Mundo ficciónIniciar sesiónO tempo nas masmorras inferiores de Crimson Moon não é medido por horas, mas pela densidade da umidade que escorre pelas paredes de pedra e pelo ritmo das batidas de um coração que se recusa a parar. Cinco semanas. Ou talvez cinco séculos. Eu perdi a conta de quantas vezes a lua mudou de fase no céu que eu não podia mais ver. Meus dedos estavam em carne viva de tanto arranhar o chão, não por desespero, mas para sentir algo que não fosse o vazio deixado pela revelação do massacre da minha família.
Eu era um espectro. A herdeira de bilhões, a filha de reis, agora reduzida a uma massa de ossos e pele suja, alimentada com restos que até os cães de guarda rejeitariam. Minhas roupas, uma vez de seda fina, eram agora trapos que cheiravam a mofo e desespero. Mas, no fundo dos meus olhos, a chama que Gael tentou apagar com o gelo da traição ardia com uma intensidade doentia.
A porta de ferro da cela rangeu. Não era o som metálico e pesado dos guardas de Gael. Era um som suave, quase furtivo.
— Lyara? — O sussurro cortou o silêncio como uma lâmina.
Eu me arrastei para a luz fraca da tocha no corredor. Eller.
Minha cunhada, a irmã mais nova de Eros, estava parada ali. Mas não era a Eller vibrante e solar que eu conhecia. Seu rosto estava pálido, os olhos inchados de um luto que eu reconheci instantaneamente. Ao lado dela, segurando um molho de chaves pesadas, estava Jace, o jovem guarda que cuidava das masmorras. Ele era o único que, durante essas semanas, me trazia um pouco mais de água ou um pedaço de pão escondido. Eu sabia o segredo deles; Jace e Eller se amavam sob o risco de morte, um romance proibido entre uma princesa da linhagem secundária e um soldado sem casta.
— Eller... o que aconteceu? — Minha voz era um crocito seco.
Ela se ajoelhou diante da grade, as mãos agarrando as minhas com uma força desesperada.
— Ele os matou, Lyara. Gael executou minha mãe e meu pai. — As lágrimas dela caíram sobre minhas mãos sujas. — Ele disse que eles estavam conspirando contra a nova sucessão. Mas a verdade é que ele os queria fora do caminho. Agora que você está "morta" para o mundo, ele se sente o dono de tudo. E Eros... — Ela soluçou, um som carregado de nojo. — Meu irmão é um monstro. Ele entregou a própria mãe para a lâmina de Gael sem piscar. Ele odeia a todos nós.
O horror se expandiu no meu peito. A purificação de Gael não tinha fim. Ele estava podando cada galho da árvore genealógica que pudesse oferecer sombra ao seu poder.
— Ele quer me forçar, Lyara — Eller continuou, o pavor brilhando em suas pupilas. — Gael convenceu Eros de que, para "unificar as linhagens", ele deve se casar comigo. Ele me cobiça há anos... aqueles olhos nojentos em cima de mim em cada jantar... Eu prefiro a morte.
Jace colocou a mão no ombro dela, o rosto rígido de determinação.
— Não haverá casamento. Nós vamos sair daqui agora. — Ele girou a chave, e a porta da minha cela se abriu com um lamento de ferro. — A caravana real de Oakhaven está partindo agora ao amanhecer. Eles vieram para as negociações de fronteira e estão atravessando o deserto de volta para o reino deles. É a nossa única chance.
Eller me ajudou a levantar. Meu corpo protestou, cada músculo gritando de fraqueza, mas o ódio serviu como um suporte para minha coluna. Ela me entregou uma capa pesada de viagem, com um capuz profundo que esconderia meu rosto.
— Você vai se passar por uma serva muda da minha comitiva pessoal — instruiu Eller. — Jace conseguiu subornar o cocheiro da última carroça de suprimentos. Eles não conferem os rostos dos servos de baixo escalão na saída dos portões, apenas a sineta real.
