Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia se apaixonou pelo único homem que jamais poderia amar. Pedro Henrique é casado. É mais velho. E é pai da sua melhor amiga. Quando o caso secreto entre os dois vem à tona, o escândalo destrói amizades, famílias e reputações. Agora todos querem separá-los. Mas alguns amores são fortes demais para serem esquecidos. Até quando Lívia conseguirá resistir ao homem que nunca deveria ter amado?
Ler mais— Se esse professor pedir mais uma citação da Constituição, eu juro que largo Direito e viro bartender. — Lívia jogou a caneta na mesa e se jogou para trás na cadeira.
— Drama. — Marina nem levantou os olhos do notebook. — São só dez páginas.
— Dez páginas escritas à mão. À mão, Marina. Em pleno século vinte e um.
Valentina riu, mas a risada não durou muito. Estava sentada na cama, o celular largado ao lado, expressão distante demais para quem costumava ser a mais barulhenta do grupo.
— Eu escreveria cinquenta páginas pela paz lá em casa.
Lívia parou de girar a cadeira.
— Está tão ruim assim?
Valentina deu de ombros.
— Eles não se falam sem brigar. É como se qualquer coisa virasse motivo. Eu não sei em que momento tudo desandou.
Marina fechou o notebook dessa vez.
— Você acha que tem outra pessoa?
Valentina negou rápido demais.
— Não. Se tivesse, minha mãe já teria feito um escândalo histórico.
Lívia mordeu o canto do lábio. Conhecia aquela casa desde pequena. Dormidas de sexta, aniversários. Chamava Lilian de tia desde os nove anos.
O pai da Valentina… era uma memória mais vaga.
Nos primeiros anos ele estava sempre ali, jovem demais para parecer pai, rindo alto, participando de tudo. Depois foi ficando cada vez mais ausente. Escritório. Reuniões. Porta batendo cedo demais.
A partir dos doze anos, ele tinha virado apenas isso: um carro saindo antes do café da manhã.
— Às vezes as pessoas só deixam de dar certo — Lívia disse, dando de ombros. — Não precisa ter vilão.
Valentina suspirou.
— Eu queria que fosse só uma fase.
O relógio marcava quase nove quando ela pegou a mochila.
— Eu preciso ir. Minha mãe já deve estar na porta.
— Eu te levo. — Lívia levantou antes que ela protestasse.
— Não precisa…
— Precisa sim. Eu preciso de uma desculpa para fugir desse trabalho.
Marina riu.
— Heroína.
— Só faço isso por você, Vale. — Lívia piscou.
O caminho até a casa foi silencioso. A música tocava baixa demais para preencher o clima.
Quando estacionaram, o portão já estava aberto.
Lilian esperava do lado de fora, braços cruzados, postura elegante mesmo no cansaço.
O sorriso surgiu assim que reconheceu o carro.
— Boa noite, tia Lilian.
— Lívia, minha filha. Obrigada por trazer essa criatura.
Valentina revirou os olhos, mas foi direto para o abraço da mãe.
— Mãe… o papai já chegou?
Houve uma pausa curta. Pequena. Mas perceptível.
O sorriso de Lilian demorou um segundo a mais do que deveria.
— Ainda está no escritório. Você sabe como ele é.
— Ele sempre está no escritório — Valentina murmurou.
Lilian ignorou o comentário.
— Lívia, entra para jantar com a gente.
Por um instante, Lívia quase aceitou. Aquela casa já foi extensão da dela.
Mas parecia silenciosa demais.
— Hoje não, tia. Minha mãe já deve estar me esperando.
Lilian assentiu.
— Dirige com cuidado.
Lívia acenou, deu partida e saiu.
Dez minutos depois, o volante vibrou forte.
O barulho seco do estouro ecoou na rodovia.
— Ah, não… — ela murmurou, encostando no acostamento.
Lívia saiu do carro e caminhou até o pneu traseiro.
Murcho. Completamente.
— Claro. Perfeito. Era só o que faltava.
Lívia abriu o porta-malas devagar demais.
O estepe estava ali. O macaco também. Ferramentas que pareciam exigir um tipo de conhecimento que ela definitivamente não possuía.
A rodovia estava quase vazia. O vento da noite soprava frio contra a pele exposta dos braços. Ela olhou ao redor e sentiu, pela primeira vez, o peso real de estar sozinha.
Sem celular.
Sem ajuda.Sem ideia do que fazer.— Perfeito — murmurou para si mesma.
O som de um carro se aproximando fez seu corpo enrijecer automaticamente.
Faróis altos iluminaram tudo. O acostamento, o carro, o rosto dela. Ela levou a mão ao rosto para proteger os olhos.
