Na cozinha, a luz branca era forte demais para aquele horário. Ele abriu a geladeira, pegou o prato já montado por Lilian horas antes e colocou no micro-ondas. O aparelho começou a girar, repetitivo, como se marcasse o ritmo previsível da própria vida.Sentou-se à mesa enquanto esperava.A casa estava silenciosa, mas não era um silêncio pacífico. Era o tipo de silêncio que nasce depois de discussões repetidas demais.Passos leves soaram no corredor.Bruna apareceu na porta da cozinha, os cabelos bagunçados e a expressão ainda meio sonolenta.— Oi, pai.Ele ergueu os olhos imediatamente. Com as filhas, ele nunca estava cansado demais.— Oi, meu amor. Pensei que já estivesse dormindo.Ela aproximou-se devagar, encostando o quadril na mesa antes de puxar a cadeira para sentar.— Ouvi você e a mamãe.Henrique apoiou os cotovelos na mesa por um segundo. Aquela parte sempre vinha.— A gente não estava brigando.Bruna inclinou a cabeça, descrente.Aos onze anos, ela já entendia mais do que e
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