Mundo de ficçãoIniciar sessão🌑 O OLHAR DA LUA CHEIA Autora: Val Veiga SINOPSE: Em terra de lobo, quem não tem dente afiado vira banquete. Isara não nasceu pra ser cura, nem pra costurar aliança de paz. Ela nasceu com o Norte no fôlego e o Leste no faro uma "sangue sujo" que carrega dois ventos no peito e uma marca prateada que arde como fogo sob a luz da Lua. Escolhida por um poder que não aceita covarde, Isara é o pesadelo dos Alfas que acham que mandam em tudo. Enquanto a matilha se perde em ganância e traição, ela "vai pelo frio", escolhendo o caminho que morde porque sabe que a verdade não faz massagem no ego de ninguém. Mas o passado do pai que ela nunca conheceu bate à porta com cheiro de morte e maresia. Agora, com o olhar da Lua Cheia sobre seus ombros, ela precisa decidir: vai ser a chave que destranca um mal antigo ou a garra que vai rasgar a garganta de quem ousa tentar domesticá-la? O uivo dela não é um pedido de socorro. É um aviso.
Ler mais— “Significa que se você não a marcar oficialmente hoje, diante do seu pai e do Conselho, vão chamar isso de profanação. E a pena para quem profana uma escolhida da Lua é a morte, Kael. Para ambos.” — “Eu sei,” — repeti, e minha voz nunca soou tão firme. — “Mas mesmo com o risco, foi a única vez em que eu senti que não era apenas o herdeiro cumprindo um papel. Foi a única vez que me senti vivo.” O silêncio voltou a cair sobre nós. Mas era o silêncio de irmãos de sangue. Torren respirou fundo e levantou-se, colocando a mão pesada sobre o meu ombro. — “Então marca ela, Kael. Marca com o fogo que vocês acenderam naquela floresta. E depois… depois segura o que vier. Porque você já pertence a ela. A única diferença é que hoje o mundo inteiro vai descobrir o tamanho da sua queda.” Ele virou as costas e caminhou até a porta. Antes de sair, parou e olhou por cima do ombro, com um brilho de preocupação que ele tentou esconder. — “E por favor, meu irmão… tenta não foder tudo. O Leste
Narrado por Kael Velkar “Ser Alfa não é gritar mais alto. É sangrar em silêncio… sem nunca deixar o sangue pingar no chão.” Me chamam de Kael Velkar. Sou o único herdeiro de Velkar, o Gélido, o homem que transformou o Leste num império de ossos e disciplina. Nasci sob o açoite do vento das montanhas, onde a neve não cai para enfeitar, mas para punir quem é fraco demais para respirar. Sou o sangue da alcateia mais antiga entre as vivas, uma linhagem que não conhece o calor do afeto, apenas o rigor da guerra. Aqui, a Lua não é uma mãe; é uma juíza de prata. Aqui, a palavra de um Alfa vale mais que qualquer juramento ancestral gravado nas pedras das cavernas. E o amor… o amor é visto como uma infecção, uma fraqueza que deve ser arrancada da carne antes que comprometa a clareza do comando. Foi nesse chão congelado que me moldaram. Braços largos para sustentar o peso da responsabilidade, costas marcadas por treinamentos que beiravam a tortura, e mãos grandes, pesadas… feitas para e
O vestido cerimonial me esperava pendurado na entrada da tenda: tecido cru, fiapos de pele de lobo do Norte, costura de matriarca que carregava o peso de séculos. Tinha cheiro de banho de ervas e silêncio. Quando o vesti, a marca queimou violentamente nas minhas costas. A Lua falou dentro do meu osso: "Vai. Mas vai com tudo. Mesmo que tentem arrancar a alma de ti". Duas anciãs trançavam meu cabelo, seus dedos ágeis movendo-se como aranhas enquanto os cochichos corriam pela lona da tenda: — "Linda... perigosa demais..." — "Uma marca acesa desse jeito é presságio de guerra." — "Quem nasce ponte, carrega o alvo no peito." Saí da tenda com a cabeça erguida, a pele acesa pelo poder que pulsava em mim. Elora estava lá, fingindo não ver, mas seu faro estava travado na minha direção. Então, Lyra aproximou-se. Jovem, bonita, a flor que o conselho velho usa para distrair o inimigo. O sorriso dela era uma máscara perfeita, mas seus olhos estavam parados, sem vida. Na mão, ela carregava um
Quando estava a caminho da minha cabana, sozinha, fingindo que a noite não tinha me riscado por dentro, o cheiro dela veio primeiro que o corpo. Elora. Filha de Beta, herdeira de uma linhagem que vive para servir à sombra dos Alfas, mas que guarda nos olhos a fome de quem quer ser o sol. Elora tem a unha afiada e o olhar mais afiado ainda; uma língua treinada para cortar o que a garra não alcança. Desde o primeiro dia em que pisei neste território, ela farejou o que ninguém queria dizer em voz alta: eu era a ameaça. Mesmo sem tentar. Sobretudo sem tentar. A clareira respirava curto naquela madrugada. Os pinheiros pareciam em vigília, sentinelas estáticas contra o céu de chumbo. As brasas de ontem seguravam o último calor sob a cinza, e um vento fino, cortante como navalha, penteava a grama contra o sentido natural. O sal do círculo cerimonial desenhava um anel opaco no chão, um limite que separava o sagrado do profano. Minha marca acendeu um lampejo miúdo nas costas — "Tô vendo",
A madrugada ainda não havia entregue o turno para o sol quando decidi que o sangue da abominação e o suor da batalha precisavam ser expurgados. Eu não queria o conforto das águas mornas da aldeia, onde as anciãs lavam as feridas dos fracos com panos de algodão. Eu precisava do rio Cobalto, onde a água desce do pico mais alto do Norte, trazendo consigo o gelo que ainda não aprendeu a derreter. Caminhei até a margem com os pés afundando no musgo úmido. Despi-me da túnica de Kael com uma lentidão que era quase um ritual de desapego. No silêncio da floresta, cada ruído é uma sentença: o estalar de um galho, o bater de asas de uma coruja, o meu próprio fôlego saindo em pequenas nuvens de vapor. Nua, eu era apenas carne, osso e a marca prateada que brilhava fracamente, refletindo a última luz da lua minguante. Mergulhei. A água não apenas tocou minha pele; ela a açoitou. Era o frio que eu amava, o tipo de temperatura que faria o coração de um humano parar em segundos, mas que para m
Meu nome é Isara. Para a alcateia, sou apenas um nome em um pergaminho antigo, um contrato assinado com o sangue de dois territórios que nunca se entenderam. Para o conselho de anciãos, sou a "Sangue Sujo" que a Lua resolveu exaltar para cobrir a vergonha de uma linhagem sem rosto. Mas para mim mesma? Eu sou o frio que não pede desculpas. Sou o resultado de um Norte impiedoso e de um Leste que esqueceu como se curva. Minha aparência humana é um disfarce que a natureza me impôs. Tenho a pele pálida, mas nunca fria; há uma fornalha constante sob a minha derme que me permite caminhar nua na geada sem que meus lábios fiquem roxos. Meus cabelos são negros como as penas dos corvos que vigiam o cemitério da matilha, caindo em ondas pesadas que escondem a marca prateada nas minhas costas aquela cicatriz de luz que pulsa toda vez que o perigo ou o destino se aproximam. Meus olhos são a minha maior traição. Eles não possuem a cor terrosa da maioria dos lobos comuns. São olhos de um cinza g
Último capítulo