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O Rastro do sândalo e do sangue

A sexta-feira seguinte chegou acompanhada de uma névoa densa que subia do porto de Silverthorne, envolvendo os edifícios de metal em uma mortalha cinzenta e úmida. O ar estava mais pesado do que o normal, carregado com o cheiro metálico das fundições e a promessa de uma tempestade que se recusava a cair. Na taverna O Refúgio do Lobo, o movimento era frenético, mas meus olhos, traidores e inquietos, voltavam-se constantemente para a mesa no canto escuro.

Ele não apareceu.

A cadeira vazia parecia zombar da minha expectativa silenciosa. Trabalhei até que meus músculos latejassem, servindo canecas de hidromel e limpando o vômito de mineiros embriagados, sentindo uma frustração irracional crescer no peito. Por que eu me importava? Ele era um estranho perigoso, um homem que exalava segredos e uma autoridade que me apavorava. No entanto, o calor do seu toque na semana anterior ainda parecia gravado na minha pele, como uma cicatriz invisível.

— Lyara, preciso que você leve este pagamento ao fornecedor de carnes no Distrito Sul — Magnus rosnou por trás do balcão, entregando-me uma bolsa de couro que tilintava com o peso das moedas. — Vá pelos becos laterais. A avenida principal está cheia de patrulhas reais e eu não quero que eles pensem que estou sonegando impostos.

— Está escuro demais, Magnus — Eller interveio, preocupada, enquanto secava as mãos no avental. — Deixe que ela vá amanhã cedo.

— O açougueiro fecha ao amanhecer para o abate. Ela vai agora — sentenciou o taberneiro, voltando a ignorar nossa existência.

Apertei a bolsa contra o corpo e saí. O frio da noite de Silverthorne cortava as camadas finas da minha roupa. A cidade, sob a névoa, parecia um labirinto de engrenagens e sombras. Eu apressei o passo, tentando ignorar o som dos meus próprios batimentos cardíacos ecoando nas paredes de ferro dos edifícios.

Eu estava a apenas três blocos do destino quando o silêncio foi quebrado pelo som de passos pesados atrás de mim. Não era o passo rítmico de um guarda. Era o som de predadores espreitando.

Apertei o passo. Eles também apertaram.

Tentei dobrar em uma esquina, mas o caminho foi bloqueado por um homem corpulento, cujo rosto era uma massa de cicatrizes mal curadas. Recuei, apenas para dar de costas com outros dois. O cheiro de álcool barato e falta de banho me atingiu como um soco.

— Ora, ora... o que uma coisinha tão delicada faz caminhando sozinha com tanto ouro no bolso? — o maior deles sibilou, mostrando dentes podres.

— Eu não quero problemas. Peguem o dinheiro — eu disse, minha voz falhando, tentando estender a bolsa com mãos trêmulas.

— O dinheiro nós vamos pegar, docinho — o que estava atrás de mim murmurou, agarrando meu braço com uma força que me fez soltar um grito abafado. — Mas você parece ter muito mais a oferecer do que algumas moedas de cobre.

Ele me puxou com violência, arrastando-me para a escuridão de um beco sem saída, longe da luz das lamparinas a óleo. O pânico subiu pela minha garganta, sufocante. Lutei, chutei e tentei gritar, mas uma mão imunda cobriu minha boca. As almas que eu carregava dentro de mim — a força de Arthur, a fúria de Killian — pareceram vibrar em protesto, mas o bloqueio que meu tio Gael impusera ao meu corpo era como uma jaula de ferro. Eu era uma leoa sem garras, uma rainha sem exército.

— Vamos ver o que você esconde sob esses trapos — o homem rosnou, jogando-me contra uma parede de metal frio.

Fechei os olhos, esperando o pior. Mas o toque dele nunca veio. Em vez disso, ouvi um som seco, o estalo inconfundível de osso quebrando, seguido por um urro de agonia.

Abri os olhos.

O "Estranho" da taverna estava lá. Ele não parecia um homem comum; parecia um demônio de vingança emergindo da névoa. Ele segurava o braço do ladrão que me tocara com uma mão só, torcendo-o em um ângulo impossível. Com um movimento fluido e brutal, ele lançou o homem contra uma pilha de caixotes, reduzindo-os a estilhaços.

Os outros dois avançaram com facas brilhando na penumbra. Ele não sacou uma arma. Ele não precisava. Sua luta era uma dança de morte e precisão. Ele desviou de uma estocada com uma elegância sobrenatural, desferindo um soco no plexo solar do segundo agressor, que caiu sem ar, vomitando sangue. O terceiro tentou fugir, mas o homem o alcançou em dois passos, agarrando-o pelo pescoço e batendo sua cabeça contra o metal da parede com um som surdo e definitivo.

Em menos de um minuto, o beco estava silencioso novamente, exceto pelos gemidos baixos dos homens caídos.

Ele se virou para mim. O peito dele subia e descia levemente, mas ele não parecia sequer ofegante. Seus olhos negros ardiam com uma fúria contida que me fez estremecer mais do que os ladrões.

— Você está bem? — ele perguntou, sua voz baixa e vibrante.

Eu não consegui responder. O terror acumulado das últimas semanas, a humilhação do casamento, a fuga pelo deserto e o ataque agora transbordaram. Minhas pernas cederam. Antes que eu atingisse o chão, seus braços me envolveram. O cheiro de sândalo, carvalho e algo quente e masculino me inundou. No desespero de me sentir segura, em um impulso que desafiou qualquer lógica, minhas mãos agarraram o colarinho de sua camisa e eu o puxei para baixo, colando meus lábios nos dele.

