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Capitulo 2 A ESSÊNCIA DA ESCOLHIDA

Meu nome é Isara.

Para a alcateia, sou apenas um nome em um pergaminho antigo, um contrato assinado com o sangue de dois territórios que nunca se entenderam. Para o conselho de anciãos, sou a "Sangue Sujo" que a Lua resolveu exaltar para cobrir a vergonha de uma linhagem sem rosto. Mas para mim mesma? Eu sou o frio que não pede desculpas. Sou o resultado de um Norte impiedoso e de um Leste que esqueceu como se curva.

Minha aparência humana é um disfarce que a natureza me impôs. Tenho a pele pálida, mas nunca fria; há uma fornalha constante sob a minha derme que me permite caminhar nua na geada sem que meus lábios fiquem roxos. Meus cabelos são negros como as penas dos corvos que vigiam o cemitério da matilha, caindo em ondas pesadas que escondem a marca prateada nas minhas costas aquela cicatriz de luz que pulsa toda vez que o perigo ou o destino se aproximam.

Meus olhos são a minha maior traição. Eles não possuem a cor terrosa da maioria dos lobos comuns. São olhos de um cinza glacial, quase translúcidos, que refletem a luz da lua mesmo quando o céu está coberto. Dizem que quem olha neles por muito tempo consegue ver o reflexo da própria morte ou, pior, a própria verdade nua.

E então, existe o Kael.

O mundo acha que eu o desprezo apenas por orgulho. O que ninguém sabe e o que eu me esforço para enterrar em cada batida do meu coração é que eu sempre estive lá, nas sombras, observando-o. Antes da marca, antes do título de "Escolhida", eu era apenas a garota que via Kael treinar na Pedra Partida. Eu via o suor brilhar em seus ombros, via a determinação bruta em cada golpe dele e sentia um nó na garganta que eu não sabia explicar.

Eu tive uma queda por ele durante anos. Uma queda que parecia um abismo. Kael era o sol da matilha, o herdeiro perfeito, o lobo que todos queriam seguir. E ele? Ele nunca olhou para mim. Eu era invisível. Para ele, eu era apenas a filha de ninguém que perambulava pelas bordas do território. Ele passava por mim e o seu cheiro de madeira queimada e tempestade ficava impregnado nos meus pulmões por horas, enquanto eu lutava para não demonstrar que minha marca ardia só de sentir a presença dele.

Agora, o destino nos pregou uma peça cruel. Ele é o meu prometido por lei, mas ele me olha com ódio. Ele me vê como a fêmea que roubou o seu protagonismo, a "intrusa" que a Lua elevou acima dele. E o pior? Eu preciso fingir que não me importo. Preciso manter o meu queixo erguido e rejeitá-lo em público para que ele nunca sinta o cheiro da minha vulnerabilidade. Kael nunca saberá que, por trás da minha máscara de gelo, existe uma garota que desejou ser notada por ele muito antes de uma profecia nos amarrar.

A Transformação: O Despertar da Luna

Quando a Lua Cheia atinge o ápice e o chamado se torna insuportável, a Isara humana morre para que a Luna nasça.

A transformação não é um processo suave; é um renascimento violento. Meus ossos se quebram e se refazem em frações de segundo, um estalar de galhos secos que ecoa pela floresta. Minha pele rasga para dar passagem a uma pelagem única, algo que a matilha não vê há séculos. Eu não sou uma loba marrom ou negra comum.

Como loba, eu sou uma Luna de Prata. Minha pelagem é densa, de um cinza-tempestade profundo, mas cada fio de pelo parece ter sido mergulhado em mercúrio. Quando me movo, meu corpo emana um brilho metálico, como se eu fosse feita de luz líquida e sombra. Sou maior que qualquer Alfa que já pisou nestas terras. Minhas patas são largas, feitas para esmagar o solo e silenciar o passo ao mesmo tempo. Minhas garras não são apenas osso; são lâminas negras que podem cortar o couro mais resistente.

A marca prateada que carrego como humana torna-se uma listra de luz ofuscante que corre desde o topo da minha cabeça até a ponta da minha cauda. Quando eu uivo, não é apenas um som; é uma vibração que faz as folhas das árvores caírem e o coração dos fracos parar por um segundo. Nessa forma, eu não sou Isara. Eu sou a justiça da Lua. Eu sou a predadora que não conhece o medo.

Kael acha que pode me dominar porque ele é um Alfa de linhagem. Ele não entende que eu não sou apenas uma loba. Eu sou a manifestação de um poder antigo que não aceita coleiras. Ele pode ter o título, mas eu tenho o trono da noite.

O Conflito de Sangue

Minha vida é um campo de batalha entre o que eu sinto e o que eu represento.

Minha herança: Sou filha de dois ventos, o que me dá uma resistência física que nenhum lobo puro-sangue possui. Posso correr por dias sem cansar e meu faro pode detectar uma traição a quilômetros de distância.

Meu propósito: Fechar as feridas de uma alcateia que está apodrecendo por dentro devido à ganância.

Minha dor: Estar ligada a um homem que eu amei em segredo, mas que agora preciso enfrentar como inimigo para manter minha própria integridade.

Kael nunca olhou para mim quando eu era apenas Isara. Agora, ele é obrigado a me ver como sua igual — ou superior. E eu vou garantir que cada vez que ele olhar para mim, ele sinta o frio do Norte e a força do Leste. Eu não serei a sua esposa troféu. Eu serei a sua ruína ou a sua salvação, dependendo de quanto ele ousar tentar me dobrar.

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