O carro diminuiu. Parou.
O coração dela disparou tão rápido que chegou a doer. Ótimo. Era assim que as histórias ruins começavam.
A porta abriu. O som de sapatos no asfalto.
Passos firmes, controlados. Não apressados. Não hesitantes.
O silêncio dentro do carro ficou pesado.Ela passou a mão pelo rosto, tentando recuperar alguma dignidade. Arrumando o vestido ainda sem olhar para ele. — Que droga… — murmurou, ainda sentindo o coração disparado. — Eu não sou assim. Eu juro.Ele a olhou com um meio sorriso, mas os olhos estavam escuros.— É uma pena, então.O silêncio dentro do carro ainda estava carregado quando Lívia, tentando parecer casual, deixou o olhar escorregar de novo.A marca evidente sob o tecido da calça dele não deixava muito espaço para interpretação.Ela mordeu o lábio inferior antes mesmo de perceber que estava fazendo isso.Henrique viu.E sorriu devagar.Ela levantou os olhos para ele, já sem conseguir sustentar a pose de indiferença.— Isso foi… diferente.A palavra saiu quase cautelosa.Ele inclinou levemente a cabeça, satisfeito.— Modéstia à parte… eu sou muito bom no que eu faço.Ela revirou os olhos, mas não conteve o sorriso.— Convencido.— Você não perde por esperar, Lívia.A frase ficou
Ela sentiu o arrepio subir pelos braços.— Não fala assim. — Passou a mão no próprio braço. — Eu pareço uma menina regrada e boazinha… mas não sou tanto.Ele sorriu, confiante demais.— Você me chamou de emocionado, mas eu sei que você gosta de mim também.Ela desviou o olhar para o painel.— Eu não sei que tipo de conexão bizarra a gente tem — ele continuou — mas ela existe. E eu sei que você ficou com ciúme quando eu contei que fiquei com a minha esposa.Ela sustentou o olhar dele por dois segundos.— Fiquei.A palavra saiu antes que pudesse controlar.O silêncio ficou mais denso.Ela piscou, tentando corrigir.— Não. Não fiquei.O silêncio dentro do carro ficou diferente depois que ela tentou negar o ciúme.Henrique deixou as embalagens no banco de trás e girou o corpo devagar na direção dela. O espaço entre os dois parecia menor do que realmente era.— Então eu posso contar a você? — a voz dele saiu mais baixa, mais lenta.Ela não respondeu imediatamente. Apenas o encarou.— Conta
O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente para mudar o clima.— Me ouviu e escondeu antes de me encontrar? — ela provocou, rindo. — Cretino. Você aprende rápido.O riso dela foi leve.A expressão dele não.Henrique desviou o olhar para a rua.— Eu não sou um cretino — respondeu, mais baixo.Ela percebeu imediatamente que havia algo diferente.Ele passou em frente ao restaurante onde tinham ido dois dias antes. As portas estavam fechadas.— Essa droga só abre para o jantar — murmurou.— Esse bairro é morto durante o dia — ela comentou, olhando as vitrines vazias. — Podemos pegar um lanche no drive-thru e comer na praça.Ele assentiu sem discutir.Minutos depois, estavam parados com sacolas de fast food no colo. O carro desligado. O ar condicionado ainda ligado. O cheiro de fritura preenchendo o espaço pequeno.Ela abriu o refrigerante. Ele ficou alguns segundos segurando o sanduíche sem morder.Então falou:— Eu saí de casa ontem.Ela engasgou levemente.— Você o quê?O tom sa
Arthur já tinha ouvido Pedro ameaçar sair de casa tantas vezes nos últimos dois anos que, no fundo, sempre achou que aquilo morreria no campo das intenções. Era quase um bordão entre eles: “qualquer dia eu saio”. Só que, daquela vez, não era mais discurso.Pedro estava de pé perto da janela da própria sala, a gravata frouxa, o rosto abatido pela noite mal dormida.— Tive uma senhora briga com a Lilian… e com a Vale.Arthur franziu a testa imediatamente.— Brigou com a sua filha? — perguntou, menos brincalhão do que de costume. — O que a coitada tem a ver com isso?Pedro passou a mão pelo rosto, ainda irritado com a lembrança.— Eu conversei com ela ontem, como te disse. Achei que ela fosse entender. — Deu um riso curto, sem humor. — A “madura” chegou em casa e contou tudo pra mãe.Arthur cruzou os braços.— É a mãe dela.— E eu sou o pai dela! — a resposta saiu no mesmo tom da noite anterior, impulsiva. — A única pessoa que tem que estar feliz é a mãe dela?Arthur balançou a cabeça, t





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