Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio é subitamente quebrado. Ouço passos firmes e decididos atrás de mim, o som de sapatos de couro batendo contra o piso de pedra. Me viro lentamente, o coração saltando na boca, para ver Átila entrando na cozinha. Ele está vestido formalmente, uma imagem de poder e sofisticação que me atinge como um soco no estômago. A camisa social azul-clara, impecavelmente passada, está com os primeiros botões abertos, e a calça sob medida abraça suas pernas longas com uma perfeição irritante.
Por um momento, fico paralisada, surpresa ao vê-lo tão bem vestido tão cedo. A roupa realça seus ombros largos, a força de seus braços e sua postura confiante, quase arrogante. Algo em sua presença, no modo como ele domina o espaço ao seu redor, me faz sentir uma atração inesperada, um calor súbito que sobe pelo meu corpo, colorindo minhas bochechas de um rubor que tento desesperadamente esconder. Ele é o meu inimigo, eu repito mentalmente, mas meus olhos teimam em admirar a obra de arte que ele é. Ele está com uma expressão séria, os olhos cinzentos como o mar antes de uma tormenta, mas vejo nele uma força, uma determinação que não percebi com tanta clareza antes. Há uma autoridade natural nele que me intimida e me atrai ao mesmo tempo. Tento manter minha compostura, endireitando as costas e segurando a xícara com mais firmeza, sabendo que precisamos encontrar uma maneira de conviver, de seguir em frente em meio a esse campo minado que se tornou nossa vida. — Bom dia — digo, minha voz saindo mais firme do que eu esperava, mas sem a hostilidade que costumo usar como escudo. — Bom dia — responde Átila, sua voz grave ecoando pelas paredes da cozinha, igualmente firme, mas com uma nota de distanciamento que me faz sentir um aperto no peito. — É bom que tenha levantado cedo. Leo daqui a pouco estará aqui com sua família. Eles o trarão em breve. Ele se aproxima da bancada, mas não para o café. Ele parece estar com pressa, uma energia inquieta emanando dele. — Faça as honras com seus pais e receba o menino — ele continua, sem me olhar diretamente. — Eu vou sair. Tenho assuntos urgentes para resolver na sede dos hotéis. — Sair? — pergunto, a surpresa transbordando em minha voz. — Mas o Leo está chegando... achei que passaríamos o dia juntos, como... como uma família. A palavra "família" soa estranha em meus lábios, quase como uma traição. Átila finalmente me olha, e a intensidade de seu olhar me faz vacilar.**Átila**
Observo Sasha por um momento, a luz da manhã destacando a palidez de seu rosto e a determinação em seus olhos verdes. Ela parece tão pequena naquela cozinha imensa, e ainda assim, exala uma força que me surpreende a cada segundo. Eu sei que minha presença aqui só aumenta a pressão sobre ela, um lembrete constante do contrato que assinamos com nossas vidas.
— Vou sair, Sasha — repito, minha voz saindo mais suave do que eu pretendia. — Acredite, será menos tensão para todos nós. Leo merece um ambiente tranquilo, sem o peso das nossas discussões ou do nosso silêncio desconfortável. E eu... eu não sou muito bom em representar o papel do marido apaixonado quando o ar entre nós está carregado de eletricidade e ressentimento.
Sasha desvia o olhar para a xícara de café, parecendo ponderar minhas palavras. Vejo o conflito em seu rosto, a luta entre o alívio de me ver partir e o medo das aparências que ela ainda se sente obrigada a manter.
— Mas... mas o que eu digo para os meus pais? — ela pergunta, a voz falhando levemente. — Minha mãe... ela estranhará que você esteja ausente de casa logo no dia seguinte ao casamento. Para ela, a imagem da família perfeita é tudo o que importa. Como vou explicar que meu marido me deixou sozinha na nossa primeira manhã na Grécia?
Sinto uma pontada de impaciência, mas tento manter a calma. O mundo de Sasha é feito de regras e expectativas sociais que eu aprendi a desprezar há muito tempo.
— Diga a eles o que for necessário para mantê-los satisfeitos — respondo, dando de ombros. — Diga que houve uma emergência inadiável no escritório, um problema em um dos hotéis que só eu poderia resolver. Eles são gregos, entendem que o dever com o império vem antes de quase tudo. Ou então... — faço uma pausa, um sorriso amargo curvando meus lábios — ...diga a verdade. Diga que nossa noite de núpcias foi um fracasso retumbante e que eu não suporto olhar para você sem lembrar do quanto esse casamento é uma farsa.
Ela se levanta bruscamente, como se minhas palavras a tivessem queimado. O barulho da cadeira arrastando no piso de pedra ecoa como um tiro. Sem dizer uma palavra, ela segue até a pia, as costas tensas, e começa a lavar sua xícara com uma energia desnecessária. O som da água correndo preenche o silêncio pesado que se instalou entre nós.
— E você? — ela questiona, sem se virar, a voz abafada pelo barulho da água. — Vai para o escritório mesmo? Ou vai procurar consolo em algum lugar que te lembre da vida que você tinha antes de ser forçado a se casar com uma "menina"?
Eu rio. É uma risada seca, sem alegria, que brota da ironia da situação. Claro que eu rio. A pergunta que ela fez é tão absurda quanto o fato de estarmos aqui. Ela me rejeitou na noite de núpcias com um desprezo que ainda arde em meu ego, deixou claro que eu era o último homem na terra que ela desejaria, e agora, aqui estamos, tentando manter a fachada de um casamento que não começou da melhor maneira. Ela age como se tivesse algum direito sobre meu paradeiro, quando na verdade, tudo o que ela quer é que eu desapareça.
Sasha para de lavar a xícara, os ombros caindo levemente. Ela escuta minha risada e pisca várias vezes, acredito que tomando consciência da contradição em suas próprias palavras. O silêncio que se segue é ainda mais denso.
— Está certo — ela diz finalmente, a voz baixa, quase um sussurro. — Direi que houve uma emergência no escritório e que você precisou sair para resolver algumas coisas. É a mentira mais conveniente para todos.
Sorrio para as costas dela, um sorriso que não chega aos olhos, um gesto vazio de vitória em uma guerra onde ninguém ganha.
— Exatamente. Uma mentira conveniente para uma vida de conveniência. — Caminho em direção à porta, mas paro antes de sair. — Ah, antes que eu me esqueça, para que você não se sinta tão perdida nesta casa... tem uma senhora que cuida das refeições, a Sra. Eleni. Ela chegará lá pelas dez horas. Há uma empregada também, Maria, que cuida da limpeza. Ambas chegam no mesmo horário e ficam até concluir suas tarefas. Elas têm a chave, então não se assuste caso encontrá-las perambulando pela casa. Elas são discretas e não farão perguntas.
— Obrigada por me avisar — ela responde, finalmente se virando. O rosto dela está composto novamente, a máscara de frieza de volta ao lugar. Mas então, ela inclina a cabeça, um brilho desafiador surgindo em seus olhos verdes. — Mas só uma dúvida que não quer calar, Átila... Já vai quebrar seus votos logo no primeiro dia? Vai procurar na rua o que não teve coragem de conquistar aqui dentro?
O golpe me atinge em cheio. A audácia dela, a forma como ela questiona minha integridade depois de tudo, faz meu sangue ferver. Eu a encaro, a tensão entre nós quase palpável, e por um momento, a vontade de provar a ela o quanto ela está errada é quase incontrolável. Mas eu apenas respiro fundo, apertando as mãos ao lado do corpo. O "bom coração" que meu tio tanto preza me impede de dar a resposta cruel que ela merece.







