Mundo ficciónIniciar sesión༺ Tamara Silva ༻
A batida grave e abafada da boate ainda reverberava no asfalto sob os meus saltos, mas o som parecia distante, como se eu estivesse submersa. Saí da área VIP em um transe de pura humilhação. Cada palavra que Pedro descarregara sobre mim agia como um veneno de efeito lento, paralisando meus músculos e incendiando meu orgulho. Dez anos. Uma década inteira servindo de capacho para um homem que nunca me enxergou. Célia sempre me avisou que eu terminaria sangrando sozinha na calçada. — Tamara! Tamara, espera! Parei contra a minha vontade, fechando os olhos por um segundo antes de me virar. Estela vinha correndo pelo corredor de saída, os cabelos longos desalinhados e a expressão oscilando entre a aflição e a pura culpa. Ela era irmã dele, afinal. — Me desculpa — ela disparou, arfando um pouco, as mãos espalmadas no ar. — Pelo Pedro. Ele é um babaca. Na verdade, ele é um cretino em tempo integral. Só não amaldiçoo o ventre da minha mãe porque ela não tem culpa de ter colocado um monstro desses no mundo. Um sopro de uma risada sem humor escapou dos meus lábios. O desespero dela era genuíno, e aquilo aqueceu minimamente o vazio gelado no meu peito. — Tá tudo bem, Estela... — forcei as palavras, embora meus olhos ardessem. — Acho que, desta vez, nem doeu tanto. Eu só... cansei. Preciso ficar sozinha. Volte e aproveite a noite. — Não mesmo. Eu vou com você. Não tem a menor chance de eu pisar de volta naquele camarote. — Estela, por favor — pedi, e minha voz vacilou, entregando o limite das minhas forças. — Eu preciso pensar na minha vida. Sozinha. De verdade. Só... me dá esse espaço. Ela mordeu o lábio inferior, medindo a gravidade no meu olhar, e finalmente recuou. — Tudo bem. Mas se o mundo começar a desabar, você me liga. Qualquer hora. Esbocei um sorriso quebrado, assenti e recebi seu abraço rápido e apertado antes de vê-la desaparecer de volta para o caos de luzes. Quando o ar frio da noite atingiu meu rosto na calçada, foi como um tapa de realidade. “Acorda.” Caminhei sem rumo, cruzando duas quadras de um bairro nobre iluminado por postes altos e vitrines de grifes caras. Eu não sabia para onde estava indo; minhas pernas apenas seguiam o instinto primitivo de colocar distância entre mim e a minha própria ruína. Parei diante de uma esquina. A fachada preta fosca, as luzes douradas e minimalistas e as imensas vidraças fumê indicavam um bar de hotel de altíssimo padrão. Elegante. Discreto. Exatamente o oposto do inferno barulhento de onde eu estava vindo. Entrei. O ambiente climatizado cheirava a couro legítimo, tabaco importado e alta coquetelaria. O murmúrio baixo das conversas e o jazz suave ao fundo eram o anestésico perfeito. Sentei-me em uma das banquetas de veludo do balcão de mármore escuro, apoiando os cotovelos na superfície polida. Vejo o barman se aproximou com uma postura impecável. — O que posso servir para a senhorita? — Algo forte — respondi, sem rodeios. — Mas doce o suficiente para mascarar o estrago. Ele assentiu com um meio sorriso cúmplice e iniciou uma alquimia precisa com as garrafas. Enquanto o líquido rosado e denso era despejado na taça de cristal, encarei meu reflexo distorcido no espelho do bar. Que piada infame. Uma vida inteira jogada no lixo por alguém que me tratava como um acessório descartável. Olhei para o drink e dei o primeiro gole. O álcool desceu queimando e suavizando as arestas da minha garganta ao mesmo tempo. As memórias começaram a passar como um filme de terror em câmera lenta. O aniversário impecável que organizei para a garota que ele gostava. Os relógios caros que comprei com o dinheiro do meu suor em datas que ele sequer lembrava que existiam. Todas as madrugadas em que dirigi até o outro lado da cidade para levar remédio, cigarro, qualquer capricho... Eu tinha me tornado invisível para mim mesma enquanto tentava ser indispensável para ele. Burra, idiota, otária me xingava mentalmente de tudo isso. Levei as mãos ao rosto, respirando fundo. Eu virei um capacho. E o pior de tudo: eu permiti que ele me tratasse assim. — Dez anos — sussurrei para o vidro da taça. — Dez anos de pura burrice. Pedro nunca me quis. Ele só gostava da conveniência de ter alguém implorando por sua atenção. Encostei as costas no encosto estofado, sentindo uma virada sutil na minha própria maré interna. Não saberia dizer se amanhã o chão desabaria de vez, mas uma certeza se fixou na minha mente: eu não voltaria atrás. Nunca mais. Ergui a taça contra a luz dourada do bar, um sorriso amargo, mas decidido, surgindo nos meus lábios. — Bem-vinda de volta à sua própria vida, Tamara. Virei um gole longo, sentindo o calor do destilado se espalhar pelas minhas veias, quando o ambiente ao meu redor pareceu mudar de