Mundo de ficçãoIniciar sessãoAyana Brooks nunca imaginou que aceitar o cargo de babá em uma das mansões mais luxuosas de Manhattan significaria entrar em uma casa dominada pelo silêncio, pelo luto… e por um homem que parecia feito de sombras. Malik Anderson é um viúvo bilionário, CEO de um império poderoso, respeitado por todos — menos por si mesmo. Desde a morte da esposa, ele vive em função do filho, mantendo o coração trancado e a alma em ruínas. Entre noites mal dormidas, choros de um bebê e uma convivência impossível de evitar, Ayana começa a devolver vida àquela casa. E Malik, sem perceber, passa a desejar o que jurou nunca mais ter: amor. Mas segredos enterrados ameaçam vir à tona. A imprensa observa cada passo. E cruzar a linha entre patrão e babá pode custar tudo. Em uma Nova York onde o luxo não compra felicidade, entre o luto e o desejo, dois corações feridos precisarão decidir se vale a pena arriscar… mesmo que o preço seja alto demais.
Ler maisBrooklyn / Nova York
— Droga! — esbravejo, me jogando no sofá de dois lugares que tinha na pequena sala da nossa casa, desanimada depois de andar por horas e ouvir a mesma frase da boca de todas aquelas pessoas que me olhavam de cima abaixo como se eu tivesse uma doença contagiosa ou fosse uma marginal unicamente por ser moradora do Brooklyn Eu sequer conseguia terminar de pronunciar as minhas qualificações, pois bastava eu dizer de onde eu vim para em seguida ouvir: "Não há vagas!" E o pior não era ouvir que não haviam vagas, e sim, o momento que fui obrigada a ouvir os absurdos de uma mulher arrogante e prepotente que se dizia gerente de uma boutique de alto nível. Ela teve a coragem e a ousadia de dizer em alto e bom tom: "Não empregamos moradores do Brooklyn, querida. Não queremos assustar nossos clientes. Lá é terra de marginais. É melhor você procurar alguma gangue por lá. Com toda certeza você terá mais sorte, queridinha." — Que ódio! — falo a mim mesma, ao relembrar essa humilhação. A minha vontade era de voar no pescoço daquele girafa vesga de salto alto. Mas eu me contive, não por medo dela, mas por medo de mim mesma e do que eu seria capaz de fazer se desse o primeiro passo. Abro a tela do celular,e começo a mexer sem prestar atenção em nada. A minha mente estava longe. Eu pensava nos problemas que tínhamos, nas dúvidas, no aluguel, nos remédios da minha avó, na sua recuperação e na comida que precisava pôr na mesa todos os dias, mas que a cada porta fechada, ficava mais difícil conseguir. Eu estava aérea, e com o olhar distante, quando de repente a minha avó surge na porta da cozinha, me lança um olhar curioso e pergunta: — O que aconteceu dessa vez, menina? Por que esse mal humor? — O mesmo de sempre, momma. Nada de emprego. Só porta fechada com força na minha cara. Além de ouvir inverdades a respeito do bairro onde vivemos — falo ainda nervosa. — Tenha paciência, minha filha. Em algum momento as coisas vão mudar e portas vão se abrir para você — minha avó diz se aproximando tentando me consolar e me lançando aquele olhar carinhoso que só ela tem. Impaciente passo as mãos em meu rosto. E sinto um nó se formar na minha garganta. Quando isso acontece significa uma única coisa: vou chorar. Mas dessa vez eu não posso deixar o desespero me dominar. Primeiro porque chorando eu não vou conseguir resolver nenhum dos nossos problemas. E segundo, porque existem pessoas em situações mil vezes piores do que a minha. E a minha momma é uma delas. A pouco menos de dois meses ela sofreu uma queda no trabalho que a obrigou a usar moleta e a impossibilitou de continuar as suas atividades, e para piorar a situação, a maldita empresa Anderson Group não prestou os atendimentos e muito menos ofereceu alguma ajuda. Portanto, nossa situação financeira está no limite. Tenho algum dinheiro guardado da rescisão do meu último emprego numa fábrica de tecidos que infelizmente faliu e dispensou todo o quadro de funcionários, mas o que resta é muito pouco, e se eu não conseguir um trabalho o mais rápido possível tenho até medo do que possa vir a nos acontecer. — É o que eu espero, momma... Porque a situação não está nada fácil — falo desanimada. — Vai tomar um banho, trocar de roupa e descer pra almoçar. Isso vai te ajudar. Uma boa comida e uma roupa limpa sempre ajudam a aliviar o peso das lutas da vida — Minha avó disse. Beijou a minha testa e voltou para a cozinha. Eu respiro fundo. Seguro