Capítulo 2 - Henrique

— Boa noite.

A voz veio antes que ela decidisse se corria ou fingia confiança.

Ela abaixou a mão devagar. E por um segundo, o medo perdeu força.

Ele não tinha a aparência de ameaça. Muito pelo contrário. Terno grafite impecável, gravata levemente afrouxada. O tipo de homem que parecia mais deslocado ali do que ela.

Mas aparência não era garantia de nada.

Ela cruzou os braços, numa tentativa de recuperar o controle.

— Depende — respondeu. — Você costuma parar em rodovias escuras para abordar mulheres sozinhas?

A pergunta saiu mais firme do que ela realmente se sentia.

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso. O canto da boca dele se ergueu devagar.

— Só quando elas parecem estar prestes a declarar guerra contra o próprio carro.

O comentário arrancou dela um quase sorriso. Quase.

Ele manteve distância. Não se aproximou além do necessário.

— Precisa de ajuda?

Ela hesitou.

Se ele fosse embora, talvez ninguém mais parasse. Talvez o próximo carro não tivesse o mesmo tom de voz.

— Meu pneu estourou. — Ela apontou para trás. — E eu esqueci o celular em casa, porque claramente tomo decisões brilhantes sob pressão.

O olhar dele desceu até o pneu, avaliando a situação com calma prática.

— Tem estepe?

— Tem. Eu só… não sei usar.

Ele soltou um riso baixo, sem deboche.

— Posso trocar para você.

A simplicidade com que ele disse aquilo a desarmou um pouco. Não havia insistência. Nem segunda intenção explícita.

Apenas certeza.

Ele tirou o paletó com movimentos fluidos, dobrou com cuidado e colocou sobre o capô do próprio carro. Arregaçou as mangas da camisa com naturalidade, como se aquilo fosse rotina.

Ela percebeu, com um leve incômodo, que ele era mais alto de perto. Ombros largos. Postura reta. Seguro demais para alguém que acabara de parar numa rodovia para ajudar uma desconhecida.

— Você mora por aqui? — ele perguntou enquanto soltava os parafusos.

— Não. Vim deixar uma amiga.

— Tarde demais para isso.

— Eu sou adulta. — Ela inclinou a cabeça. — Tecnicamente.

Ele levantou o olhar para ela.

Havia algo ali. Não julgamento. Não condescendência.

Avaliação.

— Quantos anos?

— Dezenove.

O silêncio durou um segundo a mais.

— Imaginei.

— O quê? Que eu era irresponsável?

— Que você era nova demais para estar parada sozinha numa rodovia escura.

A preocupação na voz dele era real. Não teatral.

E aquilo a afetou mais do que deveria.

Ela se aproximou um passo, curiosa apesar de si mesma.

— E você? Qual é a sua idade misteriosa?

Ele encaixou o estepe com precisão antes de responder.

— Velho o suficiente para saber que certas coisas não valem o risco.

— Isso é resposta de quem tem mais de trinta.

Ele riu, breve.

— Talvez.

Ela percebeu que queria que ele dissesse.

Queria que ele falasse mais.

Ele terminou de apertar os parafusos e se levantou.

Quando ficou totalmente ereto, a diferença de altura ficou evidente. A proximidade trouxe outro detalhe: cheiro discreto de perfume, algo amadeirado e limpo.

Perigoso.

— Já que eu salvei sua noite — ele disse — posso saber seu nome?

Ela hesitou. Não costumava entregar informações pessoais a estranhos.

Mas aquele já não parecia completamente estranho.

— Lívia.

Ele repetiu o nome como se testasse o som.

— Lívia.

O jeito como falou fez algo estranho vibrar dentro dela.

— E o seu? — ela perguntou.

Ele a encarou com um olhar que parecia medir a resposta.

— Henrique.

Só isso.

— Só Henrique?

Um pequeno sorriso.

— Por enquanto.

O vento soprou entre eles, trazendo o som distante de um carro passando.

— Eu sei que pode parecer direto demais — ele começou — mas eu gostaria de te convidar para jantar.

O coração dela tropeçou.

— Você sempre convida mulheres que conhece há quinze minutos?

— Não.

A resposta veio firme. Sem brincadeira.

— Só quando eu sinto que deveria ter conhecido antes.

Ela respirou fundo.

— Você é casado?

Ele não desviou o olhar. Nem por um segundo.

— É complicado.

— Isso normalmente significa sim.

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