Mundo de ficçãoIniciar sessãoTalvez seja isso que precise ser, por agora. Uma outra pessoa. Sasha-de-branco. Sasha-que-cumpre-a-promessa. A verdadeira Sasha — a que chora no chuveiro, a que odeia tudo isso, a que jura que não vai se deixar engolir por essa vida — essa fica guardada em algum lugar dentro do peito, protegida, intacta.
Pego meu buquê. As flores têm cheiro de ervas mediterrâneas. Lavanda e alecrim e algo que não consigo identificar.
Estou pronta. Pronta para entrar naquele corredor e caminhar em direção a um homem que nunca vi, que carrega um sobrenome que associo à dor, que vai ser meu marido por força de um acordo que nenhum de nós dois escolheu. Ele é um Lykaios, o sobrenome que carrega a culpa pela morte da minha irmã, Elena, e pela dor que dilacera minha alma.
A música começa quando franqueio a entrada da capela.
É uma melodia grega antiga, tocada em bouzouki, e o som desce pelo corredor como algo que já existia antes de mim e vai continuar existindo depois. Dezenas de rostos se viram. Sinto cada olhar como pressão física — a curiosidade dos que não me conhecem, a expectativa dos que conhecem minha família, a compaixão mal disfarçada dos poucos que sabem o que aconteceu com Elena.
Mantenho o queixo erguido.
Cada passo é uma escolha.
Cada passo em direção ao altar é um ato de rebeldia silenciosa, uma afronta ao destino que me foi imposto. Estou prestes a me casar com um homem que nunca vi antes e, por tudo o que ele representa, já odeio Átila Lykaios com cada fibra do meu ser.
E então — porque a vida tem esse tipo de crueldade precisa — eu o vejo.
Ele está no altar, de costas ligeiramente inclinadas para mim enquanto conversa em voz baixa com o padrinho. Terno escuro, corte impecável, a postura de quem não precisa esforço para ocupar um espaço — ele simplesmente o ocupa, como gravitação. Quando sente o murmúrio na sala, vira-se.
Nossos olhos se encontram.
E eu, que havia me preparado para indiferença — que havia ensaiado a indiferença, que havia me prometido indiferença — não consigo, por um segundo inteiro, me lembrar do que estava sentindo antes desse momento.
Átila Lykaios é o tipo de belo que parece injusto. Átila é como uma visão dos deuses gregos, uma figura imponente que parece ter saído de um mito antigo. Possuidor de traços marcantes, dono de um rosto perfeito, esculpido com uma precisão que beira a irrealidade.
Traços marcados, pele escura de sol grego, olhos de um cinza que não é comum, não é a cor de chuva nem de asfalto — é a cor do mar antes da tempestade, carregado de algo que não tem nome. Ele me olha com uma intensidade que não é arrogância, ou pelo menos não é só arrogância. Há algo mais ali. Algo que parece tão desconfortável para ele quanto é para mim.
Seus cabelos escuros, quase negros, emolduram um semblante sério, e seus olhos cinzentos, de um tom que lembra o céu tempestuoso, são intensos, penetrantes e parece atravessar minha alma, desnudando meus segredos mais profundos.
Sua presença imponente preenche todo o espaço ao redor, dominando o ambiente com uma aura de poder e mistério e fazendo-me questionar tudo o que penso saber sobre mim mesma. Seus traços são como obras de arte, cada linha, cada curva, perfeita em sua simetria, e sua postura irradia uma confiança que me deixa sem fôlego e uma mistura de admiração e ressentimento que me confunde.
Engulo em seco.
Ele é o inimigo, lembro a mim mesma. Lykaios. O nome que aparece no processo. O nome que Elena nunca devia ter conhecido.
Continuo andando.