a minha mochila e subo a escada. Entro no meu quarto, pego uma roupa leve e vou tomar um banho gelado, porque o aquecedor que tínhamos estava tão velho que deu curto circuito e por pouco não incendiou a casa inteira. Já de banho tomado e roupa limpa, sento na minha cama. Respiro fundo e tento alinhar os pensamentos. Lembro da minha infância difícil, da perda dos meus pais, em seguida do meu avô, e da difícil situação que minha avó e eu estamos passando. Um filme passa em flashes na minha cabeça e tudo isso só serve para aumentar a minha vontade de chorar. Mas eu não tenho esse direito. Eu não posso me dar ao luxo de desistir. Não só por mim. Mas principalmente pela minha momma 'avó'. Ela é tudo o que me resta de importante nessa vida, e por ela, por nós, eu lutaria até o fim. Deixo o meu celular carregando e desço a escada para almoçar. Mas quando chego no último degrau vejo uma cena que me dilacera. A minha momma estava sentada no sofá, o mesmo que eu estava a poucos minutos. Em suas mãos trêmulas, ela segura uma folha de papel e seu olhar estava perdido. Eu me aproximo. E percebi que ela estava tremendo muito e seus olhos ficaram encharcados de lágrimas. O meu coração aperta. Eu sabia que não havia nada nessa vida que fosse ruim que não pudesse piorar. — O que houve, momma? Por que está nervosa? — falo, sentando na poltrona à sua frente. Ele não me encara. Apenas me entrega o documento, se levanta e começa a caminhar pensativa pela casa. Com o papel nas mãos descubro o motivo do seu silêncio e tristeza. Se tratava de uma ordem de despejo. O dono do imóvel estava vendendo a casa e tínhamos menos de um mês para desocupar o lugar onde resumia toda a nossa vida. Sem saber o que fazer, continuo lendo aquele documento, inutilmente, tentando encontrar algo que nos favoreça. Mas as palavras eram curtas e diretas: "O imóvel será vendido. E os inquilinos têm vinte dias para oferecer uma oferta de compra ou deixar o imóvel." O meu peito fechou, o meu coração errou as batidas por algum tempo. Eu estava desolada, e o pior é que não havia nada que eu pudesse fazer para mudar a nossa situação. Por que eu tinha que passar por tantas provações? Será que algum dia vai surgir uma luz no fim do túnel? As perguntas martelam dentro da minha cabeça enquanto leio e releio aquele documento que mais se pareceu com uma sentença. Mas na verdade era isso que significava. Haviam nos sentenciados sem direito a julgamento, e o veredito não era favorável pra gente. Em seguida, dobrei o papel com cuidado, como se ele pudesse me machucar se eu fosse brusca e firme demais. — A gente vai dar um jeito, momma — digo, mais para convencer a mim mesma do que para tranquilizar a minha avó. Ela para de andar, me encara por alguns segundos e tenta sorrir. É um sorriso fraco, cansado, daqueles que carregam mais medo do que esperança. Eu sabia que ela estava sofrendo muito mais do que eu, porque nesta casa estava guardada todas as recordações boas e ruins da nossa família. E sair daqui significava uma perda imensamente maior do que todas as que já tivemos nessa vida. — Eu sei, minha filha… você sempre dá um jeito — responde, voltando devagar para o sofá. — Só não queria ser mais um peso nas suas costas. Não é justo você carregar sozinha um fardo desse tamanho. — Não fala isso, momma. A senhora nunca foi e nunca será um peso pra mim. Ela segura minha mão com força, como se aquele toque fosse a única coisa firme num mundo que insiste em desabar. Ficamos assim por alguns segundos, em silêncio, ouvindo apenas o barulho distante da rua e o rangido antigo da casa. E em meio a tanta luta, eu não conseguia parar de me perguntar, o que fizemos de errado para está passando por tantas provações. Quando as coisas vão mudar? Como vou resolver esse problema se eu sequer consigo enxergar uma luz no fim do túnel?Ayana BrooksPassei o dia inteiro tentando entender Noah. Não só a rotina escrita em horários, mas o jeito dele existir dentro daquela casa grande demais para um bebê tão pequeno.Aprendi os horários certinhos da mamadeira, os intervalos quase exatos em que ele começava a ficar inquieto, os brinquedos que o acalmavam e aqueles que ele ignorava completamente. Descobri onde Lily guardava as roupas, quais bodies ele aceitava vestir sem reclamar e quais faziam ele se contorcer de irritação. Aprendi o horário do banho, a temperatura da água que o deixava mais tranquilo, o tipo de toalha que ele gostava de agarrar com as mãozinhas. Mas, no meio de tudo isso, algo começou a me incomodar. As sonecas de Noah eram curtas demais. Não eram cochilos profundos, restauradores. Eram pausas rasas, como se ele tivesse medo de dormir por muito tempo. E quando acordava, seus olhos ficavam atentos demais, abertos demais, como se estivessem sempre procurando alguma coisa.Ele observava tudo. O movimento da
