Narrado por Isara
A clareira não era um lugar de celebração; era um abatedouro de vontades. O cheiro era uma mistura densa de seiva congelada, couro curtido no suor e a cinza gélida de fogueiras que já não aqueciam mais ninguém. Mas o que realmente cortava o ar era o fio metálico de ferro: sangue fresco, vibrante, traçando uma linha de demarcação sagrada no solo. Até os corvos, aquelas sombras insolentes que costumam zombar da morte, estavam estáticos nas copas retorcidas das árvores do Norte. O mundo havia parado para assistir à minha queda, ou ao meu triunfo.
Eu não caminhei. Eu invadi o espaço em passo de lobo uma cadência de predação que não reconhece dívida. Eu não devia nada a Kael, aquele herdeiro de linhagem mofada. Não devia nada à alcateia que me olhava como uma ferramenta de paz. Não devia nada nem mesmo à Lua que me marcou. Eu não carrego a marca; eu sou a marca.
Meus pés descalços morderam a terra endurecida pelo gelo. As pedras angulares enfiaram agulhas na minha sola, mas a dor era um luxo que eu não me permitia sentir. Uma loba nascida sob o estigma do eclipse aprende a enxergar no escuro absoluto antes mesmo de abrir as pálpebras pela primeira vez.
Os olhos deles eram lanças apontadas para o meu peito. Machos com o tórax estufado, exalando um odor de testosterona e uma dominância frágil, ocultando rabos que, por instinto, queriam se encolher. Fêmeas com os queixos curvados por séculos de submissão, cujas espinhas foram moldadas para carregar o peso de decisões alheias. Anciãos que exalavam o perfume adocicado do fim, e crianças que esqueciam de respirar, hipnotizadas pelo sacrilégio que eu representava.
No centro de tudo, o Altar de Pedra. Três degraus de rocha bruta que separavam o solo comum do destino manifesto. E ali, a trilha de sangue do lobo que eu mesma abati no caminho. Uma loba marcada não recebe oferendas; ela entrega o troféu de sua própria caça para provar que a carne que consome é conquistada, não doada.
Kael me aguardava no topo. O Leste pesava em seus ombros como uma capa de chumbo, o sobrenome gravado em seus ossos como uma maldição de poder. Seus olhos tinham a cor de cinza de incêndio, opacos e perigosos. Sua marca era um traço escuro, bruto, tatuado à força por gerações de homens que tinham pressa de domesticar o destino. Ele era o herdeiro legítimo. Eu era o elo que eles acreditavam poder forjar com fogo e obediência.
Que pensassem. Eles não conheciam a anatomia do meu espírito. Acreditavam, em sua arrogância de Alfas, que prometer é o mesmo que possuir. Que anunciar um vínculo místico me faria dobrar os joelhos. Que a palavra "prometida" era um sinônimo educado para "propriedade". Eu não fui feita para caber em molduras. Fui temperada na neve eterna, curei minha espera com dentes afiados e aprendi a gramática do silêncio com o vento que corta as montanhas. Meu lobo interior não apenas rabeia contra as grades; ele ri da própria existência do metal.
Subi os degraus com uma lentidão calculada. Queria que cada segundo pesasse como uma hora. Queria que eles sentissem o ranger do ar, a tensão elétrica que emanava da minha pele. Nos meus ombros, a pele da primeira caça que realizei no Norte, o couro ainda exalando o respeito da presa. Nos pulsos, as presas de minha mãe em um bracelete de marfim e vingança. E nos meus olhos... uma tempestade de baixa altitude, pronta para devastar qualquer um que confundisse meu silêncio com anuência.
Prometida, sim. Possuída, jamais. Lendas não aceitam coleiras, mesmo que sejam feitas de ouro e misticismo.
— "Isara do Norte." — A voz do ancião era um arranhão de pergunho velho no ar saturado de expectativa. — "Marcada pela Lua, escolhida para guiar, convocada para selar o vínculo com Kael do Leste, o sangue de Alfa."
Meu nome caiu sobre a clareira como um raio em mata seca. Vi a floresta parecer dar um passo para trás. Mantive meu queixo em uma linha paralela ao horizonte, desafiando a gravidade e a história.
— "Aceita ser a promessa viva desta união?" — o velho perguntou. Ele não oferecia uma honra; oferecia uma corda de enforcamento adornada com fitas cerimoniais.
Respirei. O ar frio entrou em meus pulmões como uma lâmina de gelo, purificando qualquer hesitação. Encarei Kael. Ele tentou costurar um domínio ilusório em suas íris, tentando me reduzir a uma fêmea de alcateia. Mas o olfato não engana o predador: eu sentia o cheiro do medo dele, um odor fino e acre. O incômodo de um homem que percebe, tarde demais, que a criatura à sua frente não possui um interruptor de submissão.
— "Aceito o papel." — Minha voz não tremeu. Foi um veredito.
Fiz uma pausa longa, deixando a esperança deles crescer antes de esmagá-la.
