Mundo ficciónIniciar sesión༺ Tamara Silva ༻
Eu jamais imaginaria estar em um lugar como este com um homem como o Malik. Olhando para ele agora, fica claro como ele consegue ser muito mais atraente e imponente do que o Pedro. Às vezes me pego pensando em quantos homens eu deixei passar por causa daquela obsessão, esperando ser notada por alguém que nunca se importou. No final, o Pedro nunca me enxergou. Solto um suspiro profundo, tentando enterrar o passado de vez, e fico olhando o mar quebrar em faíscas luminosas contra o iate. Aproveito o momento e apoio as mãos no corrimão, enquanto o Malik resolve os últimos detalhes com o capitão. Ele não demora a voltar para perto de mim. — Lembra que eu prometi te mostrar um pouco do meu mundo? — ele pergunta, trazendo duas taças de champanhe. — Lembro sim. Fiquei bem curiosa, para falar a verdade. — Ótimo — ele diz, inclinando o corpo de leve, perto o suficiente para eu sentir o calor da sua pele. — Eu cuido de rotas privadas e logística internacional. Transportes exclusivos, contratos de alta tecnologia, joias, cargas valiosas. Tudo milimetricamente calculado. — Isso parece gigantesco — comento, realmente interessada. — Como você começou? Ele se encosta no corrimão ao meu lado, deixando os músculos do braço marcados sob a luz do sol. — No cais, quando eu tinha quinze anos. Comecei carregando caixas. Eu passava o dia observando o movimento, as marés, quem comprava e quem mandava no lugar. Aprendi o jogo rápido. Depois veio a faculdade de engenharia naval, as parcerias certas e muito risco. Quando a oportunidade apareceu, agarrei com as duas mãos. — É impressionante — digo, sem esconder a admiração. — Você construiu tudo do zero. — Ninguém me deu nada — ele responde, com um brilho firme no olhar. — Eu criei o que o mundo tentou me negar. — E conseguiu — afirmo, dando um gole no champanhe. — Uma história assim merece respeito. Malik me estuda por alguns segundos, com uma intensidade que faz meu peito acelerar. — Reconhecer o esforço dos outros mostra o tamanho do seu caráter, Tamara. O elogio mexe comigo como uma brisa quente. Me aproximo um pouco mais dele, deixando nossos ombros quase se tocarem. — Estou ainda mais fascinada por você agora. — Fico muito feliz em saber disso — ele murmura, colando a mão na minha cintura de um jeito sutil, mas possessivo. Meu celular vibra de novo dentro do bolso do meu short. Sinto a pressão do aparelho e o puxo para ver a tela. Mais mensagens do Pedro: “Então é isso? Vai me ignorar mesmo?” “Estou falando sério. Isso vai te custar caro.” “Responde logo.” “Tamara, não brinca comigo.” Balanço a cabeça e solto uma risada amarga. A última mensagem chega logo em seguida, com o mesmo tom autoritário de sempre: “Eu não vou te perdoar. Nunca.” Guardo o celular devagar, sentindo que estou enterrando um capítulo inteiro da minha vida. O Pedro realmente acha que ainda manda em mim? Ele vai descobrir do jeito mais difícil que aquela antiga Tamara aceitadora de migalhas morreu. Ele que vá para o inferno. — Que desperdício de energia — murmuro, cruzando os braços e olhando para o mar. — Como eu consegui perder tantos anos com isso? Parece que eu estava enfeitiçada. Malik se aproxima, seu rosto ficando a poucos centímetros do meu. — Você acreditou em promessas vazias — a voz dele sai calma, mas cheia de certeza. — Pessoas egoístas não amam ninguém, Tamara. Elas só gostam da sensação de controle. Você quebrou o ciclo ontem. Isso se chama maturidade. Ouvir meu nome na boca dele me dá um arrepio gostoso. O iate muda de direção suavemente, cortando a água de forma impecável, e o vento balança meu biquíni verde. — Eu estava precisando ouvir isso — confesso. — Então grava o que vou te dizer — ele continua, segurando meu queixo com os dedos, me forçando a olhar bem no fundo dos seus olhos azuis. — Quando você descobre o seu valor, ninguém mais consegue te derrubar. O passado tenta puxar de volta, mas não existe retorno para quem já evoluiu. Aquelas palavras entram na minha mente como uma verdade absoluta. Me encosto no corpo dele