Capitulo 4 Isara

Quando estava a caminho da minha cabana, sozinha, fingindo que a noite não tinha me riscado por dentro, o cheiro dela veio primeiro que o corpo.

Elora.

Filha de Beta, herdeira de uma linhagem que vive para servir à sombra dos Alfas, mas que guarda nos olhos a fome de quem quer ser o sol. Elora tem a unha afiada e o olhar mais afiado ainda; uma língua treinada para cortar o que a garra não alcança. Desde o primeiro dia em que pisei neste território, ela farejou o que ninguém queria dizer em voz alta: eu era a ameaça. Mesmo sem tentar. Sobretudo sem tentar.

A clareira respirava curto naquela madrugada. Os pinheiros pareciam em vigília, sentinelas estáticas contra o céu de chumbo. As brasas de ontem seguravam o último calor sob a cinza, e um vento fino, cortante como navalha, penteava a grama contra o sentido natural. O sal do círculo cerimonial desenhava um anel opaco no chão, um limite que separava o sagrado do profano. Minha marca acendeu um lampejo miúdo nas costas — "Tô vendo", disse a Lua no meu osso — e apagou.

Elora estava encostada na pedra cerimonial, os braços cruzados sobre o peito, o queixo alto e uma sobrancelha arqueada como quem tempera o veneno antes da mordida fatal. No pulso, a trança verde que as filhas de Beta usam quando esperam um anúncio de união; no pescoço, duas presas polidas, troféus de uma família que coleciona mortes para provar valor.

— "Veio da floresta?" — A voz dela era mel que arde na ferida aberta.

— "Como sempre." — Respondi, passando por ela sem diminuir o ritmo, dando-lhe o espaço que eu escolhi dar, não o que ela julgava merecer.

Mas o silêncio não alimenta cobras, e Elora precisava morder. Ela veio atrás. Passo leve, quase inaudível, fala cortante.

— "Engraçado... o Alfa também sumiu por umas horas. Vocês andam caçando juntos agora, Sangue Sujo?"

Parei. Enchi o peito não de ar, mas de uma paciência gélida que só o Norte ensina.

— "Se quer saber onde o seu Alfa esteve, tenha a coragem de perguntar a ele. Não a mim." — Falei, sem me dar ao trabalho de virar o rosto.

O riso dela escorreu ironia, espesso como baba de víbora.

— "Não preciso perguntar. Eu vi. Chegaram juntos. Você vestindo a blusa dele, exalando o cheiro dele em cada poro da sua pele. A marca dele no teu pescoço ainda deve estar quente... É isso que você é, Isara? Uma Luna de desejo apressado? Deitou-se com ele antes mesmo do ritual?"

Virei-me. Devagar. Firme. Letal.

Nosso olhar se chocou no ar gélido, e por um segundo o joelho dela lembrou que joelho também sabe tremer. O que ela carregava era um ciúme corrosivo. O que eu carregava era a própria história escrita em prata.

— "Você me vê como ameaça porque nasceu para esperar ser escolhida, Elora." — Falei baixo, deixando o sentido das palavras rasgar o ego dela. — "E eu? Eu nasci para ser temida antes mesmo de ser tocada. Não confunda a minha entrega com a sua submissão."

Ela recuou meio passo, o rosto empalidecendo sob a luz fraca, mas tentou disfarçar com um arqueio de queixo.

— "Você se deita com o Alfa antes da marca oficial e ainda se diz digna de ser Luna? Você é uma mancha na tradição."

— "Eu não me 'deito'. Eu me entrego. Quando eu quero. Para quem eu quero. Se isso te incomoda, se isso te corrói por dentro... talvez seja porque ninguém nunca te quis o suficiente para esquecer o protocolo e te buscar no meio do gelo."

O silêncio que se seguiu foi daqueles que afinam a lâmina da faca. Ela respirou pesado, o ódio borbulhando. Eu não dei espaço para ela se recuperar.

— "Não me meça com a tua régua de Beta, Elora. Enquanto você cobiça um trono apenas para ser vista, eu sou a própria Lua acesa no escuro. Você quer o título; eu sou a essência."

O sol mal tinha riscado o horizonte com um rastro de sangue e as fêmeas já cruzavam a clareira como formigas antes da tempestade. Havia um brilho febril nos olhos delas não de fé, mas de uma expectativa cruel. Queriam ver o que nunca viram: uma marcada assumida como Luna. Ou, o que as divertia mais, uma marcada sendo descartada diante de todos. Este mundo adora pendurar uma loba no altar enquanto prepara o chão para a sua queda.

Acordei com o corpo doendo da noite anterior. Não era uma dor ruim, era a lembrança física dele. Éramos nós.

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