Caminhamos pelas sombras das passagens de serviço, evitando as patrulhas principais. Cada sombra parecia o vulto de Gael; cada som de bota no andar de cima parecia o aviso da nossa execução. Jace nos guiava com uma precisão cirúrgica, conhecendo cada ponto cego das câmeras de segurança e das rotas dos guardas.
Ao chegarmos ao pátio externo, o ar frio da madrugada atingiu meu rosto como um tapa. Eu quase caí. O céu estava tingido de um azul arroxeado, a estrela da manhã ainda brilhando solitária. Ao longe, vi a imponente caravana de Oakhaven: dezenas de carruagens blindadas, bestas de carga enormes e soldados em armaduras douradas que brilhavam sob as luzes do pátio.
— Entre, rápido! — Jace sussurrou, ajudando-nos a subir em uma carroça carregada de fardos de tecido e provisões.
Eller e eu nos enfiamos entre os rolos de veludo. Jace trocou um olhar longo e doloroso com ela. Ele não podia ir agora; precisava ficar para cobrir os rastros, para fingir que a cela ainda estava ocupada até que estivéssemos longe o suficiente.
— Eu te encontro na fronteira de areia — ele prometeu, beijando a mão dela. — Vá, Eller. Salve a Lyara. Salve a si mesma.
A carroça começou a se mover. O solavanco dos pneus de madeira no calçamento de pedra fez meu estômago revirar. Eu estava fugindo. Pela primeira vez em cinco semanas, eu não estava entre quatro paredes, mas a sensação de liberdade era acompanhada por um terror paralisante.
Ouvimos o grito dos guardas nos portões principais de Crimson Moon.
— Identifiquem-se! — A voz ressoou, autoritária.
Prendi a respiração. Minhas unhas se enterraram no tecido caro que nos escondia. Ouvi o tilintar de moedas e a voz calma do mestre da caravana estrangeira. Houve um silêncio eterno. Então, o som pesado das correntes dos portões subindo.
As rodas rangeram e, de repente, o som do eco das paredes de pedra deu lugar ao som do vento aberto. Estávamos fora.
Horas se passaram. O frio da manhã deu lugar a um calor escaldante conforme a caravana se adentrava no Deserto de Cinzas, a vasta terra de ninguém que separava Crimson Moon dos reinos exteriores. Eu observava por uma fresta no tecido. A areia era de um cinza prateado, as dunas se movendo como ondas de um mar morto.
— Lyara — Eller sussurrou, seus olhos fixos no horizonte. — Quando passarmos pelo posto avançado dos guardas reais da fronteira, precisamos sair. A caravana vai seguir para Oakhaven, mas se ficarmos nela, seremos encontradas assim que contarem as cabeças no destino. Temos que nos desviar para o sul, em direção ao Reino de Aethelgard. É um território neutro. Gael não tem jurisdição lá.
— Eu não consigo mais ser um fardo, Eller — respondi, minha voz ganhando uma força que eu não sabia que tinha. — Eu perdi tudo. Meus pais, meus irmãos... até meu nome.
— Você não perdeu sua alma, Lyara. E é por ela que eles têm medo.
O meio-dia chegou, e com ele, o posto de fronteira. Vi as torres de vigia de Crimson Moon ficarem para trás, pequenas silhuetas na imensidão de areia. Os guardas reais aqui eram menos cuidadosos, mais preocupados com o calor do que com uma caravana que já havia sido revistada no castelo. Eles apenas acenaram para que passassem.
Assim que a caravana subiu uma duna alta que nos ocultava da vista do posto, Eller sinalizou.
— Agora!
Pulamos da carroça em movimento. A areia quente nos acolheu, abafando o som da nossa queda. Rolamos pela duna, escondendo-nos atrás de um afloramento rochoso. Ficamos ali, ofegantes, observando a caravana de Oakhaven continuar sua marcha lenta e imponente, sem perceber que duas "servas" haviam ficado para trás.
Mas algo deu errado.
Um dos mercadores da caravana, que estava na carroça de trás, gritou algo. Ele nos viu. As carruagens começaram a diminuir a velocidade.