Foi um beijo de puro desespero, uma tentativa de ancorar minha existência em algo sólido. Por um segundo, ele ficou paralisado. Então, senti suas mãos apertarem minha cintura, devolvendo o contato com uma intensidade que quase me fez desfalecer. Foi um incêndio repentino no meio do gelo.

Afastei-me bruscamente, o rosto queimando de vergonha.

— Eu... eu sinto muito. Por favor, me perdoe. Eu não sei o que deu em mim — gaguejei, cobrindo a boca com a mão, querendo que o chão se abrisse e me engolisse.

Ele me observou por um longo momento, o polegar roçando o próprio lábio inferior, um brilho enigmático no olhar.

— O medo faz as pessoas agirem por instinto, pequena loba — ele disse, com uma suavidade inesperada. — Não peça perdão por querer sentir-se viva.

Ele pegou a bolsa de moedas que havia caído e me entregou.

— Venha. Eu te acompanho. Silverthorne não é segura para você esta noite.

Caminhamos em silêncio por algum tempo, saindo do distrito comercial em direção a uma parte da cidade que eu ainda não conhecia. As ruas eram mais largas aqui, ladeadas por árvores cujas folhas pareciam feitas de prata sob a luz da lua. O silêncio era pacífico, quebrado apenas pelo som dos nossos passos.

— Como se chama? — perguntei, tentando dissipar a tensão que ainda vibrava entre nós.

— Norman — ele respondeu, sem hesitar. — E você?

— Lyara.

— Um nome nobre para uma serva de taverna — ele observou, olhando para o horizonte.

— Eu não fui sempre uma serva — murmurei, e antes que pudesse me conter, as palavras começaram a sair. — Eu fugi de um lugar onde eu era tratada como um objeto de decoração. Meu marido... ele não me amava. Ele me traiu com a mulher que eu considerava uma irmã e depois tentou se livrar de mim como se eu fosse um fardo incômodo. Eu vim para cá para tentar encontrar o que restou de mim.

Parei de falar subitamente, arrependida. Por que eu estava contando isso para ele? Ele era um estranho que acabara de espancar três homens. Eu não podia confiar em ninguém, especialmente em um homem que exalava tanto poder oculto.

— Ele deve ser um tolo — Norman disse, sua voz ganhando uma nota sombria. — Um homem que descarta uma rainha merece o reino de cinzas que restará para ele.

— Eu não sou uma rainha — respondi, amarga. — Eu sou apenas alguém tentando sobreviver sem uma loba para me proteger.

Ele parou de caminhar e se virou para mim, a luz da lua destacando os ângulos perfeitos de seu rosto.

— A loba não está ausente, Lyara. Ela está apenas esperando o momento em que o seu ódio seja maior do que o seu medo.

Caminhamos por horas. Ele me mostrou partes da cidade que pareciam tiradas de um sonho: jardins suspensos de ferro fundido, fontes de águas térmicas que brilhavam com tons de azul e praças onde o vento soprava canções antigas através das estruturas metálicas. Norman falava pouco, mas quando falava, suas palavras tinham um peso que me fascinava. Ele falava de Silverthorne não como um rei, mas como alguém que conhecia cada dor e cada fresta daquela terra.

Eu me senti estranhamente humana ao lado dele. Pela primeira vez em anos, eu não era a "estéril", a "fraca" ou a "órfã". Eu era apenas Lyara, uma mulher caminhando sob as estrelas com um homem chamado Norman.

— Por que você vai àquela taverna toda sexta-feira? — perguntei, quando já estávamos perto de retornar ao Refúgio do Lobo.

Ele parou, olhando para a Cidadela de Ferro ao longe.

— Porque às vezes, o silêncio de uma máscara torna-se insuportável. E naquele canto escuro, eu posso fingir, por algumas horas, que sou apenas um homem observando o mundo.

Eu não entendi completamente o que ele quis dizer, mas a tristeza em sua voz me atingiu em cheio.

— Você também fugiu de algo, Norman? — arrisquei.

Ele olhou para mim, e por um momento, a máscara de frieza caiu. Seus olhos mostravam uma solidão tão profunda que meu coração se apertou.

— Eu fugi da obrigação de ser o que todos esperam que eu seja. Mas o destino tem uma maneira cruel de nos encontrar, não importa o quanto corramos.

Chegamos à porta da taverna. O sol começava a dar os primeiros sinais de vida no horizonte, tingindo o céu de um rosa pálido.

— Obrigada, Norman — eu disse, com sinceridade. — Pela minha vida e pela noite.

— Não me agradeça ainda, Lyara — ele respondeu, pegando minha mão e depositando um beijo leve e casto nos nós dos meus dedos. O toque enviou um calafrio familiar por todo o meu corpo. — Algo me diz que nossas histórias estão apenas começando a se entrelaçar.

Ele se virou e desapareceu na névoa matinal antes que eu pudesse dizer mais nada. Entrei na taverna em silêncio, subindo para o meu sótão. Eller ainda dormia. Sentei-me no colchão, tocando meus lábios, sentindo o gosto dele e o cheiro de sândalo que ainda pairava no ar.

Eu havia contado parte da minha verdade a um estranho. Eu o beijara. E, pela primeira vez desde o massacre da minha família, eu não senti que o mundo estava acabando. Senti que, talvez, eu estivesse finalmente começando a nascer. Mas o medo ainda sussurrava no fundo da minha mente: quem era Norman, e por que a presença dele fazia minha alma lupina, tão profundamente adormecida, querer uivar pela primeira vez?

Adormeci com o som do nome dele ecoando em meus pensamentos, sem saber que o homem que eu beijara no beco era o mesmo que, em breve, reclamaria o resto do meu destino.

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