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capitulo 6 O ECLIPSE DO HERDEIRO

Narrado por Kael Velkar

“Ser Alfa não é gritar mais alto. É sangrar em silêncio… sem nunca deixar o sangue pingar no chão.”

Me chamam de Kael Velkar. Sou o único herdeiro de Velkar, o Gélido, o homem que transformou o Leste num império de ossos e disciplina. Nasci sob o açoite do vento das montanhas, onde a neve não cai para enfeitar, mas para punir quem é fraco demais para respirar. Sou o sangue da alcateia mais antiga entre as vivas, uma linhagem que não conhece o calor do afeto, apenas o rigor da guerra.

Aqui, a Lua não é uma mãe; é uma juíza de prata. Aqui, a palavra de um Alfa vale mais que qualquer juramento ancestral gravado nas pedras das cavernas. E o amor… o amor é visto como uma infecção, uma fraqueza que deve ser arrancada da carne antes que comprometa a clareza do comando. Foi nesse chão congelado que me moldaram. Braços largos para sustentar o peso da responsabilidade, costas marcadas por treinamentos que beiravam a tortura, e mãos grandes, pesadas… feitas para esmagar gargantas e segurar o punho da espada. Mas mãos que, por mais que eu lavasse no rio gelado, nunca conseguiram esquecer o toque de seda da pele de Isara.

Fui treinado desde os cinco invernos. Minha infância não teve brinquedos, teve lâminas. Acordava com o estalo do couro do chicote nas costas e dormia sobre a pedra nua, sentindo o frio subir pelos meus ossos. Aprendi cedo que sentir era uma sentença de morte. “Controle, Kael,” — meu pai rosnava, enquanto eu tentava estancar o sangue das minhas mãos na neve — “Você não nasceu para ser amado. Nasceu para ser temido. Um Alfa amado é um Alfa vulnerável.” E eu obedeci. Tornei-me a arma que ele desenhou.

Aos quinze anos, minha primeira transformação foi um espetáculo de dor e perfeição. Sem erros. Sem hesitação. A pele rasgou como pergaminho velho, os ossos romperam-se com estalos secos que ecoaram pela caverna, e o lobo surgiu firme, completo, uma besta de pelos escuros e olhos de fogo, pronta para a caçada. Naquele dia, deixei de ser visto como um garoto. Tornei-me um símbolo. Uma promessa política para eles. Nunca para mim.

Sou feito de silêncios que pesam toneladas. De pensamentos afiados como adagas de obsidiana. Tornei-me o lobo que comanda sem precisar rosnar, que encerra rebeliões com um único olhar gélido e que carrega o peso do trono com a espinha reta mesmo quando a alma clama para se dobrar sob o fardo.

Mas aí… veio ela.

Isara.

Nascida no Norte, onde a floresta uiva em sintonia com os batimentos cardíacos. Ela não apenas pisou no meu território; ela rasgou o meu caminho. Ela não sorriu; ela cravou a sua presença no meu âmago. Quando Isara me olhou pela primeira vez, ela não viu o herdeiro ou o monstro que o Leste criou. Ela me viu. E essa visão foi mais brutal do que qualquer ferida de batalha.

Ela não foi feita para ser minha fêmea submissa. Ela foi feita para ser minha ruína gloriosa. A cada vez que Isara me desafiava com aqueles olhos claros, meu peito apertava de uma forma que o ar rarefeito das montanhas nunca fez. Não era raiva. Era reconhecimento. Porque ela é tudo o que eu nunca pude ser: livre, intensa, forte sem precisar de títulos ou medalhas. Ela não busca a coroa de Luna. Ela é a própria Lua descida ao asfalto de neve.

Disseram-me que o vínculo com ela era uma jogada de mestre, um gesto estratégico para selar a paz entre o Norte e o Leste. Mas a verdade é que, desde que a vi, a paz foi a última coisa que senti. Ela me tira do eixo, quebra minhas muralhas centímetro por centímetro e me reconstrói em um silêncio que grita. Ela me faz querer ser homem antes de ser Alfa. E isso, no meu mundo, é assinar a própria sentença de traição.

O sol ainda era apenas uma ferida pálida no horizonte quando a batida soou na porta da minha cabana de carvalho escuro. Três toques secos. Sem urgência, mas com a autoridade de quem divide o mesmo sangue de batalha.

— “Entra.” — disse, sem me levantar da cadeira de pedra.

Era Torren. Meu irmão de vínculo, não de sangue, mas de alma. Filho do conselheiro Tyvor, mas mais lobo do que qualquer fidalgo que ostenta medalhas no peito. Foi Torren quem me arrastou para fora de um poço de gelo na minha primeira caçada. Foi ele quem costurou os cortes no meu ombro sem tremer. Foi ele quem me viu chorar escondido aos dezessete anos, quando o peso de ser um Velkar pareceu demais para os meus ombros jovens… e ele nunca contou a ninguém. O silêncio dele é a minha segurança.

Ele entrou com a postura de sempre: sem cerimônia, mas com um respeito inabalável. Carregava um odre de couro nas mãos. Água fresca da nascente. Um rito antigo de purificação.

— “Está preparado?” — perguntou, estendendo o odre. — “Hoje é o dia. O dia em que o Velkar mais teimoso da história finalmente vai marcar sua Luna diante de toda a matilha.”

Tomei um gole longo. O líquido desceu rasgando minha garganta. Não por estar gelado, mas por saber que o peso do que viria a seguir era esmagador.

— “Posso te contar uma coisa, Torren?” — perguntei, sem conseguir encarar os olhos do meu melhor guerreiro.

Torren não respondeu de imediato. Ele apenas puxou o banco de pedra e sentou-se à minha frente. Cruzou as botas, as mãos repousando sobre os joelhos, observando-me como quem sabe que o que eu ia soltar era grande. E feio. E perigosamente bonito.

— “Fala.”

Engoli seco, sentindo a secura da mentira que eu vivia. Segurei o odre com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos.

— “Eu me deitei com ela.”

Torren não se mexeu. Nem um músculo. O silêncio na cabana tornou-se tão denso que dava para ouvir o estalar das brasas na lareira. Ele apenas piscou uma vez. Lento.

— “Foi antes do ritual?” — ele perguntou, a voz em um tom tão baixo que era quase um segredo. Em qualquer outra boca, seria um julgamento. Na dele, era a constatação de que o jogo tinha mudado de patamar.

Assenti, sentindo o peso daquela verdade.

— “Na floresta. No refúgio de pedra dela. Ela me deixou entrar, Torren. No corpo… e no resto. Eu senti a alma dela. Eu a marquei antes dos dentes, eu a marquei com o espírito.”

Torren passou as mãos pelo rosto, esfregando a barba rala, uma reação humana que ele raramente demonstrava. Depois balançou a cabeça, soltando um suspiro pesado que carregava o presságio do desastre.

— “Puta que pariu, Kael.”

— “Eu sei.”

— “Você tem noção do que isso significa, não tem?”

— “Significa que não há mais volta para o que eu era.” — respondi, agora encarando-o de frente. — “Significa que a marca já está feita. Mesmo que a Lua ainda não tenha tocado nossa carne no ritual público, nossas almas já estão atadas pelo pecado e pela entrega.”

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