento cruzou o ambiente. E o olfato de Alef foi pego de surpresa por algo que não fazia sentido… e, ainda assim, parecia inevitável.

O aroma chegou primeiro.

Notas de pimenta-rosa, flor de laranjeira e fava-tonka, misturadas em uma harmonia improvável.

Luz e sombra.

Quente como o Brasil, intenso e envolvente. Onde o doce encontrava o salgado. Onde o claro se entrelaçava ao escuro.

Yin e yang.

Equilíbrio perfeito.

Alef não sabia que precisava daquele cheiro.

Mas sentiu, no fundo do peito, que aquela necessidade sempre esteve ali.

Silenciosa.

À espera.

Seus dedos se fecharam com força ao redor das laterais do púlpito, até os nós ficarem brancos. A visão tornou-se mais nítida. Os sons, mais altos. O mundo pareceu estreitar-se ao redor de um único impulso.

O lobo despertou sob a pele.

Rugindo.

Puxando.

Exigindo.

A palavra surgiu em sua mente com a violência de uma verdade impossível de ignorar.

Companheira.

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