— "Mas não aceito o dono."
O silêncio que se seguiu foi violento. O ancião pigarreou, o som ecoando como ossos quebrando. Mães puxaram seus filhotes para perto, como se minhas palavras fossem uma praga contagiosa. Kael franziu o cenho, o orgulho de Alfa mostrando as presas, a vaidade ferida borbulhando sob a derme.
— "Você ousa rejeitar o Alfa antes mesmo da consumação da marca?" — Sua voz era grave, mas carecia da raiz que sustenta a verdadeira autoridade.
Firmei meus pés na pedra sagrada. Senti a energia da terra subindo pelas minhas pernas.
— "Eu ouso ser exatamente o que a Lua escolheu." — Minha resposta foi um soco no estômago da tradição. — "E Ela não me criou para ser a sombra de ninguém, muito menos a sua."
Ele não replicou com palavras. O ódio queimou em seu olhar — um fogo alimentado pelo ego, não pelo dever. Que ardesse. Que as chamas de sua frustração iluminassem o meu caminho de saída.
O ritual prosseguiu porque a lei é uma máquina cega que não sabe como parar. Linhas de sal foram traçadas no chão como prisões simbólicas. O sangue foi vertido em oferenda às raízes do mundo. A fogueira consumiu folhas do Norte e do Leste, criando uma fumaça que tentava harmonizar duas notas dissonantes. Três toques de tambor bateram no osso do mundo, selando o que o conselho desejava: eu era a prometida, a fêmea da paz, o sacrifício diplomático ao herdeiro do Leste.
Por fora, eu carregava o carimbo da alcateia. Por dentro, eu era uma tempestade contando os relâmpagos antes do desabamento total.
A cerimônia se dissolveu em um murmúrio de passos apressados. O silêncio deles era o pavor mascarado de respeito. Kael me lançou um último olhar, uma tentativa patética de manter a altivez enquanto suas costas enrijeciam ao me ver passar. Ele sentiu o tamanho do meu dente. Ele sentiu que a paz que eu trazia tinha o gume de uma guilhotina. E aqueles Alfas que desviavam o olhar? Eles sabiam que o comando deles sempre foi pago com a coluna vertebral de quem eles oprimiam. Mas a minha coluna era feita de granito e luar.
Esperei até que a clareira fosse devolvida aos corvos. Deixei o tambor silenciar e as brasas tornarem-se cinzas inúteis. Quando a noite atingiu a frequência correta, despojei-me da pele da caça. Deixei as presas de minha mãe no chão e caminhei nua pela trilha de musgo. O vento batia contra minha pele como facas de aço, e a terra sugava cada passo meu, reconhecendo sua dona.
No limite do penhasco da Pedra Vazia, o firmamento mudou de humor. Nuvens baixas se arrastavam como um véu de luto. A Lua ainda estava oculta, mas eu a sentia pulsando no meu estômago, um chamado visceral que ignorava a razão. A marca entre minhas omoplatas começou a emanar um calor intenso, uma febre de verdade que reclamava o meu nome original.
Fechei os olhos e abri os braços, oferecendo meu corpo ao vazio. Deixei que o vento me atravessasse. A dor veio primeiro, uma fratura necessária no osso para que a essência pudesse expandir. Depois veio a pele, rasgando-se para dar lugar ao eterno.
Prata líquida correu pela minha espinha como um rio de lava fria. Minhas unhas tornaram-se garras, meus dentes alongaram-se em presas de marfim, e minha pelagem irrompeu como labaredas de platina sob a luz das estrelas. Eu me desfiz da forma humana aquela jaula de rótulos e contratos. Eu me refiz em lobo. Inteira. Absoluta. Fora do alcance de qualquer frase ou promessa política.
Corri.
Desci o penhasco em um ziguezague suicida, rindo com a alma enquanto deixava para trás o nome que tentaram me impor. A mata abriu-se como um útero materno. O mundo tornou-se um borrão de velocidade e instinto. O silêncio não era mais um vazio; era o meu lar.
Meu refúgio era um círculo de pedras ancestrais, oculto entre as dobras das montanhas do Norte. Ali, a voz humana é um ruído esquecido. Ali, alianças são poeira. A marca não é uma bandeira de guerra; é a minha própria respiração. Deitei-me no epicentro do círculo, o pelo úmido pela neblina, sentindo o pulso da terra contra o meu peito.
A Lua finalmente rasgou o véu de nuvens com uma lâmina de luz sagrada. O raio tocou o meu dorso e minha marca respondeu com uma explosão prateada. Ela me reconheceu. Ela sempre sabe quem eu sou por baixo das máscaras.
Ergui o focinho para o infinito e uivei. Um som que não vinha da garganta, mas das profundezas da terra. Um uivo largo, cortante, que estilhaçava o medo e buscava os meus iguais. Era um aviso definitivo para os Alfas que ainda dormiam em seus leitos de palha e ilusão:
— Eu não pertenço a ninguém.