Mundo de ficçãoIniciar sessãoAyla sentiu.
A energia mudou no instante em que o vento cruzou o espaço aberto e o cheiro alcançou o púlpito. Não precisou olhar para Alef para saber. O impacto do vínculo percorreu o corpo dele como ondas de choque.
O lobo dele estava a um fio de despertar.
Alef agarrou as laterais do púlpito com força excessiva. A postura rígida denunciava o esforço para conter algo que não aceitava ser contido. Um rosnado baixo vibrou em seu peito, quase imperceptível aos humanos — mas não a ela.
Ayla posicionou-se ao lado dele no exato instante em que a energia ameaçou romper o último limite.
Espalhou sua presença com cuidado.
Firme.
Curativa. Controlada.Uma energia serena envolveu Alef, ancorando-o antes que o instinto o empurrasse além do ponto de retorno. Não era força bruta. Era contenção paciente. Lembrança silenciosa de quem ele era… e do que estava em jogo.
Ele virou o rosto, ainda tenso.
E a encontrou ali.
Ayla deu um sorriso gentil e falou pela conexão mental:
— Como sempre, nervosinho, hein, Kuririn? Daqui a pouco vou ter que te dar uns cascudos.
A brincadeira não era descuido. Era estratégia.
Ayla precisou recorrer a quase toda a sua energia de loba para mantê-lo naquele estado frágil de equilíbrio. Sua presença se espalhou por ele como um bálsamo morno, afastando a luxúria e o impulso bruto que ameaçavam romper o controle.
Era um trabalho constante.
Ancorá-lo na razão.
Lembrá-lo da posição que ocupava. Do disfarce humano. Do perigo ao redor.Sobretudo, lembrá-lo de que não estava sozinho.
Para ela, aqueles segundos pareceram longos demais. O tempo se distorceu enquanto mantinha ativa a energia de Minji — que não era apenas sabedoria e inteligência, mas também cura e proteção.
Seu medo não era apenas que Alef perdesse o controle diante da multidão.
Era que o perdesse por diante dela.
De Lívia.
E isso, sob hipótese alguma, ela permitiria.
Pouco a pouco, ela sentia a tensão cedendo. A respiração de Alef desacelerar. O brilho animal em seus olhos suavizar até desaparecer por completo. Só então Ayla relaxou, certa de que, por ora, ele estava novamente sob o controle de si.
Alef respirou fundo e respondeu pela conexão mental, o humor retornando como uma máscara tom familiar:
— Você não conseguiria nem chegar perto da minha cabeça pra me acertar, Chewbacca. E não me chame de Kuririn.
Ela quase riu de alívio.
Ambos concordaram, embalados pela cumplicidade antiga, quando o mundo era menor e as responsabilidades ainda não pesavam tanto.
Ayla então falou em voz alta, para disfarçar a proximidade:
— O senhor precisa de alguma coisa?
Alef afastou suavemente a mão dela da sua.
— Está tudo bem. O discurso está pronto.
Limpou a garganta e começou a falar. A voz saiu firme, controlada, como se nada tivesse acontecido.
Mas Ayla sabia.
Ela sempre sabia.
Afastou-se com discrição, dissolvendo-se entre as pessoas com a mesma sutileza com que surgiu. Seu papel, por enquanto, estava cumprido.
Voltou para o lugar ao lado de Lívia.
A amiga parecia levemente desorientada, os olhos vagando pelo espaço aberto, como se tentasse entender algo que escapava à lógica.
Lívia pediu que ela se abaixasse e murmurou, em tom irônico:
— Uai, amiga… virou cerimonialista e não me contou? Você saiu daqui tão rápido que nem vi a hora. Quando percebi, já estava lá na frente.
E conrtinuou com um sorriso carregado de leve malícia.
— Por acaso ficou encantada com o idol? Você já o conhecia?
Ayla riu, fingindo naturalidade.
— Achei que fosse um conhecido… mas você não achou ele lindo também?
Lívia deu de ombros.
— Ele não faz meu tipo.
— Como assim ele não faz seu tipo?
— Bonito demais. O tipo dele é o tipo que não repara em mim. Então pronto: não é meu tipo.
Ayla riu observando a amiga com atenção.
Há anos suspeitava que Lívia não tivesse uma loba. Ainda assim, parte dela acreditava que talvez ela pudesse sentir ao menos o vínculo — aquele fio invisível impossível de ser ignorado.
Buscou sinais, mas não via nada. Apenas o rubor habitual nas bochechas quando o assunto eram homens.
— E ele que sairia perdendo a mulher linda e incrível que você é — disse Ayla.
Lívia riu, sacudiu as mãos teatralmente em sinal de vitória, e ambas voltaram a atenção para a frente e voltou a atenção para a cerimônia.
Sem saber que algo antigo já havia sido despertado.
E que, enquanto ela parecia indiferente…
…o mundo ao redor começava, lentamente, a sair do lugar.







