Capítulo 7 - Eu Não Serei Amante

Mais tarde, na faculdade, Lívia atravessou o corredor com energia demais para quem tinha dormido pouco.

Marina já estava sentada na mesa habitual da cantina quando ela chegou. Valentina estava ao lado, mexendo no copo de suco como se a bebida tivesse culpa pelos problemas da casa.

Lívia sentou-se com um sorriso que tentava parecer casual, mas não conseguia esconder a inquietação.

— Eu preciso contar uma coisa.

Marina arqueou as sobrancelhas.

Valentina levantou o olhar.

Lívia respirou fundo antes de falar.

— Eu conheci um homem ontem.

Ela mesma percebeu o peso da palavra.

Não “garoto”.

Não “cara”.

Homem.

Marina abriu um sorriso curioso. Valentina, ao contrário, ficou imóvel.

Lívia contou sobre a rodovia, o pneu furado, o terno impecável e a segurança no jeito de falar. Enquanto narrava, percebia que o coração ainda reagia à lembrança.

Mas quando mencionou que ele era casado, o clima mudou.

Valentina ficou rígida.

— Não faz isso — disse, antes mesmo de pensar. — Não se mete com homem casado.

Não era julgamento. Era dor.

Ela falava do próprio pai sem saber.

— Ele disse que está se separando — Lívia explicou, mais defensiva do que pretendia soar. — Que o casamento já acabou.

Valentina soltou um riso sem humor.

— Eles sempre dizem isso.

A frase atingiu Lívia mais do que deveria.

Por um segundo, ela se sentiu errada. Como se estivesse traindo não apenas uma esposa desconhecida, mas a própria amiga.

— Eu não sou esse tipo de mulher — ela disse, mais firme. — Eu não vou ser amante de ninguém.

Valentina passou a mão pelo rosto.

— Eu só… não aguento mais essa história em casa. Se tiver outra mulher no meio, eu não sei o que eu faço.

Marina, percebendo o peso que se instalava, tentou aliviar.

— Vocês estão sofrendo por coisas que nem aconteceram ainda.

Mas não era simples assim.

Lívia sentia a excitação da novidade misturada com um desconforto que não sabia explicar.

Valentina defendia um casamento que, na prática, já estava quebrado.

E nenhuma das duas fazia ideia de que falavam do mesmo homem.

Lívia forçou um sorriso leve.

— Eu nem sei se vou aceitar jantar com ele.

Valentina a encarou.

— Se ele ainda é casado, você não deveria nem cogitar.

Houve um silêncio breve.

O assunto não morreu depois da reação de Valentina.

Ele ficou ali, pairando entre as três, como algo que nenhuma delas conseguia ignorar.

Lívia tentou manter a leveza no tom, mas já não era tão simples.

Ela sabia que havia tocado em um ponto sensível demais.

— Eu não vou fazer nada enquanto ele ainda for casado — disse, mais firme agora. — Eu não sou esse tipo de pessoa.

Valentina sustentou o olhar dela por alguns segundos.

Havia algo quase suplicante ali.

— Então nem começa — respondeu. — Porque você sabe como isso termina.

Lívia respirou fundo.

Ela não queria brigar.

Mas também não queria ser tratada como alguém sem caráter.

— Eu quero ir ao jantar — confessou, finalmente. — Eu quero. Mas isso não significa que eu vá me envolver enquanto ele não resolver a vida dele.

Valentina abriu os olhos, incrédula.

— Isso é um absurdo, Lívia.

— Nem tudo gira em torno do casamento dos seus pais.

A frase saiu mais dura do que deveria.

Valentina ficou imóvel por um segundo.

— É tudo igual, sim — disse, a voz mais baixa agora, mas ainda carregada. — Você vai se enfiar no meio de uma família.

Lívia sentiu a pontada da culpa atravessar o peito.

— Você me ouviu? Ele disse que o casamento já acabou.

Valentina riu, mas não havia humor.

— Eles sempre dizem isso. É a desculpa mais velha do mundo pra fazer de você amante.

A palavra ficou pesada entre elas.

Amante.

Lívia engoliu em seco.

— Eu não vou ser amante de ninguém.

Ela disse aquilo para Valentina.

Mas também para si mesma.

O silêncio começou a se transformar em algo maior, mais perigoso. Algo que poderia rachar mais do que uma simples conversa de faculdade.

Marina percebeu antes que as duas ultrapassassem o limite.

— Pelo amor de Deus, vocês estão brigando por um homem que nenhuma de nós conhece — disse, apoiando os braços na mesa. — Vamos falar do trabalho de amanhã? Ou do professor que acha que a gente vive na década de noventa?

A tentativa de mudança de assunto foi aceita mais por exaustão do que por convencimento.

A conversa deslizou para temas banais. Trabalhos. Professores. Pequenas fofocas.

Mas a tensão não tinha desaparecido. Só tinha sido empurrada para depois.

Quando as aulas terminaram e cada uma seguiu seu caminho, Lívia sentiu o peso da própria promessa ecoando na cabeça.

Ela não seria amante.

Não pisaria no casamento de ninguém.

Mas o jantar não era nada demais.

Era só um jantar.

Naquela tarde, sozinha no quarto, o cartão ainda estava sobre a escrivaninha.

Henrique. Sem sobrenome.

Ela pegou o celular. Ficou alguns segundos olhando para a tela.

Podia esperar. Podia deixar para depois. Podia ignorar.

Mas o que sentira na rodovia não tinha sido imaginário.

Ela digitou devagar.

Eu topo.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App