Mundo de ficçãoIniciar sessãoPor que isso não me é surpresa? A ameaça é tão típica dele, tão previsível. O peso das palavras de Petros cai sobre mim como uma tonelada de tijolos, esmagando qualquer resquício de esperança. Eu sempre soube que meu tio era um homem implacável, mas nunca imaginei que ele iria tão longe para me obrigar a cumprir suas expectativas. Ele está me encurralando.
— Eu preciso de tempo para pensar — digo finalmente, a voz carregada de cansaço, de uma exaustão que vai além do físico.
— Você tem até o final da semana para dar sua resposta — responde Petros, virando-se para sair. — Não demore demais, Átila. O futuro de nossa família depende disso. Eu não vou durar muito tempo e estou colocando meu coração em suas mãos. Não me decepcione.
Quando meu tio sai do meu quarto, levanto-me da cama, o corpo pesado e a mente em turbilhão. O cheiro de perfume barato ainda está no ar, misturado com a ressaca que já começa a latejar na minha cabeça. Caminho até a janela, olhando para o céu de nuvens pesadas como se anunciasse a tormenta que está prestes a acontecer. O mundo lá fora parece tão indiferente à minha própria tempestade interna.
Casar-me? Criar Leo como se fosse meu próprio filho? Essas responsabilidades parecem tão distantes da vida que tenho vivido, uma vida de prazeres efêmeros e compromissos vazios. E se eu me recusar? Petros foi claro: o ostracismo. A palavra reverbera na minha mente com um peso quase tangível. Seria banido da família, condenado a uma existência solitária e sem apoio. E meu tio é influente o suficiente para acabar com minha vida profissional, mas não é isso que me incomoda. Eu passo a mão pelos cabelos desgrenhados, tentando organizar meus pensamentos. A imagem de Leo, o filho de Ícaro, surge na minha mente. Um menino inocente, desamparado pela tragédia da morte de seus pais, como um dia eu fui. É uma responsabilidade que me assusta, mas que também me atrai de uma forma estranha.
E Sasha... Como os pais dela permitiram tal acordo? A garota acabou de sair da adolescência. Dezoito anos? Recordo-me vividamente como eu era nessa idade! Tão cheio de sonhos e incertezas, tão despreparado para lidar com as complexidades da vida adulta. Como Sasha, eu estava apenas começando a descobrir quem eu era e o que queria da vida...
"Theós! (Deus!) Será que eu posso fazer isso?" murmuro para mim mesmo, minha voz um eco solitário no quarto vazio. Nunca me vi capaz de me entregar verdadeiramente a alguém, o que torna a resposta para essa questão ainda mais esquiva. O trajeto em direção à redenção parece ser uma estrada árdua, repleta de sacrifícios que sempre evitei. Contudo, há uma faísca de esperança, uma chance de que este momento seja a oportunidade há tanto aguardada para demonstrar que sou mais do que esse vazio que me consome. Eu me viro, decidido a encarar essa nova realidade. O futuro é incerto, e as expectativas são esmagadoras, mas fugir não é mais uma opção. O tempo de autocomiseração acabou.
Caminho até o banheiro, decidido a começar a me limpar, não apenas fisicamente, mas espiritualmente. A água fria me desperta de um torpor que parece ter durado anos. Quando saio do chuveiro, me sinto um pouco mais claro, um pouco mais preparado para o que vem a seguir. A decisão está tomada: meu casamento não será uma imposição, mas uma escolha pessoal. A proteção da criança é a motivação dos meus passos em direção ao altar, longe das garras distorcidas do meu tio. Sei que preciso confrontar Petros. A ideia de encará-lo sempre me traz uma sensação de ansiedade, mas agora, com uma resolução firme, sinto um peso ser removido dos meus ombros. Caminho pelo corredor e sigo até minha sala, meu tio ainda está no sofá, tomando uma dose de uísque. Ele levanta os olhos para mim, a expressão séria, mas não mais séria que a minha, ele percebe.
— Pelo visto já tomou sua decisão? — pergunta ele, sem rodeios. Assinto, dando alguns passos à frente.
Assenti dando alguns passos à frente. Inspirei profundamente antes de falar.
— Sim, tomei minha decisão — comecei, tentando manter a calma. — Vou me casar com essa jovem, mas não por causa das suas ameaças. Petros ergueu uma sobrancelha, surpreso. — Ah, é? E o que te fez mudar de ideia? Olho diretamente nos olhos dele, a voz firme e clara. — Por causa do menino, ele fez com que eu me lembrasse de mim mesmo. Uma criança inocente, sem culpa pelo que aconteceu e que não deve pagar pelos erros dos outros. —Ótimo! —Mas eu tenho uma exigência a fazer. —Exigência? —ele questiona e trava a mandíbula, ele não gosta nada disso—E quais são suas exigências? — perguntou ele, a voz cheia de autoridade. —A criança merece uma chance de crescer em um ambiente saudável, acolhedor...com espaço para correr, brincar e ser apenas uma criança. Eu sempre quis essas coisas para mim, mas nunca pude tê-las. Petros fica em silêncio por um momento, avaliando minhas palavras. Finalmente, ele inclina a cabeça, como se estivesse ponderando sobre minha determinação. — E? — Não moraremos em um quarto de hotel da família. Leo precisa de um lugar com espaço, um quintal. Ele precisa de um lar de verdade, não de uma prisão dourada. Eles vêm morar aqui, comigo, aqui, na minha casa. Esforço do meu trabalho. Estou pagando as prestações ainda, mas ela é minha. Petros me observa por um longo momento, e pela primeira vez, vejo nele uma leve rachadura em sua fachada implacável. Finalmente ele assente. — Muito bem, Átila. Se isso é o que você deseja, assim será. Mas lembre-se, estou confiando a você o futuro de Leo. Faça esse casamento acontecer e não me decepcione. Acabou essa sua vida de mulheres. Mantenho meu olhar fixo no dele, sentindo o peso da minha nova responsabilidade. Petros pode tentar moldar o futuro à sua maneira, mas eu encontrei minha própria razão para seguir em frente, e essa razão é Leo. E aquela pobre garota, que não deve ter sido afortunada com os pais. — Não vou decepcioná-lo, tio. Mas vou fazer isso do meu jeito, não do seu.