— Maldição! — Eller praguejou. — Se eles nos pegarem, vão nos devolver para o seu tio para evitar um incidente diplomático! Corra, Lyara!
Corremos. Corremos até nossos pulmões arderem como se estivessem cheios de brasa. Meus pés afundavam na areia, a fraqueza das semanas de prisão cobrando seu preço. Mas o medo era um combustível potente. Vimos uma tempestade de areia começando a se formar ao longe, uma cortina de poeira que poderia ser nossa salvação ou nosso túmulo.
— Para ali! — Eller apontou para uma fenda entre duas montanhas de pedra negra.
Entramos na fenda, o vento uivando acima de nós. Andamos por quilômetros dentro daquele desfiladeiro, até que o som da caravana e os gritos dos mercadores fossem engolidos pelo rugido da areia. Estávamos sozinhas. Perdidas.
Ao cair da noite, o deserto se tornou um deserto de gelo. Encolhemo-nos sob a capa de viagem, dividindo o pouco calor que nos restava. Eu olhava para as estrelas, tão diferentes das que eu via da minha janela no palácio.
— Para onde estamos indo, Eller? — perguntei, tremendo.
— Para o desconhecido. Para qualquer lugar onde o nome Jones não seja uma sentença de morte.
Caminhamos por mais dois dias, guiadas apenas pelo instinto de sobrevivência e pela pouca água que Eller conseguira contrabandear. No final do terceiro dia, as dunas cinzentas começaram a dar lugar a uma vegetação rasteira, e então, a uma floresta densa e escura, cujas árvores pareciam tocar o céu. O ar aqui era diferente. Era carregado de uma eletricidade estática, um poder antigo que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem.
Ao longe, vimos as luzes de uma cidade. Mas não era como Crimson Moon. As torres eram de um metal escuro e reluzente, e a energia que emanava dali era avassaladora. Era o reino de Silverthorne. Um lugar que eu só conhecia por lendas — a terra de lobos que não seguiam as leis dos homens, governada por um soberano cuja crueldade era superada apenas pelo seu poder.
Eller parou, olhando para a entrada da floresta que levava ao reino.
— Se cruzarmos essa fronteira, não haverá volta, Lyara. Eles não aceitam estrangeiros facilmente. Teremos que nos misturar, ser sombras entre sombras.
Eu olhei para minhas mãos. Elas ainda estavam sujas com a terra das masmorras de Gael, mas meu coração... meu coração batia com uma força renovada. Eu sentia algo vindo daquelas florestas. Um chamado. Um eco que parecia responder às almas dos meus pais que residiam dentro de mim.
Entramos na cidade ao anoitecer, misturando-nos aos viajantes e mercadores que entravam pelos portões de ferro de Silverthorne. A arquitetura era brutalista e elegante ao mesmo tempo. As pessoas aqui tinham um olhar afiado, uma postura de predadores que nunca baixavam a guarda.
Enquanto caminhávamos pelas ruas movimentadas, sentindo o peso do disfarce e o medo de sermos descobertas a qualquer momento, uma dúvida começou a corroer minha mente. Eu havia fugido de um monstro conhecido para me jogar nos braços de um destino incerto.
Olhei para Eller, que tentava manter a cabeça baixa, e depois para as torres negras de Silverthorne que se erguiam como garras contra a lua.
Eu fiz a escolha certa?, perguntei a mim mesma, enquanto sentia a primeira vibração de algo novo em meu sangue — algo que não era apenas medo, mas uma estranha e perigosa antecipação. Ou eu apenas troquei uma cela de pedra por uma cela feita de mistérios e lobos ainda mais ferozes?
O vento soprou, trazendo um aroma de terra úmida e poder. Um aroma que, sem que eu soubesse, pertencia ao homem que mudaria o curso da minha vida para sempre. Mas ali, sob as luzes estranhas de Silverthorne, eu era apenas uma fugitiva, perguntando-se se o preço da liberdade não seria, afinal, o início de uma perdição ainda maior.







