O Pai da Minha Amiga Me Quer E Eu Não Consigo Fugir
O Pai da Minha Amiga Me Quer E Eu Não Consigo Fugir
Por: Camila Soares
Capítulo 1 - O Homem na Estrada

— Se esse professor pedir mais uma citação da Constituição, eu juro que largo Direito e viro bartender. — Lívia jogou a caneta na mesa e se jogou para trás na cadeira.

— Drama. — Marina nem levantou os olhos do notebook. — São só dez páginas.

— Dez páginas escritas à mão. À mão, Marina. Em pleno século vinte e um.

Valentina riu, mas a risada não durou muito. Estava sentada na cama, o celular largado ao lado, expressão distante demais para quem costumava ser a mais barulhenta do grupo.

— Eu escreveria cinquenta páginas pela paz lá em casa.

Lívia parou de girar a cadeira.

— Está tão ruim assim?

Valentina deu de ombros.

— Eles não se falam sem brigar. É como se qualquer coisa virasse motivo. Eu não sei em que momento tudo desandou.

Marina fechou o notebook dessa vez.

— Você acha que tem outra pessoa?

Valentina negou rápido demais.

— Não. Se tivesse, minha mãe já teria feito um escândalo histórico.

Lívia mordeu o canto do lábio. Conhecia aquela casa desde pequena. Dormidas de sexta, aniversários. Chamava Lilian de tia desde os nove anos.

O pai da Valentina… era uma memória mais vaga.

Nos primeiros anos ele estava sempre ali, jovem demais para parecer pai, rindo alto, participando de tudo. Depois foi ficando cada vez mais ausente. Escritório. Reuniões. Porta batendo cedo demais.

A partir dos doze anos, ele tinha virado apenas isso: um carro saindo antes do café da manhã.

— Às vezes as pessoas só deixam de dar certo — Lívia disse, dando de ombros. — Não precisa ter vilão.

Valentina suspirou.

— Eu queria que fosse só uma fase.

O relógio marcava quase nove quando ela pegou a mochila.

— Eu preciso ir. Minha mãe já deve estar na porta.

— Eu te levo. — Lívia levantou antes que ela protestasse.

— Não precisa…

— Precisa sim. Eu preciso de uma desculpa para fugir desse trabalho.

Marina riu.

— Heroína.

— Só faço isso por você, Vale. — Lívia piscou.

O caminho até a casa foi silencioso. A música tocava baixa demais para preencher o clima.

Quando estacionaram, o portão já estava aberto.

Lilian esperava do lado de fora, braços cruzados, postura elegante mesmo no cansaço.

O sorriso surgiu assim que reconheceu o carro.

— Boa noite, tia Lilian.

— Lívia, minha filha. Obrigada por trazer essa criatura.

Valentina revirou os olhos, mas foi direto para o abraço da mãe.

— Mãe… o papai já chegou?

Houve uma pausa curta. Pequena. Mas perceptível.

O sorriso de Lilian demorou um segundo a mais do que deveria.

— Ainda está no escritório. Você sabe como ele é.

— Ele sempre está no escritório — Valentina murmurou.

Lilian ignorou o comentário.

— Lívia, entra para jantar com a gente.

Por um instante, Lívia quase aceitou. Aquela casa já foi extensão da dela.

Mas parecia silenciosa demais.

— Hoje não, tia. Minha mãe já deve estar me esperando.

Lilian assentiu.

— Dirige com cuidado.

Lívia acenou, deu partida e saiu.

Dez minutos depois, o volante vibrou forte.

O barulho seco do estouro ecoou na rodovia.

— Ah, não… — ela murmurou, encostando no acostamento.

Lívia saiu do carro e caminhou até o pneu traseiro.

Murcho. Completamente.

— Claro. Perfeito. Era só o que faltava.

Lívia abriu o porta-malas devagar demais.

O estepe estava ali. O macaco também. Ferramentas que pareciam exigir um tipo de conhecimento que ela definitivamente não possuía.

A rodovia estava quase vazia. O vento da noite soprava frio contra a pele exposta dos braços. Ela olhou ao redor e sentiu, pela primeira vez, o peso real de estar sozinha.

Sem celular.

Sem ajuda.

Sem ideia do que fazer.

— Perfeito — murmurou para si mesma.

O som de um carro se aproximando fez seu corpo enrijecer automaticamente.

Faróis altos iluminaram tudo. O acostamento, o carro, o rosto dela. Ela levou a mão ao rosto para proteger os olhos.

O carro diminuiu. Parou.

O coração dela disparou tão rápido que chegou a doer. Ótimo. Era assim que as histórias ruins começavam.

A porta abriu. O som de sapatos no asfalto.

Passos firmes, controlados. Não apressados. Não hesitantes.

— Boa noite.

A voz veio antes que ela decidisse se corria ou fingia confiança.

Ela abaixou a mão devagar. E por um segundo, o medo perdeu força.

Ele não tinha a aparência de ameaça. Muito pelo contrário. Terno grafite impecável, gravata levemente afrouxada. O tipo de homem que parecia mais deslocado ali do que ela.

Mas aparência não era garantia de nada.

Ela cruzou os braços, numa tentativa de recuperar o controle.

— Depende — respondeu. — Você costuma parar em rodovias escuras para abordar mulheres sozinhas?

A pergunta saiu mais firme do que ela realmente se sentia.

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso. O canto da boca dele se ergueu devagar.

— Só quando elas parecem estar prestes a declarar guerra contra o próprio carro.

O comentário arrancou dela um quase sorriso. Quase.

Ele manteve distância. Não se aproximou além do necessário.

— Precisa de ajuda?

Ela hesitou.

Se ele fosse embora, talvez ninguém mais parasse. Talvez o próximo carro não tivesse o mesmo tom de voz.

— Meu pneu estourou. — Ela apontou para trás. — E eu esqueci o celular em casa, porque claramente tomo decisões brilhantes sob pressão.

O olhar dele desceu até o pneu, avaliando a situação com calma prática.

— Tem estepe?

— Tem. Eu só… não sei usar.

Ele soltou um riso baixo, sem deboche.

— Posso trocar para você.

A simplicidade com que ele disse aquilo a desarmou um pouco. Não havia insistência. Nem segunda intenção explícita.

Apenas certeza.

Ele tirou o paletó com movimentos fluidos, dobrou com cuidado e colocou sobre o capô do próprio carro. Arregaçou as mangas da camisa com naturalidade, como se aquilo fosse rotina.

Ela percebeu, com um leve incômodo, que ele era mais alto de perto. Ombros largos. Postura reta. Seguro demais para alguém que acabara de parar numa rodovia para ajudar uma desconhecida.

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