O soberano de ouro e ferro

Silverthorne não era uma cidade construída para acolher; era uma fortaleza erguida para intimidar. Enquanto Crimson Moon, meu antigo lar, era composta por vales verdes, arquitetura neoclássica e o aroma perene de pinheiros e terra molhada, este reino era um monumento à brutalidade industrial e ao poder absoluto. As muralhas não eram de pedra comum, mas de uma liga metálica escura que absorvia a luz da lua, emitindo um brilho vítreo e letal. O ar aqui era denso, carregado com o cheiro de ozônio, carvão e o suor de milhares de lobos que viviam sob uma disciplina que eu nunca vira antes.

Eu e Eller cruzamos os portões externos misturadas a uma massa de mercadores de peles e refugiados. Nossos rostos estavam profundamente escondidos sob os capuzes imundos das capas de viagem que roubamos na fuga. Meus pés estavam em carne viva, cada passo no calçamento de metal e pedra era um martírio que subia pelas minhas pernas exaustas. Mas o medo de Gael e o fantasma de Eros eram chicotes que me impediam de cair.

De repente, o burburinho ensurdecedor da avenida principal — o som de bigornas, gritos de vendedores e o vapor das máquinas — cessou abruptamente. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que meus ouvidos chegaram a doer.

Cloc. Cloc. Cloc.

O som rítmico e metálico de cascos batendo no chão ecoou pelas paredes dos edifícios. As pessoas começaram a se afastar, espremendo-se contra as paredes, baixando as cabeças em um gesto de submissão instintiva.

— O Soberano... — sussurrou um homem idoso ao meu lado, sua voz tremendo de uma reverência que beirava o terror.

Eller agarrou meu braço, puxando-me para a sombra de uma marquise de ferro. Foi então que o vi.

Montado em um cavalo negro de proporções quase míticas, cujos músculos se moviam como placas tectônicas sob uma pele de ébano, estava o Rei de Silverthorne. Ele não vestia os mantos de seda ou as coroas delicadas que meu pai costumava usar. Ele era uma extensão da própria armadura que portava. O aço de sua proteção era de um cinza fosco, gravado com runas antigas que pareciam pulsar com uma luz interna e sombria.

Mas era a máscara que roubava todo o oxigênio do ambiente.

Uma peça de ouro maciço cobria-lhe inteiramente o rosto. Não era uma máscara de celebração, mas um artefato de guerra e luto. Esculpida em detalhes macabros, ela exibia a face de uma caveira estilizada, adornada com joias negras e rubis incrustados onde deveriam estar as órbitas oculares. Não havia fendas para a boca ou para o nariz; o Rei de Ferro não precisava respirar o mesmo ar que seus súditos. Ele era um ídolo de metal e sangue.

Diziam as lendas que ele nunca a retirava. Que, após a morte de sua primeira esposa — a mulher que ele amara contra os avisos do Oráculo —, ele selara sua humanidade atrás daquele ouro frio, jurando que nenhum olho mortal veria sua dor novamente.

Quando o cavalo passou por mim, o ar ao meu redor estalou. O vazio que eu sentia no peito, aquele abismo silencioso onde as almas de meus pais e irmãos residiam em um sono forçado, subitamente reagiu. Foi como se uma corrente elétrica atravessasse minha espinha. Através das fendas estreitas daquela máscara de ouro, eu senti o olhar dele. Foi um átimo de segundo, uma colisão de almas. Senti como se ele tivesse desnudado meu passado, lido minhas cicatrizes e reconhecido o sangue real que eu tentava desesperadamente esconder sob farrapos.

Ele não parou. Seu cortejo de soldados reais, todos em armaduras silenciosas, seguiu em direção à Cidadela de Ferro que se erguia sobre a cidade como uma garra negra tentando arranhar o céu.

— Lyara, respire! — Eller sibilou, me sacudindo. — Você está branca como um cadáver.

Eu puxei o ar com dificuldade, meu coração galopando.

— Aquele homem... Eller, o que foi aquilo? Eu senti... eu senti como se eu o conhecesse. Ou como se algo dentro de mim estivesse tentando acordar para ele.

