Mundo de ficçãoIniciar sessãoO vestido cerimonial me esperava pendurado na entrada da tenda: tecido cru, fiapos de pele de lobo do Norte, costura de matriarca que carregava o peso de séculos. Tinha cheiro de banho de ervas e silêncio. Quando o vesti, a marca queimou violentamente nas minhas costas. A Lua falou dentro do meu osso: "Vai. Mas vai com tudo. Mesmo que tentem arrancar a alma de ti".
Duas anciãs trançavam meu cabelo, seus dedos ágeis movendo-se como aranhas enquanto os cochichos corriam pela lona da tenda: — "Linda... perigosa demais..." — "Uma marca acesa desse jeito é presságio de guerra." — "Quem nasce ponte, carrega o alvo no peito." Saí da tenda com a cabeça erguida, a pele acesa pelo poder que pulsava em mim. Elora estava lá, fingindo não ver, mas seu faro estava travado na minha direção. Então, Lyra aproximou-se. Jovem, bonita, a flor que o conselho velho usa para distrair o inimigo. O sorriso dela era uma máscara perfeita, mas seus olhos estavam parados, sem vida. Na mão, ela carregava um cálice de prata trabalhada. Líquido rubro, espesso, exalando um perfume hipnótico. Vinho ritual. — "O Alfa pediu para te entregar." — Disse Lyra, a voz treinada na escola da mentira. — "Tradição do Leste. A fêmea bebe antes de ser marcada para selar o elo e aquecer a alma para o vínculo." Passei o dedo no metal frio do cálice, sentindo uma vibração errada. — "Kael pediu isso?" — "Sim." — Ela não hesitou, a mentira fluindo como água. — "Ele disse: 'Dê isso à minha Luna'." Meu peito oscilou. Um lobo que chama sua fêmea de Luna antes da marca fala com o coração, não com a coroa. Aquelas palavras foram a minha fraqueza. Ergui a taça e cheirei o conteúdo: fruta do Vale, resina de pinho, fumaça doce... e, lá no fundo, num porão escondido do perfume, um amargo fino que eu não soube batizar. Manjerona escura? Ou apenas a minha intuição batendo no osso como um tambor de guerra? Olhei ao redor, buscando um sinal. Sora riscava o sal no chão um círculo quebrado em três pontos ao norte. Um aviso de cuidado. Mirla revirava sua bolsa de couro, inquieta. Tarek, meu mestre, estava com os braços cruzados, uma montanha de músculos pronta para a ação. Torren, do Leste, fingia observar as nuvens, mas seu faro tremia. E Elora... Elora estava calma demais. A calma de quem já sabe o final da história. A confiança é a arma preferida das guerras que se vestem de ritual. Eu bebi. Gole lento. Respeitoso. Como manda a tradição que eu tanto questionava. O líquido desceu queimando, mas não como fogo como gelo. Lyra sorriu. Um sorriso que, por fora, era de dever cumprido, mas por dentro escondia um abismo. O cálice escapou da minha mão antes que eu pudesse processar o pensamento. Bateu na pedra do altar um som seco, metálico, completamente errado. Meus dedos começaram a formigar. A nuca pesou como se o céu tivesse caído sobre mim. A luz do sol começou a fazer bordas de fogo, fragmentando a realidade. Meu ouvido virou um lago profundo; as vozes chegavam abafadas, como se alguém falasse comigo do fundo do oceano. — "Está tudo bem, Isara?" — A voz de Lyra veio de longe, debaixo d'água. A marca tentou acender com fúria. Senti a Lua chamando o aríete, tentando arrombar as portas da minha consciência para me manter acordada. Meu lobo rosnou por dentro, pronto para queimar o invasor que corria nas minhas veias. Não era veneno de matar. Era veneno de apagar. Queriam a Escolhida de joelhos, sem alma, para que o Alfa pudesse marcá-la como um animal doméstico. As coisas saíram do foco. Vi Sora avançar, o rosto transfigurado de pavor, jogando sal no ar e gritando na língua antiga. Vi Mirla derrubar seus potes de cura, xingando a própria sorte enquanto corria em minha direção. Vi Tarek levar a mão ao punho da lâmina — uma espada que não deveria ser sacada em rituais de paz. Vi Torren desviar o olhar, a culpa pesando em seus ombros de Beta. E vi Elora. Ela estava meia face por trás da tenda do conselho, a boca curvada em um triunfo silencioso. Calma demais para quem deveria estar assustada. O chão veio me buscar com a brutalidade de uma avalanche. Antes que a pedra me segurasse, uma única certeza me manteve lúcida por um milésimo de segundo: Kael não sabia. Ele pode falhar na coragem, eu sei. Ele pode temer o pai, eu sei. Mas um cálice adulterado com veneno de paralisia não era a mão dele. Kael queria me conquistar, não me anestesiar. A escuridão subiu pelos meus tornozelos, engoliu meus joelhos e afogou meus pulmões. O mundo abriu a boca no meio do dia e me tragou para o vazio. Mas no último fio de luz, antes do apagão total, eu fiz um juramento silencioso que reverberou pela floresta: "Se eu cair, eu levanto. E quando eu levantar, estarei com fome."






