A madrugada ainda não havia entregue o turno para o sol quando decidi que o sangue da abominação e o suor da batalha precisavam ser expurgados. Eu não queria o conforto das águas mornas da aldeia, onde as anciãs lavam as feridas dos fracos com panos de algodão. Eu precisava do rio Cobalto, onde a água desce do pico mais alto do Norte, trazendo consigo o gelo que ainda não aprendeu a derreter.
Caminhei até a margem com os pés afundando no musgo úmido. Despi-me da túnica de Kael com uma lentidão que era quase um ritual de desapego. No silêncio da floresta, cada ruído é uma sentença: o estalar de um galho, o bater de asas de uma coruja, o meu próprio fôlego saindo em pequenas nuvens de vapor. Nua, eu era apenas carne, osso e a marca prateada que brilhava fracamente, refletindo a última luz da lua minguante.
Mergulhei.
A água não apenas tocou minha pele; ela a açoitou. Era o frio que eu amava, o tipo de temperatura que faria o coração de um humano parar em segundos, mas que para mim era como voltar ao útero. Nadei até o centro do rio, onde a correnteza é uma fera indomada. Deixei que a força da água lavasse o rastro de morte da Mancha, purificando meus poros e acalmando a loba que ainda rosnava sob minhas costelas.
Eu estava flutuando, os cabelos negros espalhados como uma mancha de tinta na água cristalina, quando o instinto de "ouvido triplo" disparou.
Eu não ouvi um passo. Não ouvi uma respiração. Mas eu senti. O ar mudou de densidade atrás de um salgueiro chorão na margem esquerda. O cheiro veio logo depois, levado por uma lufada de vento oportuna: madeira queimada, pinho e o suor acre de um Alfa que lutou contra a própria natureza para me seguir.
Kael.
Ele estava lá, oculto pelas sombras das folhagens, me observando. Ele não estava em guarda, não estava em patrulha. Ele estava em transe.
Eu poderia ter rosnado. Poderia ter me transformado e rasgado sua garganta por invadir o meu santuário. Mas algo em mim aquela Isara que o observava treinar na Pedra Partida sentiu um prazer sombrio em ser finalmente o centro absoluto do seu campo de visão. Durante anos, eu fui o fantasma; agora, eu era a divindade de prata que ele não conseguia parar de adorar.
Saí da água devagar. Não por modéstia, mas por poder. Cada gota que escorria pelo meu peito, cada movimento que fazia meus músculos se contraírem contra o frio, era um desafio silencioso. Eu sabia que ele estava lá, com os olhos fixos na curva das minhas costas, na marca que pulsava entre as minhas omoplatas como um convite ao sacrilégio.
Parei na margem, de costas para onde ele se escondia. O silêncio era tão pesado que eu podia ouvir o sangue dele bombardeando suas têmporas.
— "A sombra é o lugar dos covardes, Kael." — Minha voz não era um grito; era um decreto que cortava o ar. — "Se quer olhar para a sua Luna, tenha a coragem de fazer isso à luz do dia. Ou o Alfa do Leste só consegue admirar o que não pode dominar quando acha que ninguém está vendo?"
Houve um segundo de hesitação. O mato estalou. Kael emergiu da escuridão do salgueiro. Ele estava sem a armadura de couro, vestindo apenas calças de linho rústico. Seu peito estava marcado pelos hematomas da luta contra a abominação, e seu rosto carregava a expressão de um homem que acabara de ver um milagre e uma maldição no mesmo altar.
— "Eu não vim para dominar." — Ele disse, a voz rouca, quase falhando. — "Eu vim porque o meu lobo não me deu escolha. Desde que voltamos do Vale, o seu cheiro está em todo o meu sistema. Eu fecho os olhos e vejo a prata da sua pelagem. Eu os abro e vejo a arrogância da sua pele."