— É apenas o terror que ele emana, Lyara. É o que monstros fazem. Esqueça o Rei. Precisamos de um teto e de um emprego, ou seremos devoradas por esta cidade antes do amanhecer.


Passamos os próximos três dias em um borrão de humilhação e esforço físico. Silverthorne não dava esmolas. Conseguimos abrigo na parte baixa da cidade, onde as chaminés das forjas nunca paravam de cuspir fumaça. Através de um contato de Jace, o guarda que salvara nossas vidas, fomos levadas à taverna O Refúgio do Lobo.

O letreiro de madeira rangia ao vento, exibindo a pintura gasta de uma fera uivando para uma lua de metal. O dono, um lobo chamado Magnus, com uma cicatriz que lhe dividia o rosto e um olhar que já vira mortes demais, aceitou nos dar um quarto no sótão em troca de trabalho dobrado.

— Aqui vocês não têm nome. Vocês são mãos que servem e pernas que correm — Magnus rosnou, jogando-nos dois aventais de couro manchados. — Se algum cliente passar da conta, usem o joelho ou uma garrafa. Eu não pago proteção para servas.

O quarto era minúsculo, o teto era tão baixo que eu mal conseguia ficar em pé, e o cheiro de cerveja velha subia pelo assoalho. No entanto, quando me deitei no colchão de palha naquela primeira noite, senti uma satisfação amarga. Pela primeira vez em anos, eu não era a "boneca estéril" de Eros. Eu não era a "sobrinha frágil" de Gael. Eu era Lyara, uma fugitiva com as mãos sujas e o estômago vazio, mas cujas decisões eram, finalmente, minhas.

Eu me lembrava da fortuna que deixara para trás. Bilhões de dólares em ativos, propriedades que eu nunca visitara, joias que o meu tio dizia serem "muito pesadas" para o meu pescoço. Eros nunca me permitira tocar em um centavo, alegando que uma mulher sem loba não tinha discernimento financeiro. Gael, com seu sorriso de víbora, concordava, dizendo que o meu "bem-estar" dependia da tutela masculina. Agora, enquanto eu contava as poucas moedas de bronze que Magnus nos dera de adiantamento para comida, eu me sentia mais rica do que jamais fui em Crimson Moon. Aquelas moedas não tinham o sangue da minha família nelas; elas tinham o suor do meu esforço.

Trabalhávamos do amanhecer até a madrugada. Meus dedos, que antes apenas folheavam livros de poesia ou tocavam as teclas de um piano de cauda, agora estavam cobertos de pequenos cortes e calos. Eller, sempre mais prática, lidava com a cozinha, enquanto eu enfrentava o salão lotado de lobos mercenários, mineiros e soldados da guarda baixa.

Na sexta-feira à noite, a taverna estava no auge de seu caos. O calor era sufocante, o ar carregado com o cheiro de ensopado de carne, tabaco forte e o odor acre de lobos em bando.

Foi quando ele entrou.

Ele não usava a armadura de aço escuro, nem a máscara de ouro que me assombrara nos sonhos. Vestia roupas de viagem de um tecido pesado, simples, mas que ostentavam um corte que denunciava uma origem nobre. No entanto, a aura de poder que ele emanava era a mesma. Ele caminhou até o canto mais afastado da taverna, um lugar onde as sombras pareciam se curvar para lhe dar passagem.

O barulho da taverna não cessou, mas o espaço ao redor daquela mesa específica tornou-se um vácuo. Ninguém ousava se sentar perto dele. Os lobos mais agressivos, que minutos antes estavam rosnando uns para os outros, baixavam o tom de voz e evitavam olhar naquela direção.

— Lyara — Magnus me chamou, sua voz mais baixa que o normal. — Vá até a mesa do fundo. O Estranho chegou.

— Quem é ele? — perguntei, pegando a bandeja.

— Ninguém sabe. Ele vem toda sexta-feira. Não fala com ninguém. Não olha para ninguém. Só serve se for vinho da melhor safra e silêncio. Vá, antes que ele se irrite.

Caminhei em direção à escuridão do canto. A cada passo, a vibração no meu sangue — aquela frequência estranha que eu sentira no dia da chegada — aumentava de intensidade. Minhas mãos tremiam levemente sob a bandeja.