Ayana BrooksO emprego que parecia simples demais, na realidade, era mais complicado do que eu poderia imaginar. O anúncio dizia apenas o essencial, e a minha alegria acabou no exato momento em que meus olhos se cruzaram com o de Malik Anderson, o causador de grande parte da situação catastrófica que minha avó e eu estávamos passando. Por culpa dele, a minha momma não recebeu os seus devidos direitos trabalhistas, e em razão disso, a nossa situação financeira declinou completamente. A proposta de emprego que eu recebi era rasa demais para a profundidade, que significa trabalhar para esse homem."Uma vaga disponível de babá em Manhattan. O horário e salário a combinar. Caso tenha interesse, responda a esta mensagem para mais informações."Eu deveria ter desconfiado que tudo isso era bom demais para ser verdade. Mas a realidade é que, quando a necessidade aperta, a desconfiança aprende a cochilar. E eu precisava daquele emprego. Precisava mais do que estava disposta a admitir.A mansão
Manhattan — Senhor Anderson, precisa urgentemente contratar uma nova babá. Noah não para de chorar. E sinceramente... Eu não sei o que fazer. Essas eram as palavras que Lily, a governanta, repetia constantemente desde a morte da minha esposa Maggie. Eu estudei a minha vida inteira para me tornar um homem bem sucedido e CEO de uma das maiores empresas de tecnologia e investimentos do país, a Anderson Group. Mas nenhuma universidade me preparou para perder o grande amor da minha vida, e menos ainda, para cuidar sozinho de um filho de apenas um ano de idade. A nossa casa em Manhattan, que foi construída da maneira que Maggie idealizou, antes silenciosa e organizada, agora estava constantemente em alerta. Literalmente virada de ponta a cabeça. Nada era organizado, e o silêncio que sempre necessito para pôr os pensamentos em ordem não existiam mais. A casa estava uma total desordem, agora parecia viva e em alerta demais. Não existia um cômodo que não tivesse barulho, brinquedos
Ayana Depois do almoço, ajudo a minha avó a se deitar um pouco. A perna dela ainda dói, os antibióticos estão chegando ao fim, e saber que talvez eu não tenha como compra-los me destrói ainda mais. Observo a moleta encostada na parede que mais se parece com um lembrete cruel da injustiça que sofremos. Não consigo entender o porquê do mundo ser tão injusto. Como uma justiça que deveria servir para ajudar quem necessita, concede privilégios apenas para aqueles que possuem mais condições? Às vezes chego a pensar que ao nascermos em famílias humildes automaticamente nos tornamos invisíveis. Mundo cruel e desumano. Fecho a porta do quarto dela e volto para a sala, sentindo o peso da responsabilidade esmagar meu peito. Enquanto organizo a cozinha lembro do documento que dizia: "Vinte dias." Eu tinha somente vinte dias para resolver uma vida inteira. O medo surge com força dentro de mim. Um sentimento cruel que conheço muito bem. Depois de tudo organizado subo novamente para o meu qua
Brooklyn / Nova York — Droga! — esbravejo, me jogando no sofá de dois lugares que tinha na pequena sala da nossa casa, desanimada depois de andar por horas e ouvir a mesma frase da boca de todas aquelas pessoas que me olhavam de cima abaixo como se eu tivesse uma doença contagiosa ou fosse uma marginal unicamente por ser moradora do Brooklyn Eu sequer conseguia terminar de pronunciar as minhas qualificações, pois bastava eu dizer de onde eu vim para em seguida ouvir: "Não há vagas!" E o pior não era ouvir que não haviam vagas, e sim, o momento que fui obrigada a ouvir os absurdos de uma mulher arrogante e prepotente que se dizia gerente de uma boutique de alto nível. Ela teve a coragem e a ousadia de dizer em alto e bom tom: "Não empregamos moradores do Brooklyn, querida. Não queremos assustar nossos clientes. Lá é terra de marginais. É melhor você procurar alguma gangue por lá. Com toda certeza você terá mais sorte, queridinha." — Que ódio! — falo a mim mesma, ao relemb





Último capítulo