Ele caminhou até mim, parando a uma distância onde o calor de seus corpos começava a lutar contra o frio do rio. Kael não desviou o olhar. Ele percorreu cada detalhe da minha nudez com uma fome que não era apenas sexual; era a fome de um predador que encontrou sua metade perdida e não sabia se devia se ajoelhar ou atacar.
— "Você é magnífica e terrível, Isara." — Ele sussurrou, estendendo a mão para tocar a marca prateada nas minhas costas. Seus dedos estavam quentes, quase queimando. — "O conselho diz que você é o elo. Meu pai diz que você é a ferramenta. Mas eu... eu olho para você e sinto que toda a minha linhagem foi apenas um prólogo para o momento em que você apareceria."
Virei-me para ele, ficando a centímetros de seu peito. A diferença de altura me forçava a olhar para cima, mas a minha autoridade o fazia parecer menor.
— "Eles acham que o ritual de amanhã selará a minha submissão, Kael. Acham que quando você cravar os dentes no meu pescoço e deixar a sua marca, eu passarei a caminhar dois passos atrás de você." — Toquei o rosto dele, cravando levemente minhas unhas em sua mandíbula. — "Diga-me, Alfa... você se sente capaz de marcar o que pertence à Lua? Você acha que a sua mordida pode conter o oceano que corre nas minhas veias?"
Kael segurou meu pulso, mas não me afastou. Ele o trouxe até os lábios, beijando a palma da minha mão com uma intensidade que beirava o desespero.
— "Eu não quero marcá-la para possuí-la, Isara. Eu quero marcá-la para que o mundo saiba que eu sou o único lobo com coragem suficiente para queimar ao seu lado." — Ele se inclinou, sua testa encostando na minha. — "Deixe-os pensar o que quiserem. Deixe que meu pai acredite que venceu. Mas amanhã, diante de todos, quando eu me unir a você, será o meu juramento de lealdade à Luna de Prata, não o contrário."
A tensão entre nós era um fio de navalha. O desejo, que durante anos foi um abismo de indiferença dele e de sofrimento meu, agora era uma ponte de fogo. Eu podia sentir o Alfa nele despertando, o instinto de proteção misturado à luxúria bruta de quem finalmente reconhece sua fêmea.
— "O amor é uma fraqueza para quem não sabe carregar o peso de um segredo, Kael." — Avisei, sentindo o pulso dele acelerar contra os meus dedos. — "Se você falhar comigo amanhã, se você baixar a cabeça para Velkar quando o sangue começar a correr, eu mesma rasgarei a sua garganta. Não haverá misericórdia para um Alfa que promete o mundo em um banho de rio e entrega apenas sombras na hora do trono."
Ele não respondeu com palavras. Kael selou a promessa com um beijo que tinha o gosto do gelo do rio e a temperatura do inferno. Suas mãos, grandes e calejadas, mapearam meu corpo com uma urgência nova, reconhecendo cada cicatriz, cada linha de força. Ali, no limiar entre a noite e o dia, a hierarquia da alcateia deixou de existir. Não havia o herdeiro do Leste e a "sangue sujo" do Norte. Havia apenas dois predadores destinados a reescrever a história com os dentes.
O sol finalmente rompeu o horizonte, banhando o rio em ouro. Kael se afastou minimamente, seus olhos fixos nos meus, agora carregados com uma clareza que eu nunca vira antes.
— "Vista-se." — Ele disse, entregando-me a túnica que eu havia deixado no chão. — "Amanhã, o mundo verá o nascimento de algo que eles não poderão controlar. E Isara..."
— "Diga."
— "Eu sempre a vi. Eu só não sabia como sobreviver à visão."
Ele virou-se e partiu, desaparecendo na floresta com a agilidade de quem agora tinha um propósito. Fiquei sozinha na margem, o sol aquecendo minha pele pálida. A marca nas minhas costas parou de arder e começou a cantar uma melodia de triunfo.
O ritual de amanhã não seria uma união política. Seria uma declaração de guerra. E eu mal podia esperar para ver o sangue de quem ousasse se colocar no caminho da Luna.