Ela me chamou de diabo, e talvez eu seja. Mas se eu sou o diabo, ela é o pecado que eu não consigo parar de desejar.
Átila
Saio daquela cozinha quase em uma fuga, meus passos ecoando com uma urgência que não condiz com a imagem de autocontrole que eu tento projetar. O cheiro de Sasha, aquela mistura de café e da doçura natural da sua pele, ainda parece impregnado em minhas narinas, me perseguindo. Entro no meu sedã preto, um carro que exala sobriedade e poder, e fecho a porta, deixando o silêncio do interior me envolver por um breve segundo. Mas o silêncio não ajuda; ele apenas amplifica o turbilhão de emoções que aquela garota provoca em mim.
Ligo o motor e saio dirigindo sem destino pelas estradas sinuosas da Grécia, acelerando mais do que o necessário, apenas para sentir a vibração do carro e o vento que entra pelas frestas, tentando clarear uma mente que se tornou um labirinto de desejos proibidos e deveres amargos. Enquanto observo o painel do carro, percebo que até minha escolha de veículo reflete o homem que me tornei — ou o homem que sempre tentei ser. Nunca considerei comprar um carro esportivo barulhento ou chamativo. Meu sedã é sólido, seguro, feito para proteger. Percebo, com uma pontada de melancolia, que no fundo, sob toda a minha rebeldia e as noites de libertinagem, eu sempre desejei criar raízes. Sempre quis algo que fosse real, algo que permanecesse.
Eventualmente, após quilômetros de asfalto e pensamentos desconexos, encontro um pub distante, encravado em uma vila costeira onde os turistas raramente chegam. É um lugar discreto, com paredes de pedra e vigas de madeira escura, perfeito para um homem que quer se esconder dos olhares curiosos da elite grega e da pressão esmagadora que o sobrenome Lykaios carrega. O pub está quase vazio àquela hora da manhã, um refúgio de sombras e silêncio. As luzes são baixas, âmbar, criando um ambiente acolhedor que parece abraçar minha solidão.
Escolho um assento no canto mais afastado, onde a penumbra é mais densa, e peço um trago duplo de uísque. O líquido âmbar brilha suavemente à luz fraca do balcão, e o aroma forte e amadeirado do álcool me envolve, oferecendo a promessa de um momento de paz, ou pelo menos de entorpecimento. Sento-me, segurando o copo de cristal pesado nas mãos, sentindo a textura do vidro contra meus dedos. Deixo meus pensamentos vagarem, mas eles sempre voltam para o mesmo ponto: ela.
A lembrança da noite passada e do confronto que acabamos de ter na cozinha é uma ferida aberta que se recusa a estancar. O modo como ela me olhou, a intensidade daquele beijo selvagem onde nossas almas pareceram se chocar, a raiva que brilhava em seus olhos verdes e a frustração de não poder possuí-la como eu realmente desejo — tudo isso se mistura em um coquetel de emoções difíceis de digerir. Tomo um gole generoso de uísque, sentindo a queimação familiar descer pela garganta e se espalhar pelo meu peito, um calor que contrasta violentamente com a frieza cínica que eu tento manter por dentro.
A verdade, aquela que eu mal ouso admitir para mim mesmo, é que nunca encontrei alguém como Sasha antes. Ela é um desafio constante, uma força da natureza que não se curva diante do meu dinheiro ou do meu poder. Sua determinação em me odiar é tão cativante quanto sua beleza, e isso me irrita profundamente. Eu deveria ser capaz de ignorá-la, de tratá-la apenas como a guardiã do meu herdeiro, mas a química entre nós é inegável, uma atração gravitacional que me puxa para perto dela toda vez que nossos olhares se cruzam.
Ela me chamou de diabo, e talvez eu seja. Mas se eu sou o diabo, ela é o pecado que eu não consigo parar de desejar. Olho para o fundo do meu copo, vendo meu próprio reflexo distorcido no uísque, e me pergunto quanto tempo mais conseguiremos manter essa fachada antes que tudo exploda em chamas. Eu disse a ela que ia minar suas forças, mas a verdade é que, a cada vez que a toco, são as minhas próprias defesas que começam a ruir.