Quando parei diante da mesa, ele não levantou a cabeça de imediato. Estava observando as chamas de uma vela gasta, seus dedos longos e fortes tamborilando levemente na madeira rústica. Ele tinha cabelos negros como o abismo e uma mandíbula esculpida com a precisão de um escultor renascentista. Ele era a personificação da beleza letal.

— O que vai desejar? — minha voz saiu em um sussurro, mas em Silverthorne, as paredes pareciam ter ouvidos.

Ele ergueu o olhar. Seus olhos eram de um azul tão profundo que pareciam negros, mas dentro deles havia fagulhas de um fogo que não pertencia a este mundo. Eram os mesmos olhos da máscara.

— Vinho — ele disse. Sua voz era um barítono que pareceu vibrar dentro da minha própria caixa torácica, despertando um eco nas almas que eu carregava. — E a ausência de perguntas.

Eu assenti, meu coração martelando contra as costelas como se quisesse fugir. Afastei-me apressadamente, mas senti o peso do olhar dele fixo em minhas costas, como se ele estivesse rastreando o rastro deixado pelo meu cheiro.

Voltei minutos depois com uma garrafa e uma taça de metal. Ao servir o vinho, ele estendeu a mão e, por um breve segundo, seus dedos roçaram nos meus.

Foi como se o teto da taverna tivesse desabado. Um choque térmico e espiritual me percorreu. Eu vi flashes: uma floresta em chamas, um trono de ossos, e o rosto de uma mulher que não era eu, mas que chorava lágrimas de ouro. Eu quase derrubei a taça.

Ele arqueou uma sobrancelha, seus olhos brilhando com uma curiosidade predatória.

— Você tem mãos trêmulas para alguém que sobreviveu às masmorras de Crimson Moon — ele disse, em uma voz tão baixa que só eu poderia ouvir.

O pânico gélido me paralisou. Como ele sabia? Eu era apenas uma serva anônima.

— Eu não sei do que o senhor está falando — respondi, tentando recuperar a máscara de indiferença que eu passara dias construindo.

Ele se inclinou para frente, o aroma de sândalo, carvalho e algo puramente animal — algo como poder em estado bruto — envolveu meus sentidos.

— Suas mãos dizem que você é uma serva, pequena loba. Mas seus olhos... seus olhos gritam que você nasceu para ser servida. Qual dessas mentiras você está tentando vender para si mesma esta noite?

Eu recuei um passo, minha respiração curta. Eu queria fugir dele, mas ao mesmo tempo, uma parte de mim — a parte que Gael chamava de "quebrada" — queria se ajoelhar diante daquela força.

— A única mentira aqui, senhor, é acreditar que um homem que se esconde nas sombras de uma taverna tem o direito de ler a alma de quem o serve.

Um lampejo de algo que parecia diversão cruzou seu rosto severo. Era a primeira vez que eu via uma rachadura naquela fachada de pedra.

— Retire-se — ele ordenou, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma autoridade absoluta. — Mas saiba disso: em Silverthorne, nada permanece escondido por muito tempo. Especialmente o sangue real que tenta se misturar à lama.

Passei o resto da noite em transe. Eller tentou falar comigo, mas eu não conseguia processar nada além do calor do toque dele em minha mão. Eu sabia, com a certeza dos condenados, que aquele homem era o Rei. O monstro mascarado, o homem que desafiara os deuses, estava ali, bebendo vinho barato e me observando como se eu fosse a peça de um quebra-cabeça que ele passara décadas tentando montar.

Eu fiz a escolha certa ao vir para cá? Eu me perguntava, enquanto limpava as mesas sob o olhar vigilante de Magnus.

Eu fugira da traição de um marido bastardo e da crueldade de um tio regicida, apenas para cair no quintal de um soberano que parecia capaz de me destruir com apenas uma palavra. Mas, pela primeira vez em toda a minha vida, eu não me senti apenas uma vítima. Eu senti que o jogo estava apenas começando. E, enquanto as luzes da taverna se apagavam e eu subia para o meu sótão miserável, eu sabia que a próxima sexta-feira seria o dia em que minha nova vida realmente começaria.

Ou o dia em que eu seria finalmente consumida pelo fogo que ardia nos olhos do Rei de Ferro.

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