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Capítulo 6 - O limite da queda

Ayla sentiu.

A energia mudou no instante em que o vento cruzou o espaço aberto e o cheiro alcançou o púlpito. Não precisou olhar para Alef para saber. O impacto do vínculo percorreu o corpo dele como ondas de choque.

O lobo dele estava a um fio de despertar.

Alef agarrou as laterais do púlpito com força excessiva. A postura rígida denunciava o esforço para conter algo que não aceitava ser contido. Um rosnado baixo vibrou em seu peito, quase imperceptível aos humanos — mas não a ela.

Ayla posicionou-se ao lado dele no exato instante em que a energia ameaçou romper o último limite.

Espalhou sua presença com cuidado.

Firme.

Curativa.

Controlada.

Uma energia serena envolveu Alef, ancorando-o antes que o instinto o empurrasse além do ponto de retorno. Não era força bruta. Era contenção paciente. Lembrança silenciosa de quem ele era… e do que estava em jogo.

Ele virou o rosto, ainda tenso.

E a encontrou ali.

Ayla deu um sorriso gentil e falou pela conexão mental:

— Como sempre, nervosinho, hein, Kuririn? Daqui a pouco vou ter que te dar uns cascudos.

A brincadeira não era descuido. Era estratégia.

Ayla precisou recorrer a quase toda a sua energia de loba para mantê-lo naquele estado frágil de equilíbrio. Sua presença se espalhou por ele como um bálsamo morno, afastando a luxúria e o impulso bruto que ameaçavam romper o controle.

Era um trabalho constante.

Ancorá-lo na razão.

Lembrá-lo da posição que ocupava.

Do disfarce humano.

Do perigo ao redor.

Sobretudo, lembrá-lo de que não estava sozinho.

Para ela, aqueles segundos pareceram longos demais. O tempo se distorceu enquanto mantinha ativa a energia de Minji — que não era apenas sabedoria e inteligência, mas também cura e proteção.

Seu medo não era apenas que Alef perdesse o controle diante da multidão.

Era que o perdesse por diante dela.

De Lívia.

E isso, sob hipótese alguma, ela permitiria.

Pouco a pouco, ela sentia a tensão cedendo. A respiração de Alef desacelerar. O brilho animal em seus olhos suavizar até desaparecer por completo. Só então Ayla relaxou, certa de que, por ora, ele estava novamente sob o controle de si.

Alef respirou fundo e respondeu pela conexão mental, o humor retornando como uma máscara tom familiar:

— Você não conseguiria nem chegar perto da minha cabeça pra me acertar, Chewbacca. E não me chame de Kuririn.

Ela quase riu de alívio.

Ambos concordaram, embalados pela cumplicidade antiga, quando o mundo era menor e as responsabilidades ainda não pesavam tanto.

Ayla então falou em voz alta, para disfarçar a proximidade:

— O senhor precisa de alguma coisa?

Alef afastou suavemente a mão dela da sua.

— Está tudo bem. O discurso está pronto.

Limpou a garganta e começou a falar. A voz saiu firme, controlada, como se nada tivesse acontecido.

Mas Ayla sabia.

Ela sempre sabia.

Afastou-se com discrição, dissolvendo-se entre as pessoas com a mesma sutileza com que surgiu. Seu papel, por enquanto, estava cumprido.

Voltou para o lugar ao lado de Lívia.

A amiga parecia levemente desorientada, os olhos vagando pelo espaço aberto, como se tentasse entender algo que escapava à lógica.

Lívia pediu que ela se abaixasse e murmurou, em tom irônico:

— Uai, amiga… virou cerimonialista e não me contou? Você saiu daqui tão rápido que nem vi a hora. Quando percebi, já estava lá na frente.

E conrtinuou com um sorriso carregado de leve malícia.

— Por acaso ficou encantada com o idol? Você já o conhecia?

Ayla riu, fingindo naturalidade.

— Achei que fosse um conhecido… mas você não achou ele lindo também?

Lívia deu de ombros.

— Ele não faz meu tipo.

— Como assim ele não faz seu tipo?

— Bonito demais. O tipo dele é o tipo que não repara em mim. Então pronto: não é meu tipo.

Ayla riu observando a amiga com atenção.

Há anos suspeitava que Lívia não tivesse uma loba. Ainda assim, parte dela acreditava que talvez ela pudesse sentir ao menos o vínculo — aquele fio invisível impossível de ser ignorado.

Buscou sinais, mas não via nada. Apenas o rubor habitual nas bochechas quando o assunto eram homens.

— E ele que sairia perdendo a mulher linda e incrível que você é — disse Ayla.

Lívia riu, sacudiu as mãos teatralmente em sinal de vitória, e ambas voltaram a atenção para a frente e voltou a atenção para a cerimônia.

Sem saber que algo antigo já havia sido despertado.

E que, enquanto ela parecia indiferente…

…o mundo ao redor começava, lentamente, a sair do lugar.

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