Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle assentiu devagar.
— Significa que eu estou me separando. Há algum tempo. Não é simples.
Não havia vergonha na voz dele. Nem culpa exagerada.
Apenas cansaço.
Ela estudou o rosto dele. Não parecia homem em busca de aventura.
Parecia homem cansado demais de alguma coisa.
— Eu não me envolvo com homem casado.
— Eu não te convidaria se ainda estivesse dentro de um casamento de verdade.
A firmeza com que disse aquilo mexeu com ela.
Silêncio.
A decisão pairava no ar.
— Bom… você já pode voltar a confiar no seu carro.
Lívia observou o pneu novo como se aquilo fosse um pequeno milagre técnico.
— Eu devia aprender a fazer isso.
— Devia. — Ele apoiou as mãos na cintura por um instante. — Mas fico satisfeito de ter sido útil hoje.
Ela assentiu.
O momento natural seria agradecer e entrar no carro.
Mas nenhum dos dois se moveu.
O silêncio entre eles não era desconfortável. Era carregado.
Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, tirou uma caneta e um cartão.
Escreveu algo no verso.
Estendeu para ela.
— Meu número.
Ela não pegou de imediato. Ainda era um estranho.
— Você distribui isso assim pra qualquer uma que encontra na estrada?
O canto da boca dele se ergueu.
— Não.
Ela pegou o cartão.
Henrique.
Sem sobrenome na frente.
No verso, o número escrito à mão.
A caligrafia firme.
— Me manda uma mensagem quando chegar em casa.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Confiante da sua parte achar que eu vou mandar.
— Não é confiança. — Ele inclinou levemente a cabeça. — É só pra eu saber que você chegou viva.
Aquilo não soou como charme. Soou genuíno.
Ela desviou o olhar por um segundo, desconcertada.
— Talvez eu mande.
Ele aceitou a resposta com um pequeno sorriso.
Ela abriu a porta do carro, mas parou antes de entrar.
— Isso não vai arranjar problema com a sua esposa?
A pergunta saiu direta. Sem rodeios. Ele não demonstrou irritação.
— Não.
— Não? — ela insistiu.
— Eu vou chegar em casa e contar o que aconteceu aqui.
— Contar o quê? — ela cruzou os braços. — Que deu em cima de mim numa rodovia?
Ele riu de verdade dessa vez, o som baixo e inesperadamente leve.
— Eu não dei em cima de você. Troquei seu pneu.
Ela inclinou a cabeça, desafiadora.
— E me chamou pra jantar.
— Que você não aceitou — ele completou, ainda sorrindo.
O vento passou entre eles outra vez.
Ela entrou no carro. Ele deu um passo para trás, respeitando o espaço.
— Dirige com cuidado, Lívia.
O jeito como disse o nome dela fez algo estranho apertar no peito.
Ela fechou a porta.
Enquanto dava partida, viu pelo retrovisor ele ainda parado ali, mãos nos bolsos, observando.
Impecável.
Controlado.
E perigosamente interessante.
Quando virou na pista, percebeu que o pneu furado já não era a parte mais imprevisível da noite.
**
Henrique dirigiu o restante do caminho em silêncio.
A rodovia foi ficando para trás, substituída pelas ruas conhecidas do bairro onde morava havia anos. Casas alinhadas, postes de luz amarelados, árvores projetando sombras tortas sobre o asfalto. Tudo parecia exatamente como sempre.
E ainda assim, algo não estava.
Ele não costumava parar para desconhecidas. Não costumava oferecer ajuda que não fosse estritamente necessária. E definitivamente não costumava convidar alguém para jantar quinze minutos depois de conhecê-la.
Mas havia algo na forma como ela sustentou o olhar. Na maneira como disse “eu não me envolvo com homem casado” sem baixar a cabeça. No jeito firme e quase debochado de existir.
Lívia.
O nome ecoava com facilidade incômoda.
Ele estacionou em frente à própria casa e desligou o motor. A fachada iluminada pela luz da varanda parecia exatamente como em qualquer outra noite. A janela da sala estava acesa. As cortinas fechadas.
Respirou fundo antes de sair do carro.
A maçaneta da porta girou antes mesmo que ele colocasse a chave.
Valentina apareceu primeiro.
Cabelos soltos sobre os ombros, camiseta larga, expressão que misturava alívio e cobrança.
Os olhos dela percorreram o rosto do pai como se avaliassem detalhes invisíveis.
— Pai, você demorou.
Henrique sustentou o olhar da filha por um segundo a mais do que o habitual.
Naquela noite, a rodovia tinha sido simples.
A parte difícil começava ali.
Ele forçou um meio sorriso, aproximando-se da porta.
— Tive um imprevisto no caminho.
Valentina abriu espaço para que ele entrasse.
E enquanto cruzava o limiar da própria casa, Henrique teve a sensação estranha de que, pela primeira vez em muito tempo, algo realmente tinha saído do controle.







