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Sasha
O espelho à minha frente reflete uma imagem que mal reconheço. Não sou eu, Sasha, a estudante de arquitetura com sonhos de liberdade e independência. Sou uma noiva, vestida de branco, um símbolo de pureza e sacrifício, pronta para ser entregue em um altar que mais parece um palco de um drama grego. As mãos da maquiadora movem-se com uma precisão quase cirúrgica sobre meu rosto, tentando camuflar as olheiras profundas e a palidez que se instalou em mim nas últimas semanas. Cada pincelada é um lembrete da farsa que estou prestes a viver.
As lágrimas, que eu vinha segurando com todas as minhas forças, teimam em rolar, quentes e silenciosas, traçando caminhos úmidos pela minha pele. Elas não são lágrimas de alegria, nem de nervosismo típico de uma noiva. São lágrimas de luto, de raiva, de uma dor que se recusa a cicatrizar. Choro por Elena, por sua vida interrompida, por sua promessa que agora pesa sobre meus ombros como uma âncora. Choro pela minha própria juventude roubada, pelos sonhos que se desfazem como castelos de areia sob a maré implacável do destino.— Sasha, pare de chorar! — a voz de minha mãe, Leila, corta o ar com uma frieza que me gela a alma. Ela está parada atrás de mim, a imagem da perfeição em seu vestido de seda, os olhos avaliando cada detalhe da minha aparência com uma preocupação que não alcança meu sofrimento. — Você vai estragar a maquiagem. Não podemos ter uma noiva com o rosto borrado no dia do seu casamento. O que os Lykaios vão pensar?As palavras dela são como facas, perfurando a pouca dignidade que me resta. Não é sobre mim, nunca é sobre mim. É sobre a reputação da família, sobre a imagem impecável que precisa ser mantida a qualquer custo. Engulo o choro, forçando meus músculos faciais a se acalmarem, mas a dor dentro de mim se intensifica, transformando-se em uma raiva silenciosa e ardente. Minha mãe não vê a filha que sofre, mas a peça que precisa estar perfeita para o grande espetáculo. A maquiadora, com um suspiro discreto, retoma seu trabalho, tentando consertar o estrago das minhas lágrimas. Respiro fundo, tentando encontrar um ponto de equilíbrio em meio ao turbilhão de emoções. Olho para o pequeno Leonardo, que dorme tranquilamente em seu berço improvisado no canto do quarto. Ele é a minha âncora, a minha razão. Por ele, por Elena, eu farei isso. Serei a noiva perfeita, a esposa obediente, a mãe dedicada. Mas por dentro, juro a mim mesma, serei uma fortaleza inexpugnável. Ninguém, nem mesmo o homem que me espera no altar, terá acesso à minha alma.
Pisco os olhos rapidamente. Não posso chorar. Já tentei, hoje de manhã, antes de qualquer um acordar, quando me tranquei no banheiro e deixei o chuveiro aberto para abafar o som. Agora não. Agora preciso ser a estátua.
Ouço o som dos saltos no chão de mármore, compassado e implacável como um metrônomo.
— Você está apresentável?
Ela entra no cômodo sem esperar resposta, avaliando-me de cima a baixo com aquele olhar que aprendi a reconhecer desde criança — o olhar de inventário, de auditoria. Não é o olhar de uma mãe para uma filha. É o olhar de uma gestora verificando se o produto está pronto para entrega.
— A maquiagem está um pouco carregada nos olhos — ela diz, inclinando a cabeça ligeiramente.
— São as olheiras — responde a maquiadora, com delicadeza. — Estou cobrindo.
Minha mãe faz um som ambíguo pela garganta, algo entre aprovação e ressalva, e vai até a janela. Lá fora, a Grécia se oferece como um cartão-postal cruel: o mar Egeu brilhando sob o sol do meio-dia, as oliveiras antigas dobrando levemente com a brisa, a brancura da cal nas paredes da vila. Lindo. Tudo lindíssimo. Como se a beleza do cenário pudesse redimir o que está prestes a acontecer.
— Os Lykaios já chegaram — ela diz, sem se virar. — A família inteira. Inclusive o pai do Átila, que raramente aparece em eventos assim. O que significa que esse casamento importa para eles tanto quanto importa para nós. — Uma pausa calculada. — Então você vai entrar naquela capela, vai sorrir, vai dizer o que precisa ser dito e vai fazer isso com dignidade. Pela memória de Elena, se não conseguir fazer por mais nada.
O nome dela na boca da minha mãe me atravessa como uma faca.
Pela memória de Elena. Como se Elena fosse um argumento. Como se a morte da minha irmã fosse uma moeda que Leila pudesse usar para comprar a minha obediência.
— Eu sei o que tenho que fazer — eu digo. A minha voz sai mais fria do que eu pretendia.
Ela finalmente se vira e me olha. Por um segundo — apenas um — vejo algo nos olhos dela que não é cálculo. Algo que parece dor verdadeira, breve e imediatamente abafada, como uma chama que o vento mata antes que possa crescer. Depois volta a ser a Leila de sempre.
— Bem — ela diz, e sai.
Eu respiro. Fundo. Uma vez. Duas.
No canto do quarto, no pequeno berço improvisado com travesseiros e mantas, o Leonardo dorme. Ele tem cinco meses e não entende nada do que está acontecendo, o que, neste momento, me parece o único ato de misericórdia do universo. Ele respira em ritmo tranquilo, as mãozinhas fechadas perto do rosto, completamente alheio ao drama ao redor.
Eu o olho e algo dentro de mim se aquieta — não resolve, não cura, mas aquieta.
Por você, penso. E por ela.
Elena me pediu que cuidasse dele. Não com palavras — não houve tempo para palavras, no final. Mas eu sei. Conhecia minha irmã melhor do que me conhecia. E sei que ela teria feito o mesmo por mim, sem hesitar, sem condição.
Me levanto do banco da penteadeira. O vestido branco arrasta levemente no chão com um sussurro de tecido. As fitas nos cabelos — ornamento da tradição grega, escolhido pela sogra que ainda nem conheço — cintilam com o reflexo da luz. Pareço saída de outra época. Pareço outra pessoa.