sem hesitar, sentindo o calor e a segurança que ele transmite. O brilho no olhar do Malik muda, ficando mais profundo, quase selvagem, mas cheio de cuidado. — Vamos aproveitar o dia — ele sugere, estendendo a mão para mim. — Nada merece roubar os nossos minutos. Aceito na hora. O toque dele é firme e quente. Caminhamos até a frente do iate, onde o sol deixa tudo dourado. Me acomodo em uma almofada macia, enquanto o Malik continua de pé, os braços apoiados na lateral, observando o horizonte. Os músculos das costas dele se movem devagar a cada respiração. A luz destaca as linhas fortes do seu rosto, a mandíbula marcada e os lábios bem desenhados. Ele é perfeito. A tranquilidade do mar quase me embala, mas o celular vibra outra vez dentro da bolsa. Deixo para lá. Malik percebe o meu incômodo. — Quer que eu desligue isso para ninguém atrapalhar? — ele pergunta, estendendo a mão. — Quero, por favor. Ele pega a bolsa, tira o aparelho, desativa o som e guarda tudo de novo com total calma. — Pronto. Agora nada vai interferir no nosso dia — ele diz, sentando bem do meu lado. As pernas dele encostam nas minhas, enviando uma onda de calor pela minha pele. Ficamos os dois encarando a imensidão azul. — Sente isso? — ele pergunta. — Liberdade. — Sinto — respondo, respirando fundo o ar salgado. — Pela primeira vez em muitos anos. — E isso é só o começo — ele avisa, com um sorriso de canto que me deixa sem fôlego. — Eu pretendo te mostrar muito mais. Ele se inclina devagar. Seu beijo vem sem pressa, em uma pausa calculada. É um toque lento, profundo e absurdamente quente. Malik segura a minha nuca com delicadeza, aprofundando o contato enquanto o iate segue firme pelas águas cristalinas. Naquele segundo, percebo que não sobrou absolutamente nada do Pedro em mim. Nenhuma sombra, nenhuma saudade, nenhum sentido. Tudo o que aconteceu de ruim ontem não foi para o meu mal, foi para a minha libertação. Lembro de quando vi o Pedro pela primeira vez, ainda no primeiro ano do ensino médio. A Estela já estudava comigo e me apresentou o irmão em um dia qualquer no pátio da escola. Me apaixonei na hora, achando que ele seria o grande amor da minha vida. Fiz de tudo para chamar a atenção dele: cartas, presentes, tentava agradar em tudo. Mas os anos passavam e nada funcionava. O Pedro virou a minha obsessão. Cada vez que ele tocava no meu rosto ou dizia que iríamos comemorar alguma coisa, minha esperança subia. Mas no final, ele sempre inventava que tinha esquecido ou que surgiu um compromisso urgente. E eu, cega de amor, acreditava que era só uma fase. Achava que logo ele perceberia a mulher maravilhosa que estava ali esperando. Se fosse outra pessoa, já teria desistido há muito tempo. Mas a noite passada quebrou o encanto. O Pedro não é o único homem do mundo e eu vou provar que posso ter alguém que me trate como eu realmente mereço. O beijo termina devagar, e o Malik se afasta apenas o suficiente para roçar os lábios na minha bochecha. Ele me observa fixamente, com aquele olhar misterioso de quem sabe muito mais do que está dizendo. — Você tem um brilho único, Tamara — ele murmura, passando o polegar pelo meu lábio inferior. — É uma pena que tenha demorado tanto para perceber isso. Fico olhando para ele, intrigada com o tom da conversa. — Você fala como se estivesse me observando há muito tempo, Malik. Ele dá um sorriso enigmático, daqueles que não entregam nada, e se levanta, estendendo a mão para me puxar para perto do seu corpo de novo. — Talvez eu estivesse... — a voz dele saiu baixa, quase um segredo. — Algumas pessoas levam anos para encontrar o amor da vida delas. Os dedos dele deslizaram pela minha mão. — Eu só precisei esperar você abrir os olhos. Meu coração disparou. Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, ele entrelaçou nossos dedos e caminhou comigo em direção ao interior do iate. Pela primeira vez, a pergunta deixou de ser quem era Malik Stavani. A verdadeira pergunta passou a ser... Por que esse homem parecia me esperar muito antes de eu sequer saber da existência dele?