densidade. Antes de qualquer som, veio o perfume. Um aroma amadeirado, complexo e absurdamente opulento. O cheiro de um homem que não pedia permissão para ocupar espaços. Mantive os olhos na taça. A última coisa que eu queria era um homem tentando a sorte em cima da minha ressaca emocional. — Noite difícil? — a voz surgiu às minhas costas. Um barítono rouco, baixo e carregado de uma gravidade magnética. Soltei uma risada curta, sem olhar. — Algo assim. O desconhecido não recuou. Ele se acomodou na banqueta ao lado, mantendo uma distância milimetricamente calculada para não parecer invasivo, mas mantendo uma presença que exigia atenção física. — Seja lá o que tenha acontecido... o homem que causou isso é um idiota completo — ele disse, o tom de voz calmo, quase reflexivo. — Um tolo por não enxergar o que tem bem diante dos olhos. A segurança quase insolente daquela afirmação me fez virar o rosto, pronta para cortar o flerte com uma resposta atravessada. Mas as palavras morreram na minha garganta. O tempo pareceu congelar no bar. Ele tinha olhos de um azul gélido e cortante, emoldurados por cabelos loiro-escuros perfeitamente alinhados de um jeito despretensioso. Tatuagens de traços firmes subiam pelo seu pescoço, sumindo debaixo do colarinho de uma camisa preta de caimento impecável. Ele era imenso, os ombros largos e a postura imponente exalavam o tipo de perigo sofisticado que desarma qualquer defesa. “Meu Deus...” O pensamento atravessou minha mente antes que eu pudesse conter. O que um homem como ele queria com alguém no meu estado? Ele percebeu o impacto que causou. O canto de sua boca se elevou em um sorriso minimalista, enigmático. — Posso te pagar uma bebida? — perguntou, a confiança em suas palavras sugerindo que ele raramente ouvia um "não". Pisquei, forçando minha mente a voltar a funcionar. — E por que, exatamente, eu aceitaria um drink de um completo estranho? O sorriso dele se expandiu de forma lenta, os olhos azuis fixos nos meus, brilhando com um divertimento silencioso. — Porque talvez esse estranho seja... o amor da sua vida. A audácia foi tão inesperada que uma risada legítima escapou dos meus lábios, quebrando o gelo que me sufocava. — O amor da minha vida? — Balancei a cabeça, olhando para o balcão. — Essa palavra foi banida do meu vocabulário hoje. Meu coração acabou de pedir aposentadoria por tempo de serviço. Ele inclinou o corpo sutilmente na minha direção, sem pressa, mas com uma intensidade avassaladora. — Nunca diga nunca, Tamara — ele murmurou. O choque elétrico de ouvir meu nome sair daquela boca travou meus sentidos. Eu não tinha me apresentado. Tentei racionalizar, talvez ele tivesse ouvido Estela gritar no corredor? Ou fosse apenas uma coincidência absurda? Mas antes que eu pudesse questionar, ele fez um sinal discreto para o barman. — Mais uma rodada para ela. E um uísque puro para mim — ele comandou, sem desviar os olhos do meu rosto por um único segundo. Ele estendeu a mão grande sobre o mármore, os dedos longos e firmes parando a centímetros dos meus. — Sou Malik. Malik Stavani. Seu nome soou pesado, como se carregasse um título de nobreza ou uma ameaça implícita. — Tamara Silva — respondi em um sussurro, testando a resistência do meu próprio orgulho. — Eu sei — ele respondeu, a voz descendo para um tom quase imperceptível, seus olhos azuis me escaneando com uma familiaridade assustadora e profunda. Ele não parecia um homem que acabara de me conhecer, mas um predador que finalmente havia encurralado a presa que observava há anos. Um arrepio nítido subiu pela minha espinha. A dor crônica causada por Pedro foi completamente soterrada por uma onda massiva de curiosidade e alerta. — Não preciso que me conte o que aconteceu lá dentro — Malik continuou, quebrando o silêncio com uma calma desconcertante. — Só entenda uma coisa: sua história não termina na ferida que outra pessoa abriu. Às vezes, o verdadeiro jogo começa exatamente quando você acha que perdeu tudo. Fiquei sem ar. A profundidade daquelas palavras parecia cirurgicamente desenhada para o meu caos interno. Ele se afastou um milímetro, dando-me espaço para respirar, enquanto o barman depositava os novos copos entre nós. Malik ergueu o uísque, seu olhar intenso no meu, sustentando uma promessa silenciosa e indecifrável. — Então... — ele desafiou com o olhar. — Aceita o drink? Olhei para a bebida e depois para o abismo azul dos olhos daquele homem misterioso. Algo dentro de mim, trancado a sete chaves, cedeu. — Talvez eu aceite — murmurei, tocando o cristal do meu copo. Ele sorriu de lado, a expressão de quem sabia exatamente qual seria o final dessa noite antes mesmo de ter entrado neste bar. E, pela primeira vez em dez anos, o ar entrou nos meus pulmões sem o peso de uma corrente.






