Mundo de ficçãoIniciar sessão— “Significa que se você não a marcar oficialmente hoje, diante do seu pai e do Conselho, vão chamar isso de profanação. E a pena para quem profana uma escolhida da Lua é a morte, Kael. Para ambos.”
— “Eu sei,” — repeti, e minha voz nunca soou tão firme. — “Mas mesmo com o risco, foi a única vez em que eu senti que não era apenas o herdeiro cumprindo um papel. Foi a única vez que me senti vivo.” O silêncio voltou a cair sobre nós. Mas era o silêncio de irmãos de sangue. Torren respirou fundo e levantou-se, colocando a mão pesada sobre o meu ombro. — “Então marca ela, Kael. Marca com o fogo que vocês acenderam naquela floresta. E depois… depois segura o que vier. Porque você já pertence a ela. A única diferença é que hoje o mundo inteiro vai descobrir o tamanho da sua queda.” Ele virou as costas e caminhou até a porta. Antes de sair, parou e olhou por cima do ombro, com um brilho de preocupação que ele tentou esconder. — “E por favor, meu irmão… tenta não foder tudo. O Leste não perdoa erros do coração.” Fiquei ali, sozinho. Com o gosto dela ainda habitando minha boca. Com o cheiro de Isara impregnado na minha pele sob a túnica. Com a coragem pendurada por um fio fino de decisão. E com a certeza de que o meu corpo não era mais meu; era dela. O cheiro da manhã ainda era carregado de umidade e musgo quando o som da correria me atingiu. Passos rápidos, desesperados, batendo contra as pedras da trilha que levava à minha cabana privada. Não era o passo rítmico de um batedor; era a pressa de quem carrega uma notícia que queima. A porta foi escancarada com uma brutalidade que fez o ar vibrar. — “Alfa!” — a voz arfada, entrecortada pelo cansaço e pelo medo, cortou o meu silêncio como uma garra afiada. Era Nerya. Uma loba jovem, de linhagem inferior, conhecida por seguir ordens como se fossem escrituras sagradas. Mas seus olhos… seus olhos estavam dilatados, transbordando uma mistura de pânico e uma sede mórbida de ser a portadora da desgraça. — “Tem… tem uma coisa que você precisa ver. Agora. O Conselho está se reunindo.” — “Fala logo, Nerya,” — ordenei, sem sequer levantar da cadeira, embora meu instinto de Alfa já estivesse em alerta máximo, o pelo da nuca arrepiando. — “É sobre Isara. A Escolhida.” Meu peito travou. Por um segundo, meu coração parou de bater. Não demonstrei. Levantei-me devagar, cada músculo do meu corpo tenso como uma mola prestes a disparar. A presença dela na minha vida era o meu ponto fraco, e o mundo parecia ter descoberto isso rápido demais. — “Onde ela está?” — “Na antiga cabana do lobo de Vigia… aquela que fica escondida perto da clareira baixa. Alguém viu Isara entrando lá furtivamente. E Alfa… ela não saiu sozinha. Tem outro lobo lá dentro com ela.” Minha respiração tornou-se pesada, um rosnado baixo começou a vibrar no fundo da minha garganta, um som visceral que eu mal conseguia conter. — “Você viu isso com seus próprios olhos, ou está repetindo veneno alheio?” Ela hesitou. Apenas por um milésimo de segundo, o tempo de uma traição ser consolidada. — “Sim. Eu vi, Alfa. O cheiro dela… é inconfundível.” O "sim" dela veio limpo, cristalino. Mas o mundo ao meu redor já estava imundo. Fui atrás dela, atravessando a mata com uma velocidade que desafiava os limites do corpo humano. O caminho era curto, mas para mim, cada passo parecia arrastar séculos de tradição e orgulho. O lobo dentro de mim já estava no controle, as garras querendo rasgar a derme, o instinto de posse gritando contra a razão. Mas o homem… o homem ainda segurava um fragmento patético de esperança. Só que a esperança é um vidro fino demais para mãos tão pesadas quanto as minhas. E eu já conseguia ouvir o estalo do vidro quebrando antes mesmo de chegar. Chegamos à cabana de Vigia. O lugar cheirava a abandono e mofo. A porta estava entreaberta, batendo levemente contra o batente com o vento da manhã. O cheiro no ar atingiu meu faro como um golpe de martelo. O cheiro de Isara. Aquele perfume de geada e desejo que eu conhecia tão bem. Mas ele não estava sozinho. Estava misturado ao odor masculino, pungente e familiar de um lobo qualquer, um subordinado, um guarda de fronteira. Entrei. A luz que passava pelas frestas da madeira revelou a cena que destruiria o resto de humanidade que eu ainda possuía. O corpo dela estava estendido sobre uma cama de peles desgrenhadas. Seus cabelos negros, que eu havia acariciado com tanta reverência horas antes, estavam espalhados pelo leito de outro. A túnica estava desalinhada, revelando a pele que eu julgava ser o meu território sagrado. E ao lado dela… o maldito lobo de Vigia. Dormindo o sono dos satisfeitos. Seminu. O braço dele jogado por cima da perna dela com uma intimidade que gritava posse. Uma intimidade que eu nunca tive permissão para exibir em público. Meu coração bateu tão forte contra as costelas que senti dor física. O lobo dentro de mim contorceu-se, a fúria lutando para explodir e reduzir aquele lugar a cinzas. Mas a raiva não veio como um grito de guerra. Ela veio como o gelo. Veio como o frio do Norte que Isara tanto amava, atravessando meus ossos e congelando qualquer resquício de afeto. Veio como o silêncio fúnebre da traição. — “Eles estavam assim quando encontramos,” — murmurou Nerya às minhas costas, sua voz soando como o sibilar de uma serpente satisfeita. — “Disseram que ela bebeu antes do ritual. Talvez tenha exagerado na liberdade dela. Ou talvez… talvez ela tenha escolhido o seu próprio destino, Alfa.” Fechei meu punho até as unhas enterrarem-se na palma da mão, o sangue quente começando a escorrer, mas eu não senti nada. Eu estava anestesiado pela visão do meu próprio fracasso. Dei dois passos para trás, sentindo o ar fugir dos meus pulmões. Olhei uma última vez para ela. Isara. Linda. Macia. A fêmea que despertava em mim o desejo de abandonar tudo para ser apenas dela. Mas ali, naquele instante… ela não era mais a minha Luna. Ela era a faca cravada no meu orgulho. Ela era a prova de que meu pai estava certo: o amor é uma fraqueza que te deixa cego para a lâmina no escuro. Virei as costas. Sem dizer uma única palavra. Sem emitir um único som de dor. Apenas o som surdo do que morre por dentro e não tem o direito de renascer. O ritual me aguardava. A clareira estaria cheia. Os olhares de julgamento do Conselho, os cânticos hipócritas das anciãs, a Lua assistindo a tudo do alto. Mas a fêmea que eu levaria ao centro da roda, a mulher que eu marcaria diante do mundo… não seria ela. Jamais seria ela. Porque minha Luna tinha me deixado no escuro. E um Alfa no escuro, traído e ferido, não é mais um líder. É apenas uma fera sem dono, pronta para devorar quem cruzar o seu caminho.






